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Terça-feira, Janeiro 18, 2005
Ary dos Santos [m. 18 Janeiro de 1984] "... A poesia é de mel ou de cicuta? Quando um poeta se interroga e escuta ouve ternura luta espanto ou espasmo? Ouve como quiser seja o que for fazer poemas é escrever amor a poesia o que tem de ser é orgasmo" [Ary] "Isto vai meus amigos, isto vai um passo atrás são sempre dois em frente e um povo verdadeiro não se trai não quer gente mais gente que outra gente Isto vai meus amigos isto vai O que é preciso é ter sempre presente Que o presente é um tempo que se vai E o futuro é o tempo resistente ..." [Ary, in O Futuro, 1978] "... Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não!" [Ary] Locais: Ary dos Santos / José Carlos Ary Santos / Ary dos Santos (1937-84) / Biografia / A Máquina Fotográfica / Queixa e imprecações dum condenado à morte / Poemas / Aqui Jaz Ary dos Santos sentado no muro do cemitério a ver passar a classe operária
Momento absolutamente desportivo "Who has good luck is good, Who has bad luck is bad" [Brecht] Apartados do mundo - oh eterno bridge p'la noute dentro - não acompanhámos o mistério do gozo e vil penar dos aspirantes ao título de campeon nacional de futebol. Mas generosidade amiga, em terras do Mondego, com o senhor Reytor lá no cimo venerando, contou-nos a dedicaçon que os emissários do Norte transportaram no jogo com os estudantes da Briosa. Espíritos devassos confessam o desgosto de não se tirar proveito da alegre passeata dos azuis e brancos e, evidentemente, de não lhes ter ensinado a tabuada. Ah meus caros amigos, como soys caprichosos! Em banhos na Madeira, Peseiro & seus formosos muchachos, tiveram o mayor dos recolhimentos. As fadigas de Sá Pinto, a decoração defensiva de Polga e a energia de Paíto são salutares temperos na fecunda equipa d'Alvalade. Os assuntos futebolísticos dos verdes são cada vez mais lavrados em inocentes jogatinas em versão solteiros contra casados. Só a fé é que os salva. E o Dias da Cunha. Não vale a pena ruborizarem-se. Convertei-vos! Ah! e que dizer da eloquência do futebol avermelhado? Daquele momento heróico, cheio de Mantorras, temperado por Simãozinho, que a eternidade gravou? Vós, educados nos sãos princípios do futebol, submissos ao belo e severos às lides da bola respigai soidades. Prestai homenagem. E vós ímpios, nada de prantos! Aproxima-se a inevitável hora. Fazei vénia. Disse.
[Manias de bibliófilos]
"... Um falecido estanceiro, bibliófilo amador, que mercê de muitos contos de réis conseguiu reunir uma preciosa livraria, esse esperava nos leilões que o volume desejado excedesse o lanço de cinquenta mil réis para o arrematar. Até esta altura, o livro não era digno dele - era entulho sem valor. Mas logo que o desejado calhamaço excedesse a bitola dos cinquenta, tínhamos homem. Já não o largava. Eu ainda conheci um patusco que comprava todas as Artes de Furtar, da hipotética autoria do Padre António Vieira, que topasse à venda em alfarrabistas ou de que tivesse notícia por catálogos ou informações pessoais. Assim alcançou uma duas ou três dezenas. Um dia, tendo os encharcados previamente de petróleo, deitou-lhes o fogo num pátio interior da casa onde morava, no meio dos protestos da vizinhança, escamada com a fumaceira que invadia os prédios circundantes até às águas furtadas. Queria o bom homem - vejam lá esta ratice! tornar rara aquela obra. Tempo perdido, porque a Arte de Furtar ainda hoje não figura no elenco das raridades ..." [Cardoso Martha, in Almanaque do Jornal O Século, 1931] Segunda-feira, Janeiro 17, 2005
Calderón de la Barca [n. 17 Janeiro de 1600-1681] "Apurar, ó céus, pretendo, já que me tratais assi, que delito cometi contra vós outros, nascendo; que, se nasci, já entendo qual delito hei cometido: bastante causa há servido vossa justiça e rigor, pois que o delito maior do homem é ter nascido ..." [in La Vida es Sueño, trad. Jorge de Sena] Locais: Calderón de la Barca / Pedro Calderón de la Barca / La vida es sueño / Poemas
A mezinha de Barreto, a sabatina do Espada e o ministro Rosado Carvalho O que seriam as nossas vidas sem as croniquetas e as oratórias dos divinos António Barreto, João Carlos Espada e Carlos Rosado de Carvalho? Decerto a dor de não tresler a tribuna sagrada de António Barreto no Público seria um tormento horrendo, um choro desvalido, uma maldade moderna. Não aludir nas conversetas de café o ímpeto neo-liberal do profeta Espada nas páginas d'O Expresso, um desaforo severo, uma insensatez pedante. Deixar de ouvir o putativo ministeriável Rosado de Carvalho e a sua economia amestrada, na SIC-Notícias, um esquecimento mesquinho. A obediência a estes preclaros doutores, que com a pena e a palavra instruem os indígenas lusos e quiçá europeus, é um sentimento nobre e a esperança que o País, embevecido, contempla a sua própria ruína. A obra libertadora com que adoçam os seus queixumes sobre a horrível ralé, a média burguesia ou o pé descalço, arrisca-se a ganhar a imortalidade. Portugal, com tais apologistas, brilhará para todos nós. Sigamos os mestres, pois. Cumpre-nos referir, no entanto, aos sábios e inocentes pregadores que as venturosas sabatinas que temos o privilégio de atender andam tumultuosas. Esta semana, por exemplo, a mezinha de Barreto diz-nos que o problema do ignóbil Portugal pode ser resolúvel pelo pacote do sistema de círculos uninominais. Mais, não sabendo bem como seria a sua configuração, Barreto assegura-nos uma certeza: na impossibilidade de mudar de país, contra os políticos populistas e deputados inúteis, resta-nos alterar o sistema eleitoral. Era, pois, certo e sabido que doravante chegaríamos ao topo da Europa e da civilização. O povo, resignado, inculto e iletrado compreenderia, e castigaria, na sua bondade democrática, os caciques distritais e nacionais, os suspeitos do costume. Um mar de rosas. Por fim, a sabatina de Espada sobre "O desafio do Oriente", no Expresso, é de uma grandeza libertária inolvidável. Ficámos persuadidos. Pois, se até o director do departamento de ciência política da Universidade de Sun Ya Tsen (longa vida camarada Mao) fala "inglês fluente", porque razão não entramos já nesse novo campeonato mundial de baixa de impostos!? Absolutamente, professor. E que dizer do temerário Rosado de Carvalho que garantiu na SIC, a propósito da eliminação dos benefícios fiscais, e contrariando os desígnios de Lopes & Sócrates, que se deve liquidar não uma classe média, mas duas ou três, de preferência (sic)!? Genial o douto politólogo. Ainda vai a ministro. Oremos.
