DEBATES ELEITORAIS & COMENTADORES: O RANÇO“
Não sei o que é o homem. Só sei o seu preço” [
Brecht]
Os
debates eleitorais se fossem feitos num país civilizado e comentados por criaturas intelectualmente genuínas, e não (como é o caso indígena) por sopradores ideologicamente ridículos ou maníacos ignorantes, teriam dignidade responsável e estima acrescida. Porém, cá pela paróquia espanejam-se nos jornais e, principalmente, alapam-se nas TV’s um
curioso raminho de criaturas barulhentas (uma estrebaria quase se assemelha a um lugar de êxtase) e que recitam, todos e de igual modo (lembrando a velha
Mocidade Portuguesa), os intelectivos complementos dos seus triunfantes repertórios partidários.
Os factos, as argumentações e os
episódios ocorridos entre os candidatos eleitorais, passam a ser para esses prodigiosos
comentadores, de imediato, um lugar de desabrida arena partidária e um grave reduto de comunhão geral de ignorância e de iliteracia. Os
comentadores que temos são quase sempre ignorantes e nada prudentes, pouco estudiosos e muito vaidosos, indigentes e nada sensatos. Sem nunca transportar o cidadão para a matéria e o desafio que o orador propôs, referindo o cuidado conceptual exposto e as impressões ou erros que o contraditório esgrimiu, os nossos dobrados comentadores-políticos travam de imediato a (sua) dura peleja contra o presumido
adversário ideológico, como se fossem eles sábios e talentosos dirigentes partidários. Tais especiosos agitadores, que na maioria das vezes nem sabem do que estão a falar, diriam sempre idênticos superlativos, mesmo se o debate nunca tivesse existido. A
cassete, essa, está sempre lá.
Veja-se, sobre o assunto, o prosaísmo dessa laudatória criatura, de nome
João Vieira Pereira (
Expresso, p. 8), que, qual vendedor de banha da cobra, afirma, em comentário ao debate
Sócrates-Portas:"
... este era porventura o mais difícil debate que Sócrates tinha pela frente, daqui em diante terá alguns passeios no parque com os restantes candidatos, inclusive com Manuel Ferreira Leite" [
sic]. Escreve esta genialidade num jornal de referência. Bem-humorado e beneficente anda o rapaz,
Henrique Monteiro.
Porém, o máximo exibicionismo dessa fancaria televisiva teve (ontem) lugar após o (apenas) melhor e mais esclarecedor
debate, até à data, patrocinado por
Louçã e
Ferreira Leite. Em todas as TV’s (
SIC-N,
RTPN e
TVI7), qual barraca de feira, divinamente surgiram um
raminho de comentadores da boa escola da superstição liberal, quase sempre desleixados no belo argumento, que com respigadas tiradas garganteadas de remotos tempos económicos e com cabotina espuma labial, trataram o dr.
Louçã com o desprezo e a idiotia que a D.
Manuela não personificou.
O mundo dessas criaturas - com especial relevância para o ridículo
João Duque, a bafienta
Inês Serra Lopes, o mastigado
Joaquim Aguiar ou aquele jovem decorativo que a
RTPN nos deu a conhecer e que garante que os "
custos salariais" das
PME são mais determinantes para elas que os seus "
custos financeiros" (o garrote financeiro das
PME é para esse iluminado fruto, unicamente, da
Lei Laboral) -, que nunca foram gestores de coisa alguma e nem a isso se candidataram, o mundo (económico e social) para tais sábios parou no tempo. Eis o
ranço desses novos
Velhos do Restelo!
Quando o sábio
Joaquim Aguiar, em defesa do seu patrão
Mello e sobre um
pacífico assunto (pelo menos nos países civilizados) sobre a detenção pelo Estado de bens essenciais (referido por
Louçã), regressa em assombro a 1975 (e cita até
Melo Antunes), diz bem o
atoleiro em que a saudosista e indigente intelectualidade nos meteu. E de que não há saída.