quarta-feira, 1 de dezembro de 2004


[Dia da Restauração]

"... Naqueles ditosos tempos (mas menos ditosos que os futuros) nenhuma coisa se lia no mundo senão as navegações e conquistas de Portugueses. Esta História será o silêncio de todas as histórias. Os inimigos lerão nela suas ruínas, os émulos suas invejas e só Portugal suas glórias. Tal é a História, Portugueses, que vos presento, e por isso na língua vossa ..." [Padre António Vieira, in História do Futuro, INCM, 1982]

"Já o tempo desejado
é chegado,
segundo firmal assenta.
Já se cerram os quarenta
desta era, que se ementa
por um Doutor já passado.
O rei novo é levantado
já dá brado,
já assoma sua bandeira
contra a Grifa parideira,
logomeira,
que tais prados tem gastado.
Saia, saia esse Infante
bem andante!
O seu nome é Dom João" [Bandarra]

[A Cambalhota do dr. Sampaio]

Deu ontem uma elevada cambalhota, seguida de um prudente flic-flac, o senhor Presidente da República, decerto para que os indígenas celebrassem, viçosamente, o Dia da Restauração. Depois de há quatro meses o dr. Sampaio enaltecer as virtudes do bom governo, contra a gratidão da populaça, entendeu agora dissolver o Parlamento. O dia estava predestinado. O governo moribundo de Lopes & Portas estava crivado de farpas por todos os lados, arrastava-se numa lenta agonia e intempestivas desditas. A governação era um calvário comovente. A utilidade temporal deste Parlamento que a tudo diz amém, na sua doméstica devoção, era nenhuma. A coisa tinha de se dar.

Mas a ilusão de óptica de contemplar o progenitor abatendo o seu dilecto fruto, não é coisa de estima geral. A reflexão presidencial consumiu-se numa cabriolada entre o devir formalista constitucional e os desamores presidenciais. E ninguém, de boa fé, entende a sua tardia inspiração. Daí o espanto.

A situação económica e política estão envoltas num caos. A espada de Ferreira Leite contra o deficit, ou aquilo que estrondosamente se denomina "consolidação orçamental", se muito jubilosa para muitos curiosos da economia política, não pode deixar de confessar-se que é um singular engodo. O País está pior do que no tempo do eng. Guterres e do inenarrável Pina Moura. Vale a pena dizer, sem qualquer rebuço, que a causa disso não pode ser apontada a Santana Lopes. A vida pode ser uma sucessão de movimentos, mas a economia tem os seus timings, quase religiosos. E isso já se sabia, quatro meses atrás. Ora os dois anos de ferrete Barrosista, mais o ano que se lhe segue (eleições em Fevereiro) corresponde a vários anos de atraso económico e social, que muito dificilmente será revertido. O País, decididamente, descolou da civilização. Culpas? De todos nós. E não temos absolvição.

terça-feira, 30 de novembro de 2004

[Momento]

" ... Ó Grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje
" [Álvaro de Campos]

[1935, às 20h30m, Fernando Pessoa liberta-se do corpo]

"Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver" [in, Livro do Dessassossego]

"Como o presente é antiquíssimo, porque tudo, quando existiu, foi presente, eu tenho para as cousas, porque pertencem ao presente, carinhos de antiquário, e fúrias de coleccionador precedido para quem me tira os meus erros sobre as cousas com plausíveis, e até verdadeiras, explicações científicas e baseadas. As várias posições que uma borboleta que voa ocupa sucessivamente no espaço são aos meus olhos maravilhados varias cousas que ficam no espaço visivelmente" [ibidem]

"Guy mais um minuto e é amanhã"

"... Fundador da Internationale Situationniste e autor de um livro, «A Sociedade de Espectáculo», que marcou a geração de Maio de 68, era um homem que vinha de longe: das vanguardas artísticas dos anos 50, descendentes do dadaísmo e do surrealismo. Da crítica da arte, à crítica da mercadoria e do espectáculo, Debord foi um dos xamãs dos miúdos que se revoltaram nas barricadas parisienses. Matou-se como Lafargue, porque não aceitava a decadência. «Guy, mais um minuto e é amanhã», sussura uma rapariga, num dos seus filmes ..."