[Em 1966 "Sounds of Silence" por Simon and Garfunkel. Nunca mais fomos os mesmos. Nunca mais ficámos quietos no incêndio do nosso coração. Nunca mais.] "Hello darkness, my old friend, I've come to talk with you again, Because a vision softly creeping, Left its seeds while I was sleeping, And the vision that was planted in my brain Still remains Within the sound of silence. ... «The words of the prophets are written on the subway walls And tenement halls» And whisper'd in the sounds of silence". [The Sound of Silence] Locais: Simon and Garfunkel / Simon and Garfunkel / The Simon and Garfunkel Homepage / Poet Musician Artist - A Critical Commentary / The Sound of Silence / The Sound of Silence (Lyrics) / Sounds Of Silence (Lyrics - tradução) Sábado, Janeiro 15, 2005
[A Bem da Nação] "Os homens parecem-se como corvos de olhos fixos que levantam voo por sobre os cadáveres e todos os peles-vermelhas são chefes de estação" [Francis Picabia] Desfilaram esta semana um conjunto apreciável de sujeitos nas festas eleitorais. Enquanto a gravidade económica do país era assinalada, curiosamente também pelos que mais participaram na sua mediocridade, cá dentro e nos países civilizados, os diferentes espíritos da coisa pública, em discursos buliçosos, entravam no mais perfeito dislate. Supõe-se que os parcos aplausos eram todos "a Bem da Nação". A crónica inicia-se pela apologia inenarrável do despeitado turista acidental, Morais Sarmento, a banhos em S. Tomé. A fraseologia usada revela-se de pouca singularidade. Fosse o ministro Sarmento um qualquer gentio da província, um ilustre desconhecido da administração pública, tivesse vestido a farpela fútil d'algum secretário de estado ou ministro-a-dias, que a palestra em sua defesa não existiria. O tiroteio seguido de intensa emoção, que o facto desvelaria, percorreria o país de lés-a-lés, e os frémitos contra o desafortunado turista produziriam em todas as bancadas espasmos colossais. Mas o homem era outro. Neste caso, passe o dito cheio de graça de Lobo Xavier que jura que Sarmento é homem de sucesso (curiosamente, todas as luminárias da politica o são, caso do próprio Xavier), a classe política juntamente com alguns opinion makers de serviço à Nação fizeram a desafronta e chibataram a plebe. Que não deve ter gostado da reprimenda. Quanto ao cada vez mais clone de Santana Lopes, o eng. Sócrates, o caso é deveras admirável. A sua afoiteza em jurar eterno apoio do Estado aos mais pobres, "aqueles que se encontram abaixo do limiar da pobreza", fez lembrar com eterna saudade o outro engenheiro, de nome Guterres. A gaffe é elucidativa. A história repete-se. Como dizia o outro, "a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa". A peça espectaculosa sobre a eliminação ou não dos benefícios fiscais num futuro governo de Sócrates foi clarificadora. Diz-se uma qualquer coisa, não importa o quê, contra o governo com a alegação que a classe média é penalizada, que não há equidade fiscal, e noutro momento, imperturbavelmente, faz-se o elogio da estabilidade fiscal Santanista. Não há paciência para iluminadores assim. Ninguém resiste a tal grotesco.
