O Rato Acidental
"
Et admirata est universa terra post bestiam"
Era a
blogosfera portuguesa um espaço maculado por devotos do arrufo, uma assuada inaudita, um monólogo de "
pombas" toleironas, graciosas evocações, um monumento de posts em pieguices disparatadas, um vazio enorme.
Um horror! Imersos na bruma, desconhecíamos o assombro de dias jubilosos, a vanglória do gracejo ou a verve da malícia do espírito. Não havia meninos de coro! Apenas simples alaridos. Desamparados de cintilante liberalidade, declinava-se opulentos protestatórios, quase sempre alvares e furibundos, numa vaidade pecadora e ardente de desaforos. Não tínhamos emenda. Nem musicalidade. Muito menos
espiritualidade.
Com receio, sabíamos que, com
Pedro Lomba a "jornalar",
Coutinho deslizando n'
O Expresso e
Mexia em surtidas aventureiras de paixão, a blogosfera se desintegraria em singular azedume, tropelias e injúrias. Afadistada, a
blogosfera portuguesa assistiria à sua derrocada. É certo que o
Alberto-a-Dias passava atestados desbragados de tortuosas penitências, o
Luciano Espectador condimentava as suas noutes em patológico delírio e o
guarda-portão liberal surpreendia o próprio
Berlin. Não seria, pois, por falta de higiene intelectual que a eloquência guaguejante dessas personagens fascinava de colorido a blogosfera, asseveram os mais preclaros bloguistas. Era correcto. Mas essa inteligência retardatária não bastava. Não era surpresa. Apenas manutenção das suas sinecuras. A festa tinha que se fazer. Com elegância.
É assim que as coisas começam. Por mistérios da política, arribou aqui, sem enfado, o assombroso génio que produziu a "
A Encruzilhada", curioso trabalho de imprecação geoestratégica & geopolítica, que por modéstia assina
Vasco Rato, quando em posição académica. A linguagem florida do
terrorismo, a prosa adocicada sobre o "
Choque das Civilizações", a desdita da urgência dos
protectorados americanos nos indígenas, o requinte da ressurreição das
ADM, os retoques apaixonados à silhueta de
Khadaffi, a caligrafia que esmaga ou a trovoada de argumentos sobre a democratização do
Iraque, equivale a uma lucidez que fuzila o espírito da chusma da blogosfera. Com o
Vasco e as suas bulas, dobraremos o cabo tormentório, sairemos de profundo letargo, inchamos de comunidade internacional. O
vate da Lusíada, com a louçania do seu talento, a auréola da cotação do
IDN, investe na despeitada blogosfera, numa exibição babada de frases desencabrestadas, refinadas de civilidade, prenhes de cidadania. A
blogosfera nunca mais será a mesma. Mesmo que o fulgor do
Rato acidental, envolto em túnica branca, ameace expor a sua sensibilidade naturista às aclamações da turba do "
exército do bem", estamos em perfeita ressurgência. Façam favor de afiar as esferográficas. Sorte admirável a nossa.