[Torcato Sepúlveda, in Jornal Público, 02/12/1994]

[m. Oscar Wilde , 30 de Novembro 1900]

"... A desobediência, aos olhos de qualquer pessoa que tenha lido história, é a virtude original do homem. Através da desobediência é que se têm feito progressos, através da desobediência e através da rebelião (...) Posso compreender aquele homem que aceita as leis que protegem a propriedade privada, admitindo que esta acumule, enquanto que ele mesmo, sob estas condições, tenha possibilidade de realizar, de uma forma ou de outra, uma vida formosa e intelectual. Mas não posso compreender que aquele a quem essas leis destroçam e tornam a vida horrível, possa esta de acordo em que as mesmas continuem (...) É por esta razão que os agitadores são absolutamente necessários. Sem eles, no estado incompleto em que nos encontramos, não haveria qualquer avanço da civilização ..." [Oscar Wilde, in A Alma do Homem sob o Socialismo, Lisboa, 1975]

segunda-feira, 29 de novembro de 2004


Giacomo Puccini [m. 29 de Novembro de 1924]

[Fuga & Queda]

Dito e feito. Quando a crise é anunciada progressivamente, com ou sem escândalo, por homens como Vítor Constâncio, Miguel Cadilhe, Belmiro de Azevedo, Cavaco Silva, Mário Soares, Ferraz da Costa, Freitas do Amaral, et al, é certo e sabido que os "ratos" começam a abandonar o navio. Quando, além de prenunciada, ela entra, furiosamente, por todas as portas, todos curvam os joelhos e se afastam da governação. Nunca há palmas para o martírio. Nunca há paixão na tormenta. Sobre os destroços do que vem por aí, nenhum quer estar.

Coube a Henrique Chaves a graça de dar início às hostilidades. Figura curiosa esta. Tanto alvoraça o Congresso em amparo do chefe, como de repente desaparece. O tom panfletário que aplica no seu pedido de demissão é de uma estranheza invulgar. E, depois das afirmações produzidas por João Sá contra Cadilhe, só mesmo esta caricata cena de auto-despedimento, com justa causa, para animar a semana.

A capacidade receptiva e a margem de manobra de Jorge Sampaio esgota-se. A nossa paciência, também. Depois dos dois últimos anos de desgovernação Guterrista, levámos com a cruz da incompetência Barrosista, para cairmos no ungido Santana, rei da trapalhada e populista-mor de serviço à Nação. Pior não era possível. Só o dr. Sampaio não entendeu que primeiro que "o regular funcionamento das instituições" estava o País. E não há nenhum país que resista a todos esses anos, sem perder a sensatez e a vergonha.

Como sair disto tudo? Tem Santana Lopes condições pessoais e políticas para estar à frente do governo? Pode o dr. Sampaio fazer agora, o que não quis fazer meses antes, isto é utilizar a "bomba atómica" da dissolução da Assembleia? Tem Sampaio garantias que a continuação do governo é possível e desejável? É praticável a dissolução da Assembleia numa altura em que o orçamento de estado está em marcha? Está o PPD de Santana Lopes interessado em eleições? Ainda tem apoiantes credíveis? Para onde cairá Morais Sarmento? Está Sócrates preparado para governar? Ou espera que Lopes & Portas se consumam ainda mais? Que fazer desta desordem? O País aguenta tanto?
[Dona Política)

"... Todos falam de política, muitos compõem livros dela e no cabo nenhum a viu, nem sabe de que cor é. Atrevo-me a afirmar isto assim, porque, com eu ter poucos conhecimentos dela, sei que é uma má peça e que não fariam bons entendimentos se a conheceram de pais e avós, tais que querem lhos souber mal poderá ter por bom o fruto que nasceu de tão más plantas (...) é de saber que no tempo em que Herodes matou os inocentes, deu um catarro tão grande no diabo que o fez vomitar peçonha e desta se gerou um monstro, assim como nascem ratos ex matéria putridi, ao qual chamaram os críticos «Razão de Estado», e esta Senhora saiu tão presumida que tratou de casar, e seu pai a desposou com um mancebo robusto e de más manhas, que havia por nome «Amor Próprio», filho bastardo da primeira desobediência. De ambos nasceu uma filha a que chamaram Dona Política. Dotaram-na de sagacidade hereditária e modéstia postiça (...) E eis quem é a Dona Política ..."