Leilão de Livros na Leiria & Nascimento [Dia 19 de Janeiro, 15 h e 21,30h - Pavilhão das Exposições da Tapada da Ajuda] O primeiro leilão do ano inicia-se com um conjunto de valiosas e estimadas peças, catalogadas por José Vicente (da Livraria Olisipo), a cargo da leiloeira Leiria & Nascimento, "provenientes de várias bibliotecas", que pode ser consultado on line. Algumas referências: Breve Compendio Di Maravigliosi Secreti Appronati con felice sucesso nelle Indisposition Corporali ..., de Fr. Doménico Auda... Per il Remondini (Séc. XVII) / Dom Miguel, ses Aventures Scandaleuses, ses Crimes et son Usurpation, Par un Portugais de distinction.Traduit par J. B. Mesnard. Paris. Ménard, Libraire, 1833 (Feio Barreto, obra publicada anónima) / Vida do Apostólico Padre António Vieyra da Companhia de Jesus Chamado..., pelo Pe. Andrade Barros, 1746 / Luz, & Calor Obra Espiritual..., pelo Pe. Manuel Bernardes, 1724, 2ª ed. / Historia Dela disunione del Regno di Portugallo..., scritta Dal Dottore Giovanni Battista Birago, Novamente Corretta, emendada illustrada, 1647 (rara) / Epitome Chronologico Genealogico & Historico, ... composto pelo Padre António Maria Bonucci, 1706 [«O autor foi missionário no Brasil e secretário do Padre António Vieira. Fez recolha e cópia de cerca de 300 cartas do Pe.A.Vieira, que enviou ao Papa Clemente XI»] / Opera Varia Quorum posthac exstat Catalogus Cum Indicibus necessaris & ... Geneve, por Robert Boyle, 1677 / Os Lvsiadas De Lvis de Camões, Lisboa, Paulo Paulo Craesbeeck, 1644 (raro) / Art de la Guerre par Príncipes et par Regles ..., por Jean François Chastenet Marechal de Puysegur, 1749, II vols / An Universal History of Arts anda Sciences ..., por Dennis de Coetlogon, London, 1745, II vols / Dell'Vnione Del Regno Di Portogallo Alla Corona di Castiglia..., de Ieronino Conestaggio ["também é atribuída a D. João da Silva, Conde de Portalegre", Rara], 1592 / Dicionário de Adágios e Princípios Jurídicos, de António Simões Correia, 1958, II vols (raro) / Tratado Singular Composto de Regras Certas e infalliveis, pelas quaes se descobrem os, principios por onde se purifica, affina, e legalmente se póde fabricar prata com pureza ..., por Luís Gonzaga da Costa, 1709 (raro) / Voyage Pittoresque et Historique au Brésil..., de J. B. Debret, Rio de Janeiro, 1965, III vols / Mort D'Abel Poème de Salomon Gessener, A Paris, 1793 / Saducismus Triumphatus Or Full and Plain Evidence Concerning Witches and Aparitions..., por Joseph Glanuil, 1682, II vols [«Rara obra sobre Aparições, Levitação, Bruxaria, etc»] / A Lanterna. Folha Política, Lisboa, 1868 (a 1871) / Historia y Tragedia de los Templários, Por Santiago Lopes, Madrid, 1813 / [Ms] Certidão da Torre do tombo, assinada pelo Cronista Gomes Eanes de Zurara e D. Afonso V, contendo as inquirições das Igrejas de S. Paio de Roilhe, julgado de Penafiel, feita por D.Afonso, Conde de Bolonha, e da Vila de Mós, passada a 14 de Junho de 1463 / Primera y Segunda Parte de La Diana de George de Montemayor, Madrid, 1622 / Collection Historique dês Ordres de Chevalerie Civils et Militaires existant chez les différens peuples du Monde, suivie d'un tableau chronologique des ordres éteint, por A. M. Perrot, 1820 / O Minho e as suas Culturas, pelo Visconde de S. Romão, 1902 (raro) / Secreti Nobilissimi Dell'Art Profvmatoria..., in Venetia, 1678 [«Raro tratado de cosmética seiscentista. Publicado anónimo»] / Historia da guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal..., por Simão José da Luz Soriano, 1866-1890, VIII tomos / Reflexions sobre El Derecho Espiritual y Temporal del Ordem de Calatrava..., por Plácido Francisco Sotelo, 1767 Quarta-feira, Janeiro 12, 2005
In Memoriam de Augusto Nunes - Livreiro Alfarrabista Um dos mais estimados alfarrabistas de Lisboa, um dos mais queridos profissionais que gerações de amantes dos livros conheceram e respeitaram, faleceu no passado dia 9 de Janeiro. Um cidadão exemplar. Augusto Nunes, o Nunes de Benfica como era conhecido, com livraria aberta na Rua São Domingos de Benfica nº 5, em Lisboa, era um homem notável, um homem bom e um excelente profissional. As suas histórias sobre bibliotecas e livros, que amava exemplarmente, as curiosas peripécias passadas ao longo da sua vida na profissão que orgulhosamente gostava, a franca amizade que mantinha com todos os amantes dos livros, novos ou velhos, são sentimentos de um espírito bom. Um virtude rara. A sua perda é irreparável. Decerto que todos os seus clientes e amigos se sentem consternados pela triste notícia e apresentam as mais sentidas condolências à sua família, em especial ao seu filho, que continuará a obra do seu ilustre pai. Que descanse em paz. Terça-feira, Janeiro 11, 2005
