Síndroma de Aarhus"
Deve-se proibir os intelectuais de brincar com fósforos"
A publicação das caricaturas sobre
Maomé, por um
xenófobo jornal dinamarquês, seguido pelo tumultuoso espectáculo caseiro de grupos
fundamentalistas muçulmanos, que replicaram com
hadîts (que não ainda a
jihâd) de exortação de fé, ameaças e inaceitáveis actos de violência, revelam não só o ardor belicoso que espera a imprudente e "
licenciosa"
Europa, mas (e há sempre um ... mas, porque o homem é "livre e imprevisível") igualmente fazem pensar sobre a tragédia do pensamento e cultura da modernidade, entendida enquanto "gramática da ruptura" contra a "ordem" e os "valores tradicionais" (urgente reler
Miguel Baptista Pereira).
Não espanta, pois, que a pragmática enunciada pela classe politica, nos jornais ou blogs seja uma mera idolatria do discurso
secularizado, parapeito de posições circulares, mesmo que não consensuais, onde alguma impudência de carácter político-ideológico, em torno da providencial "
liberdade de expressão" (como se ela, de tão copiosamente absoluta para eles, tenha deixado de existir ou se pretenda limitar), "
bom senso" (que para alguns não deixa de ser insidiosamente assombroso, tal o jogo retórico jogado), "
responsabilidade" (inteiramente estranho no mundo daqueles que, como
Gargântua, prescrevem: "
Faz o que quiseres!") e outros avatares presentes no credo do "deísmo racionalista", mais não é que um fenómeno de desculpabilização, ou melhor a justificação do direito de justificar.
Que alguns, mais preclaros, tenham na sua "bondade" panfletária, manifestado uma obsessiva e intolerante
islamofobia (e outros um desvelado
anti-semitismo), mesmo que faça parte da "lógica do predador" instruído, não deixa de ser inquietante. Que outros, mais íntimos de linguagem, menos belicosos e mais sérios, contraponham "
opiniões" a "
actos" - como se o "dizer do fazer" no "discurso da acção" (
Paul Ricouer) presente no sujeito pensante, não deixasse de ser um intencional "epíteto à acção", "signo identificativo" ou um dizer que é "um próprio fazer" - para nos persuadir da validade de uma qualquer opinião expressa (sob que suporte seja), pode ser autêntico mas dispensa sempre a prova de facto.
Que questões em torno da fonte da
tolerância/intolerância (no nosso "reino da liberdade" ou nas "tiranias" dos outros), da tendência evolucionista da
secularização, do conceito de
liberdade (que é individual, económica, social, política, de religião, de expressão e por aí fora) em abstracto ou em concreto, da
universalidade de valores enquanto mero exercício do poder administrativo, do pretenso (e porque não!?) "
choque de civilizações", do direito ao
sagrado como cultura da diferença, do (falhado)
multiculturalismo como deriva (neo)liberal ou como dispositivo utópico da esquerda, do
medo e
terror que hoje se pressagia (haja ou não manipulação política), que tudo isso irrompa com tanta autenticidade, embora sempre lá tenha estado (e por demais debatido), descobre a nossa fragilidade mas não deixa de ser uma ventura luminosa, uma doce e venerável "irresponsabilidade", só presente em espaços
democráticos e plurais. E impossível em países totalitários.
O debate em curso tornou-se, assim, num espaço com um tal
excesso de significantes que diríamos: "
podemos todos morrer de sede em pleno mar". Sabe-se que, nesta crise do "mundo em crise", só a crítica (polémica) que instale uma "vinculação ao futuro" pode configurar a nossa "liberdade presente" e assim sendo, ironicamente ou talvez não, o dispositivo de verdade, para este "
fim de um mundo" (ainda
Guénon, porque não?), pode e deve (também) ser exercido fora do "reino da crítica" (ou da tessitura da razão), território esse que alguns, engajados no politicamente correcto, consideram inamovível. Mesmo sabendo que, seguindo
Rilke, "aquilo que acontece traz um tal avanço sobre aquilo que pensamos, sobre as nossas intenções, que podemos nunca alcançá-lo nem conhecer a sua verdadeira aparência". Et pour cause ...