[in Arte de Furtar, atribuída ao Padre António Vieira ou a João Pinto Ribeiro ou Tomé Vieira da Veiga ou António de Sousa de Macedo ou António da Silva e Sousa, ou Padre Manuel da Costa, Amesterdão, 1652 ou Lisboa, 1743 (aliás 1937, Livraria Peninsular Editora)]

sábado, 27 de novembro de 2004


In Memoriam de Fernando Valle [1900-2004]

Fernando Vale era "um homem bom, a todos os títulos, excepcional. Primeiro, é um homem de bem, impoluto, de uma seriedade exemplar. Depois, é um homem bom, de boa e recta consciência, de um só rosto e uma só fé, amigo do seu amigo, de incomparável generosidade"

[Mário Soares, in Fernando Valle, Um Aristocrata da Esquerda, de Fernando Madaíl, 2004]

Dissemos nós: Fernando Valle nasceu na Cerdeira, Arganil, em 30 de Julho de 1900. Estudou inicialmente em Coja, tendo ido para Coimbra continuar os estudos liceais, completando posteriormente o curso de medicina. Foi exercer a profissão em Arganil, onde fez um trabalho meritório em prol do Hospital e das sociedades culturais e recreativas locais. Manifestando um interesse particular por questões sociais e políticas, este médico e maçon (o mais velho do mundo, possivelmente) é demitido de cargos públicos por apoiar a candidatura de Norton de Matos, apadrinha a candidatura de Humberto Delgado, é preso em 1962 (partilhou a cela com José Mário Branco), preside à reunião inicial da fundação do Partido Socialista, na Alemanha, tendo pertencido à Comissão Administrativa de Arganil a seguir ao 25 de Abril e, pelo I Governo Constitucional, exerceu o cargo de Governador Civil de Coimbra.
Uma vida inteira dedicada a lutar "pela libertação do homem ... um regime de direito em que seja possível, de facto, a paz, a liberdade e a justiça social".

"Eis senão quando vem Fernando Vale
Com o seu cabelo banco e seu sorriso
Traz consigo uma velha trilogia
Liberdade (diz ele) E há nos seus olhos
Uma bandeira a conduzir o povo
Igualdade (diz ele) E chegam guerrilheiros
Com as suas armas e sua festa
..........
Fraternidade (diz) E aí estamos nós
De novo de mão na mão
Prontos para o combate
E para o não ...
"

[Manuel Alegre, in Fernando Valle, Um Aristocrata da Esquerda, de Fernando Madaíl, 2004]
[Os Filhos-da-Puta]

"... os filhos-da-puta (...) conhecem-se bem uns aos outros, pelos lugares que ocupam e só podem ser ocupados por eles [Quando não é este o caso, processa-se a conhecida cerimónia de «apresentação», na qual os intervenientes se esforçam por mostrar que sabem ocultar o que não querem mostrar ...]; deste modo é fácil associarem-se para fazer as coisas mencionadas e outras, muitas outras, públicas e particulares. Por vezes, negoceiam particularmente o bem público se isto porém é dito publicamente, ofendem-se porque consideram que se trata de um ingerência particular na sua vida particular. Todo o filho-da-puta é altamente cioso da sua vida particular, porque a vida particular dos filhos-da-puta é quase sempre, de uma ou outra maneira, pública. Todo o filho-da-puta tem sempre um motivo público para os seus actos particulares e um motivo particular para os seus actos públicos ..." [Alberto Pimenta, in Discurso sobre o filho-da-puta, 1977]