Alberto Giacometti [m. 11 Janeiro de 1966] "Tout n'est qu'apparence, non?" [A. Giacometti] Locais: Alberto Giacometti Page / Alberto Giacometti / The Museum of Modern Art / Alberto Giacometti (1901-1966) / Alberto Giacometti Stampa (Grisons), 1901 - Coire, 1966 / Guggenheim Museum
Nos 80 anos passados da morte de António Sardinha [10/01/1925] "... o Amadis é o espelho cristalino da profunda natureza lírica da nossa raça. A delicadeza do seu coração não exclui das práticas vigorosas de cavaleiro intemerato. Lembremo-nos de que, sendo estruturalmente lírico o génio português, não deixamos de ser por isso um povo de acção, - um ninho permanente de descobridores e de navegadores. A nossa epopeia que, além de nacional, é cheia de universalismo em relação ao sonho inquieto da Renascença, por quem foi concebida e escrita, senão por um lírico? O que é o mito supremo do Encoberto senão uma condensação colectiva de lirismo? (...) (...) E, transmitido dos Cancioneiros ao Amadis, prolonga-se em inolvidáveis criações literárias da Menina e Moça à Diana, de Jorge de Montemor ..." [António Sardinha, "Um romântico esquecido", in Nação Portuguesa, IV Série, tomo I, 1946]
Maçonaria Portuguesa [a propósito das afirmações de Paulo Noguês, citadas no jornal Público, em que era dito que a maçonaria portuguesa "ou tem capacidade de projectar o futuro ou acaba"] "... Em quanto o Maç. vulgar, satisfeito com uma apparencia mystica, se contenta se saber pronunciar algumas palavras, de que ignora o verdadeiro sentido, o Maç. philosopho se lança aos séculos passados, e lá vê as causas primeiras e os fins reaes da Instituição Maç. (...) [in Historia da Franc-Maçonaria ou dos Pedreiros Livres pelo autor da Bibliotheca Maçónica [Miguel António Dias], capítulo IV, Lisboa, 1843] "A Bulla do papa João XXII de 19 de Março de 1319, pela qual foi fundada a Ord. de Christo em Portugal; a Ractificação da mesma por el-rei D. Diniz, feita em Santarém aos 5 de Maio do mesmo ano; e a Bulla do Papa Júlio III, de 4 de Janeiro de 1551, pela qual se fez a união dos Mestrados das Ord. de Christo, de San-Iago, e Aviz, à Coroa Portugueza, são documentos irrecusaveis, e provam que a Iniciação primitiva, fonte de Franc-Maç. actual, existiu primeiro em Portugal, do que em outras Nações da Europa (...)" [in Annaes e Codigo dos Pedreiros Livres em Portugal pelo auctor da Bib. Maç. e Arch. Mystica, etc, , p. 4 , Lisboa, 1853] [Nota: o autor, a partir do que foi acima transcrito, procura, curiosamente ou não tanto, demonstrar que a origem da introdução da maçonaria em Portugal nada deve à Ordem dos Templários e muito menos à Ordem de Cristo, dado afirmar, estranhamente, que tais Ordens nada tinham de iniciáticas. Seja como for, os vários livros publicados, anonimamente, por António Miguel Dias são fundamentais para a história da Maçonaria Portuguesa] "... Por conclusão, diremos mais que Portugal precisa reformar a sua Maçonaria, reduzindo todos os Ritos e todos os Orientes a um só Rito, e a um só Oriente - Não se diga que uma reforma entre os maçons portuguezes é hoje impossível: pelo contrário, sendo desejada de todos os verdadeiros maçons, como é, só lhe falta quem do coração lhe dê um impulso franco e sincero ..." [in Arch. Mystica do Rito Francez ..., 5843 (aliás 1843)]
Dashiell Hammett [m. 10 Janeiro de 1961] "Hammett gave murder back to the kind of people that commit it for reasons" [Raymond Chandler] "... Em Hammett, a conexão entre literatura e vida é radical e se processa de modo especialíssimo. Sustentei isso em outras ocasiões, e insisto: o melhor dele são os contos da fase inicial. Com o tempo, ganhou em fôlego e ambição, mas Estranha Maldição (The Dain Curse) é reciclagem de contos, emendados um ao outro. Sua última narrativa, A Ceia dos Acusados (The Thin Man) é, notoriamente, a mais fraca. Mesmo na obra-prima, O Falcão Maltês, há reaproveitamento de contos e inconsistências. Seu livro mais bem-acabado é aquele mais próximo do romance social, A Chave de Vidro. Encerrado o período produtivo de 12 anos, não fez mais nada. Tentou, buscou outros caminhos, saindo da esfera das histórias de detective, mas não conseguiu nem mesmo expandir lampejos de narrativa psicológica, a exemplo do belo conto Medo de Tiro, que está nesta colectânea, Tiros na Noite, sobre o covarde moribundo que, depois de seu único ato de coragem, quer refazer a vida para ir atrás de todos os que o haviam humilhado (...)" [ler aqui] Locais: Dashiell Hammett (1894-1961) / Dashiell Hammett / Dashiell Hammett Biography / Dashiell Hammett / All about Dashiell Hammett / Bibliography / Dashiell Hammett / Dashiell Hammett (1894-1961) Guía de lectura / Dashiell Hammett e os mistérios da criação literária: um depoimento e um poema Segunda-feira, Janeiro 10, 2005
