Eleições: o dia do desespero
Cansados do monóculo do Prof.
Marcelo, confessamos que sentimos um apetite imenso para espadeirar as imprudências que (des)legitimam estas
eleições. Aturdidos com tantas análises, e à falta de uma única que já se vê tem a graça do
José Manuel Fernandes, cientes da dispersão do público pelos futebóis e esconjurados os exorcismos musicais, declaramos patrocinar este singular exame que invoca o país profundo a
não folgar. Mesmo que o pronto a pensar não tenha a intensidade dramática do
Delgado, a vibração conceptual do arq.
Saraiva ou a frieza congelada do
Bettencourt, eis-nos inspirados pela arte do melodrama. E não atendeis ao dizer que "
a mais alta, como a mais baixa forma de crítica é uma autobiografia" [
O. Wilde]. Não vos perdoaríamos.
Organizar o país, diz o valido da
coligação. E zás,
Barroso numa rendida mesura informativa diz-nos que o primeiro-ministro é o camarada
Carvalhas. Com punhos de rendas, pretende amestrar as revindicações em tempo do
Euro, ao mesmo tempo que vai retalhando privatizações, autopsiando a
PJ, peregrinando guerras, escaqueirando a paciência do confrade luso. A ternura acariciante do Primeiro-Ministro pelos executores é uma carpintaria de repetição
ad nauseam que provoca no indígena o recuerdo de
Jorge de Sena: «
os nobres palavrões [são] essenciais à vida». Daí a elevação com que o gentio trata a governação. Em especial o tacteante
Portas e o impagável humorista
Pires de Lima.
Das
eleições europeias exala-se um hálito bafiento entre a galeria dos notáveis. Na coligação, sobressai o polido
Deus Pinheiro, agora que deixou a vergonha em casa (ao mesmo tempo que a manta e o saco de golfe) e o extenuado
Graça Moura, que em linguagem maneirinha pontifica. O
Torga é que o topava bem. Adiante! Resta saber como justificará este
PP, repleto de cocheiros e desordeiros, o incomodo de nada dizer sobre a sua posição face à política europeia, resignado que está a ladrilhar em silêncio a rota eleitoral. O
vaudeville será luxuriante, cremos. Ou então a cambalhota europeia precisa de ser rebuscada, pelo que se aguarda os pinotes vocabulares do comissário
Vasco Rato ou os versículos brejeiros do jovem
Paulo Pinto Mascarenhas (aproveita-se para registar a eficaz campanha desse duo de profissionais, em apoio ao
Bloco de Esquerda. Estamos, definitivamente, convencidos). A chinfrineira será comovente.
A sorrateira campanha de
Sousa Franco, entretido em ócios de felicidade, reapareceu esta semana com um facto político noviciado: a putativa candidatura do professor às Presidenciais. Supõe-se que o país embezerrou. Pode ser que tenha mesmo dispersado, em solenes defumações de alecrim, fatigado por ver o tiro nos pés do caloroso pretendente. A nosso ver, a gente civilizada não abre clareiras assim. Avança, com prudência, sobre o tempo, chega primeiro, escreve depois. No resto, uma pergunta e várias respostas: que diferencia
Sousa Franco de
Deus Pinheiro? Sabem? Ou "
la vraie vie est ailleurs"? E se é certo, como diria
Sartre, que "
é a intenção, como diz a moral kantiana, que deve ser radical", então onde está o desafio? O alarido da candidata
Ilda não nos comove. A desafinada e guaguejante fanfarra sobre a
Europa é tal que se sai quase sempre do assunto em andamento. Os indígenas não são mudos. Muito menos tolhidos intelectualmente. Resta o
BE, esses versistas da radicalidade lusa, agora (?) convertidos à moderna
Europa dos trabalhadores. No bucolismo de
Miguel Portas não se vislumbra pregação sobre o projecto de construção europeia ou certezas sobre as competências das diversas instituições. Apenas dúvidas. O que é sugestivo. Ou não fosse
Portugal um país de poetas.