Filho-da-Puta & Outros

Um dos garotos de Paulo Portas, em tom encomiástico, decerto no tédio da sua assessoria, lança-nos o epíteto de filho da puta. A urbanidade e o tom brando do miúdo fez-nos, evidentemente, ficar preocupados. As palavras laudatórias, mesmo que singelas, segredavam às nossas orelhas. De onde conhecíamos o espécimen é que não estava esclarecido. Nunca tomámos o café juntos na Bénard e temos ideia que jamais subimos braço-no-braço o Príncipe Real, a caminho dos antiquários ou em visita ao Pacheco. A verdade é que não o reconhecemos como conviva do Tavares e estamos plenamente convencidos não ter visto ninguém a pavonear-se no Largo do Caldas, como um histrião de feira, recentemente. Sabemos que a vida mundana é monótona e a paisagem estranha. Porém, a única vez que assomámos ao Parque Eduardo VII foi para seguir uma magistral prelecção de Gonçalo Ribeiro Teles, sobre ruas e jardins. Poderia ser que nos tivéssemos cruzado na FNAC do Chiado, mas decerto as futilidades mundanas não ganham espírito de assessoria. Da Pastelaria Versailles nem pensar. O mistério, devemos confessar, era excessivo. Até que voz amiga nos confidenciou, por desgraça nossa, que o memorial laudativo era dirigido aos acólitos do assessor, por ser dia de despacho. Descansámos, finalmente.

quinta-feira, 25 de novembro de 2004


[Confessionário]

- de Pedro Mexia. O eco da dor que cobriu de luto a confissão de Pedro Mexia às manápulas dos miúdos do Portas & Cia é uma desgraça do seu mérito admirável. Ser obediente, em gratidão eterna, uma fadiga com paixão. Ser pouco diligente nos trabalhos apostólicos da extrema-direita é um gemido, uma alforria irreligiosa e ímpia. Ser insultado por estes senhores, um sublime espectáculo. Não há salvação para Pedro Mexia. O homem virtuoso deve fazer jejum para esquecer quanto vale. O homem prudente não busca instruir além do que a educação permite. Não procura indulgências. Nem exercita a virtude do contraditório. O erro de Pedro Mexia é ser crédulo. O que convenhamos é raro nos tempos d'hoje.

- de Santana Lopes a Judite de Sousa. A oratória do nosso primeiro sobre a providência governamental foi curiosa. Na crítica, da crítica crítica com que brindou os indígenas lusos, é necessário confessar que o espírito frívolo de Lopes não é a sua fraqueza. As confissões políticas fazem os homens diferentes. A criatura é uma lamúria pegada. De aflição em aflição, de desgraça em desgraça, a noite venturosa foi depois. Estava ainda Judite de Sousa posta em sossego, os jornalistas ainda aturdidos e o Portas a pregar doutrina a quem se oferece, eis que numa infinita misericórdia o primeiro-ministro, atraiçoado pelas sombras da noite, sepultou o Gomes da Silva dos assuntos Para-lamentar(es). O insólito de tão tocante estratégia admirável só encontra eco na figura desfalecida do Silva do contraditório antes de lhe fugir a luz dos holofotes televisivos. Doravante, o desamparado Silva será o Santana de Santana, o extremado protector daquele que afastou os olhos da relaxação dos homens da coligação. E Morais Sarmento, cruelmente erigido como central de intoxicação, provará talvez o capricho de tomar a rédea de um PPD inadvertidamente só em campanha eleitoral. Exultemos.
[Ecos da Alma]

- Aniversário. Da Causa Nossa. A política revelada, a iluminura coimbrã, o trabalho generoso. O espanto. A escrita como prazer. A política sem chagas. Daqui, dos campos sacrossantos do Mondego, uma especial saudação. Mesmo que bastante fora de tempo. Mas por causa dos tempos. Parabéns!

- 2 Livros 2

Pois bem. Eis "uma demanda de corpos e palavras. Porque «é difícil dizer o que os corpos sentem quando se dão». Sem «instruções de montagem»". Um livro "Talismã". De Carlos Alberto Machado. Campo dos Afectos. De muita saudade.

Dizem:"As Não-Metamorfoses é a última aventura extra-virtual de Alexandre Andrade". Um livro de contos. 10 contos publicados pela Editora Errata. Cá estamos para acompanhar. A blogosfera está linda.