O turista Morais Sarmento Morais Sarmento, numa ladainha déjà vue, deplora a "lamentável falta de sentido de Estado" dos portugueses que pagam os seus impostos, que não usam e abusam dos privilégios do aparelho do estado (que ainda os há, pasme-se!) e que, muito justamente, consideram despropositado a fadiga do turista Sarmento em terras de S. Tomé e Príncipe, em suposto trabalho porfiado de cooperação no audiovisual. Numa linguagem de trapos, o ministro da Presidência consente que o seu gabinete pronuncie uma enternecida e putativa indignação ministeriável aos estupefactos indígenas lusos, de uma grosseria nunca vista. Bem podem os habituais colunistas da pátria reclamarem, mais uma vez, da inveja lusitana, da grosseria do lumpen, da latrina da plebe. Sabemos os que os move. A historieta é de tal modo dementada, que Santana Lopes se aproveitou, de imediato, do vigor emotivo e patriótico do seu ministro, para se dissociar do seu extenuante trabalho. A vingança em Santana Lopes costuma servir-se fria. De outro modo, o encantador presidente da RTP, misteriosamente nada nos diz sobre as desventuras do seu patrão em terras de S. Tomé. Afinal, se o incansável presidente da RTP não tem autonomia para assinar acordos na sua área, necessitando dar boleia a outros, para que é que serve? Pode-se saber? Domingo, Janeiro 09, 2005
n. Kurt Tucholsky [9 Dezembro 1890-1935] "Nothing is more difficult and nothing requires more character than to find oneself in open opposition to on's time and to say loudly: NO!" "Si les élections pouvaient changer le cours des choses, elles seraient interdites" "La censure n'existe pas en Suisse, mais elle y fonctionne très bien" "People in Europe are proud of: Being German. Being French. Being British. Not being German. Not being French. Not being British" [K.T., in What People are Proud of in Europe, 1923] "Ach, tivemos muitos senhores, Tivemos tigres e hienas Tivemos águias e porcos Se foram melhores ou piores? Ach, a bota sempre foi igual à bota. E em nós deu, Compreendem, quero dizer, Que não precisamos doutros senhores Senão de nenhuns" [K. T., trad: noosfera] Locais: Kurt Tucholsky Literaturmuseum / Kurt Tucholsky - Gesellschaft / Kurt Tucholsky / Biographie / De la Philosophie Sociologique des Trous (Kurt Tucholsky) / Départ (poème de 1928) / A nosa terra: Kurt Tucholsky / Kurt Tucholsky Jornalista e escritor alemão / Kurt Tucholsky (poesia) / Tucholsky e Karl Kraus
"They who lose today may win tomorrow" [Cervantes] A cantilena do nosso amigo inglês, bem nutrido de Cervantes, sobre aquele jogo no sítio d'Alvalade, pareceu-nos adulterada. Os brados da rapaziada verde eram pouco misericordiosos. O inglês não mostrava desvelo algum pelo pormenor. Bem tentámos apelar ao pecador, fã incondicional de Ferguson, para a generosidade do seu fervor à lide da bola, como se estivesse em Old Trafford. A imaginação não ocorreu, ao que julgamos. Lá explicámos, que nada mais humilhante que brincar ao futebol sem qualquer espírito de confiança, linha de rumo, fio de jogo, eu sei lá que mais. Até, por iluminação divina, revelámos compreender o modo com que os vermelhos da Sagrada Luz, permitiram deixar correr o cerimonial do jogo a favor dos abnegados jovens d'Alvalade. A rédea solta ao ímpio era para confundir, tá claro. O tom paternal não vingou. O amigo inglês começava, logo, a falar do Bruno Aguiar, dum tal João Pereira, daquele velho senhor que estava sentado no banco a ordenar. Bem tentámos replicar que o que gramávamos era que o Filipe Vieira & Veiga concorrem-se à câmara do Porto, lado a lado com o exemplo vivo do intelectual tripeiro, Pôncio Monteiro & Costa, Inc.. Mas não houve convencimento. Há momentos em que o coração não pratica discursos, só prantos. E se o inglês continuava pouco complacente ... Valeu-nos um bar irlandês, para nossa vingança. O amigo de Sir Alex restou um túmulo. Fomos felizes na táctica escolhida.
n. em Setúbal Luísa Todi [9 Dezembro 1753-1833] "... Não se sabe exactamente qual foi a primeira actuação de [Luísa] Todi no estrangeiro, mas tudo indica que foi em 1777, quando cantou "Le Due Contesse", de Paisiello, no King's Theatre de Londres. Foi, no entanto, em Paris, que obteve a consagração graças à sua actuação nos Concerts Spirituels (1778). Foi numa segunda fase destas apresentações (em 1783) que estabeleceu uma acesa rivalidade com a alemã Gertyrud Mara, a qual dividiu o público entre "maristes" e "todistes". Segundo as críticas publicadas na época, Mara parece ter-se distinguido sobretudo pela bravura e pelo virtuosismo, enquanto Todi, que possuia uma voz de meio-soprano, é elogiada pela sua apetência para ópera séria, pelo seu excelente "cantabile", a clareza de articulação, o domínio das línguas, a emoção e os seus dotes de actriz - uma lista de qualidades que fazem dela uma intérprete de extrema modernidade (...) [ler aqui] Sábado, Janeiro 08, 2005
Já tomou seu bridge hoje? "There are two times in a man's life when he should not speculate: when he can't afford it and when he can" [Mark Twain] Nos tempos em que afogávamos a devoção às respeitáveis virtudes dos lentes de Coimbra, em afectuosa gratidão e máxima reverência, era certo e sabido que por clemência à sebenta nos espraiávamos, madrugada dentro, no empreendimento bridgístico. A máxima era sempre a costumeira citação de Kaplan: "a terrible year for wine but a great year for bridge players". Certo, era que a confissão nunca foi provada. Ao sacrifício das aulas apurávamos nos mistérios do vinho e na observância do cumprimento do bridge. O reparo do ilustre jogador americano não nos afectava, por aí além. A rua dos Combatentes tinha sempre resguardo oportuno, que interpretávamos muito bem, principalmente quando a crueldade dos dizeres do marquês de Severo sobre os ditos não terminava, invariavelmente, em religiosas reflexões para enólogos assombrados. O zelo assim manifesto dava alento para as adversidades da madrugada, feita de contagens de mão, contratos doidivanas, choros a vazas perdentes, squezzes à la mode, falta de mãozinhas para o outro lado ou apuramentos pífios, sempre à sombra do morto que castigava, entretanto, em vazadas de um trago, um qualquer Douro amigo. Tempos gloriosos. Que hoje confirmámos. Já tomou seu bridge, hoje? Sexta-feira, Janeiro 07, 2005
n. em Lisboa, Pe. Teodoro de Almeida [7 de Janeiro de 1722-1804] "Compôs os seis primeiros tomos da Recreação Philosophica levado do louvável impulso de utilizar aos que não possuíam princípios elementares, e preferiu a fórmula de diálogos, nos quais procurou ser claro, adoptando um método fácil para as inteligências vulgares. Daqui nasceu que esta obra, deficiente já no seu tempo, foi pouco estimada dos entendidos na matéria, censurando-se-lhe algumas opiniões singulares, como por exemplo, a substituição da teoria newtoniana da luz. Tacharam-na também, quanto à forma dialogística, de pouco peso nas objecções do filósofo peripatético, que facilmente o pedagogo destruía, incutindo a opinião própria. Contudo, é inegável que este escrito com todos os seus defeitos, concorreu muito para excitar a leitura de obras mais graves, e para difundir notavelmente o gosto pelo estudo das ciências naturais, então concentradas nas academias, e fora do alcance dos curiosos. Foi um serviço do P. Almeida, que é hoje reconhecido, e por esta razão o apresentamos como facto principal da sua biografia literária. Dos quatro volumes que completam as Recreações, nada diremos, se não que a apologia da religião, assunto dos dois últimos, foi ditada por boas intenções? [in Dic. Bibliographico Portuguez de Inocêncio F. Silva, tomo VII] Algumas Obras: Recreação Filosófica ou Diálogo sobre a Filosofia Natural, para instrução de pessoas curiosas que não frequentaram as aulas, IV tomos, 1751-1757 / O Feliz Independente do Mundo e da Fortuna, III vols., 1779 / Cartas Fysico-mathematicas de Theodosio a Eugénio, para servirem de complemento à Recreação Filosófica, 1784 [saíram sob pseud. de Dorotheu de Almeida] / Formosura de Deus, indeferida e declarada por suas muitas perfeições, assim como a frágil capacidade humana é possível, 1785 [obra atribuída] / Methodo para a Geographia, 1787 / Sermões, III vols., 1787 / Lisboa destruída (poema), 1803 /.../ Locais: Padre Teodoro de Almeida / Teodoro de Almeida, divulgador da Filosofia Natural / Teodoro de Almeida 1722-1804 / Recreación filosófica o diálogo sobre la filosofía natural para instrucción de personas curiosas que no frecuentaron las aulas (on line) Quinta-feira, Janeiro 06, 2005
Santos com vida ou vida de santos "Cogitationes meae ... torquentes cor meum" [Job XVII.V.II.] Movidos por letargia para o sofá, que a vida está fantasiosamente sonolenta, confessamos, vergonhosamente, que não sucumbimos ab lib aos abraços de Morfeu, esta segunda-feira última. Caso curioso, diga-se. Tudo isso porque uma epidemia de economistas e politólogos encartados protestou piedosas súplicas na venerável TV, já o dia estava alto e convidativo à poeira da livralhada. Meus amigos: a fala de esperança e caridade de César das Neves, quando confrontada no dificultoso diz-kurso positivo de Nogueira Leite, ou com os exercícios espirituosos de Luís Campos, ou até mesmo nos terríveis golpes atenazantes de Paulo Rangel, sem esquecer a habitual penetração intelectual da funcionária pública Fátima Bonifácio, fez-nos ver claramente visto. O santo César era um adorno de eloquência, no invés de um caturra saloio. Empalidecemos. Claramente surge que o nosso affaire d'honneur entre lúbricos papéis seria a nossa desgraça. Assim despojados do terrível alívio de ver o César entre iguais, ficámos tão sensíveis e arrebatados que o nosso horizonte só podia raiar com a leitura das listas de candidatos a deputados. O que fizemos. Imediatamente nos rebolamos no sono dos justos, em merecido descanso. A natureza está sempre disponível a aparecer na ocorrência de uma desgraça. Eis uma boa virtude.
Revista Almanaque Almanaque, revista de Lisboa sob o patrocínio de J. A. de Figueiredo Magalhães "proprietário da Editora Ulisseia" [Daniel Pires, in Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX, 1900-1940, Edições Grifo, que seguimos doravante], com 18 números publicados, entre Outubro de 1959 a Maio de 1961. Teve no seu conselho de redacção, Cardoso Pires, Sttau Monteiro, Alexandre O'Neill, Baptista-Bastos, José Cutileiro, Augusto Abelaira, arranjos gráficos de Sebastião Rodrigues, João Abel Manta, fotografia de Armando Rosário, Eduardo Gajeiro, Mário Novais, João Martins e João Cutileiro, desenhos de Abel Manta, Câmara Leme e Pilo da Silva. Revista literária de assinalada importância na vida social e cultural de então, constitui no dizer de Daniel Pires, "uma radiografia rigorosa dos acontecimentos que marcaram a época". Convém referir que a maioria dos seus artigos não eram assinados e só o testemunho de alguns e a recordação de outros permite fazer o seu registo. De entre a colaboração prestada refira-se: Vasco Pulido Valente (vide artigo da Kapa nº1), Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, José Gomes Ferreira, Palla e Carmo, Reinaldo Ferreira, etc.. "Um almanaque, dizem as enciclopédias, é um livrinho de calendário, bem medido e matérias várias de instrução e recreio, tábuas, coisas de todo o gosto, etc., etc., etc. (...) Almanaque, não se sabe bem porquê, tem um certo sabor a ornato, a antiqualha e a papel amarelecido. Cheira a naftalina e anda salpicado de provérbios muito conselheirais, que se contradizem uns aos outros, e de anedotas de soldados que não conhecem a mão esquerda. Ora, este almanaque é um verdadeiro irreverente dessa gloriosa família de anciãos. Vem ao gosto moderno, segundo a «linha 1959», trata por tu o teatro de Beckett e Ionesco, os escritores da Beat Generation, os Pat Boone ou os Georges Brassens, os íntimos de Françoise Sagan e as verdadeiras causas do caso Pasternak. Só não conhece os segredos sos painéis de Nuno Gonçalves, mas há-de chegar lá um dia (...)" [in Almanaque, nº1, Outubro de 1959, em nota de abertura] Quarta-feira, Janeiro 05, 2005
François Villon [n. 5 Janeiro de 1431 ?] «Hé! Dieu, se j'eusse estudié, Ou temps de ma jeunesse folle, Et a bonnes meurs dedié, J'eusse maison et couche molle, Mais quoi? Je fuyoie l'escolle, Comme fait le mauvais enfant. En escripvant cette parolle, A peu que le cuer ne me fent.» [François Villon, Le Testament] "Aqui se fecha o testamento E se finda o pobre Villon. Vinde, pois, ao sepultamento, Quando ouvirdes os carrilhões, Em trajes rubro-vermelhões . Foi mártir do Amor a servir, Isso jurou por seus colhões Quando mundo quis partir. E julgo bem que ele não mente, Pois foi banido sem razões Dos amores, qual cão demente. Tal que daqui a Rossillon Nem espinhos nem esporões O pouparam, diz sem mentir, De ferir-se com aguilhões, Quando do mundo quis partir ,,," [François Villon, Outra Balada, trad. Sebastião Uchôa Leite] Locais: François Villon / Société François Villon / Versos do poeta marginal François Villon ganham reedição / Le Grand Testament / Poésie
A arte de viver contente em quaesquer trabalhos da vida "Trabalho: do latim tripalium, instrumento de tortura" [JH] Utilíssimo para todos os bloguistas com prodígios obrados nos seus posts, nova terra de cativeiro eleitoral & ultríssimo remédio para melhorar a impressão, este aviso ao mulherio ou appendix à natureza do mal por um esteta fiel. Não é uma escrita para dar uma de oftálmica por isso não precisa de almofada. Os requebros & meneios são uma imagem venerável (ver cliché ao lado), sempre muito retratada em distintos assuntos onde a fantasia inflamada e a devassidão conspícua são empresa colossal e de grande "construído estético". Não nos foi adiantada a magna questão de saber porque "não é propício ao acto sexual ter os pés frios", como assegura Aristóteles nos Problemas, mas decerto abundam as manufacturas em toda a cidade de Coimbra para o provar, como é mister. Terminamos com abundância, citando O Jardim Perfumado: "... Fiando como uma aranha sempre ocupada. Disseram-me:«Por quanto tempo continuarás?» Respondi-lhe:«Trabalharei até morrer»" Fiat lux [No Parlamento]
"... No Parlamento não está a representação nacional, está a representação oficial; não está uma representação espontânea, nobre e sentida, está uma representação ensinada e assalariada. O governo pode contar com essa, porque a educou, e porque a afeiçoou a si; o governo a maioria são como duas figuras duma tragédia, que se falam e replicam, de há muito ensaiadas nos bastidores (...) Aquela representação não é nacional, é ministerial: não representa o povo que a rejeita e que a censura, representa simplesmente os homens que lhe dão os cargos opulentos e os estipêndios largos; a maioria é o corpo diplomático do governo; ele trá-la ostentosa e bem fardada, e engorda-a com a magreza do povo ..." [Eça de Queiroz, in Distrito de Évora, 14 Março de 1867] Domingo, Janeiro 02, 2005
Os Melhores Blogs Portugueses de 2004 "Leia-se esta paisagem da direita para a esquerda e vice-versa, ou vice-versa e de baixo para cima, pode-se soltar as linhas que tremem debaixo dos olhos" [H. H.] Eis o ano em que a Blogosfera lusa respirou, deu fôlego à vida e um cacete ao tédio da crise. Desnudou-se de palavras piedosas, intervalou o choro desvalido da populaça, tirou a espuma do canto da boca dos colunistas e das putas intelectuais, inspirou outros caminhos. Restabeleceu o gozo da leitura pública, pôs escrita em forma de voz, tornou-se recomendável. Já tem filhos que fazem um barulho bom. Urgente! Em remansos de paz elevou-se à quasi perfeição. Teve momentos de glória, de lisonjas, de autoridade. Tudo para "desengaçar a alegria do chato amável mundo", como diria Assis Pacheco. Cabe, aqui, tal como em ano anterior, fazer o seu inventário, para que o mérito não fique distraído e a maternidade tenha sentido. A sedução dos espíritos inquietos é o nosso fadário. O nosso apostolado. Consultámos a listagem, acolá na coluna à esquerda e de muita estimação, e ordenámos os nossos blogs de acordo com os critérios anteriormente considerados. Estabelecemos uma natural limitação de este ter sido um ano de intensa politização, daí que aqueles, mais criativos, que adensaram a atmosfera apareçam em segundo posicionamento. Tivemos, ainda, em devida conta a dimensão dos jogos estéticos manifestados ou os templates que as mãos criaram. Em nosso louvor. Resta dizer que o nosso coração ficou suspenso no silêncio da Janela Indiscreta, um dos blogs mais interessantes e luminosos, que nos abandonou este 2004. A escolha foi a que se segue: 1. Abrupto 2. Barnabé / Grande Loja / Blasfémias / Bloguitica / Causa Nossa / Mar Salgado / Portugal dos Pequeninos / Tugir 3. Rua da Judiaria / A Montanha Mágica / Um Blog Sobre Kleist / Gávea / Indústrias Culturais / A Forma do Jazz / Universos Desfeitos 4. Sous les Pavés, la Plage / A Natureza do Mal / Red Series / Avatares de um Desejo / A Memória Inventada / Quartzo Feldspato Mica / Thelma & Louise / Welcome to Elsinore / Fora do Mundo 5. Aviz / Blog de Esquerda / Terras do Nunca / Fórum Comunitário 6. There's Only Alice / Absurdo Ponto / Silêncio Digital / Os Espelhos Velados / Intervenções Sonoras / Last Tapes 7. Voz do Deserto / Quarta República / Contra a Corrente / Abnoxio 8. Bomba Inteligente / Desassossegada / Diotima / Sôfrega 9. Álbum Figueirense / Arqueoblogo / Cartas Portuguesas / Dias com Árvores 10. À Beira-Mar / Amicus Ficaria / Estarreja Efervescente / AveiroLx Os Melhores Blogs de Autores Estrangeiros de 2004 1. Alexandre Soares Filho 2. Letteri Café / Hotel Céline / Giornale Nuovo 3. Andrew Sullivan / Body and Soul / Instapundit / The Rittenhouse Review 4. Arts & Letters Daily / Wood S Lot / Suburbana / Paulinho Assunção / O Expressionista / Pura Goiaba / Romanzieri 5. Prosa Caótica / Sub Rosa / Asakhira / La Letra sin Sangre / Mysterium 6. Incomimg Signals / Vigna-Marú / Wimbledon / The Black Blog / Life in the Present / Bookslut / Plep 7. Bibi Fonfon / Neurastenia / Dudi / Cipango / 8. Art Nudes / DeFocused / GmtPlus9 9. Largehearted Boy / King Blind / Chromewaves / 10. The Agonist / Talking Points Memo
2005 & exercícios textuais de fim d'ano "Os homens, tendo podido curar-se da morte, da miséria, da ignorância, lembraram-se, para se tornarem felizes, de não pensar nisso. Foi tudo quanto inventaram para se consolarem de tão poucos males. Consolação riquíssima. Não se dirige a curar o mal. Esconde-o por um pouco. Escondendo-o, faz com que se pense em curá-lo. Por um legítima desordem da natureza do homem, não se acha que o tédio, que é o seu mal mais sensível, seja o seu maior bem. Pode contribuir mais do que qualquer outra coisa para lhe fazer procurar a sua cura. Eis tudo ..." [Lautréamont, in Contos de Maldoror] "Não me venham com teorias, estou farto. Acontecimentos, seres, objectos, lugares. A coluna vertebral disto tudo. A posição vertical! - eis o que parece justo (...) Dormimos ou estamos acordados, conforme a escolha..." [H.H.] "É inegável que somos europeus, e até podemos avançar que se fala de nós lá fora como um povo civilizado, desde que (...) Portugal ocupou um lugar honroso (...) Caminhamos airosamente na via láctea do progresso, porque as estradas cá em baixo o mais que podem é pôr-nos em contacto com o progresso dos antípodas por meio dos abismos insondáveis que o macadame aperfeiçoou (...) Temos tudo quanto podem ambicionar os netos daqueles que civilizaram mundos novos. Só nos falta - diga-se a verdade sem presunção - falta-nos uma pequena coisa, que faça os homens bons: falta-nos a virtude e a moral; falta-nos o respeito à lei, e a lei que deva respeitar-se; falta-nos esse quase nada que faz um povo de traficantes e de corruptos uma sociedade de irmãos e de amigos ..." [Camilo C. Branco, in Dispersos] "Portugal precisa de um indisciplinador. (...) Trabalhemos (...) por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa. Escrupulisemos no doentio e no dissolvente. E a nossa missão, a par de ser a mais civilizada e a mais moderna, será também a mais moral e a mais patriótica. [F. P.] Sexta-feira, Dezembro 31, 2004
![]() 10 Livros Portugueses de 2004 [colab. Bibliomanias] 1. Ou o Poema Contínuo, reed. (Herberto Helder, Assírio & Alvim) 2. Poesias Escolhidas (Pedro Homem de Melo, ASA) 3. Eu Hei-de Amar uma Pedra (António Lobo Antunes, Dom Quixote) 4. A Bíblia dos Jerónimos (Estudos de Martim de Albuquerque & Arnaldo Pinto Cardoso, fotografia de Massimo Listri, Bertrand & FMR) 5. Grécia Revisitada (Frederico Lourenço, Cotovia) 6. Uma Coisa em Forma de Assim, reed. (Alexandre O'Neill, Assírio & Alvim) 7. Repercussão (Gastão Cruz, Assírio & Alvim) 8. As Farpas de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão (cord. M.F.Monica, Principia) 9. O Gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios (Eduardo Lourenço, Gradiva) 10. Biblioteca (Gonçalo M. Tavares, Campo das Letras) ![]() 10 Livros de Autores Estrangeiros de 2004 [colab. Bibliomanias] 1. O Único e a sua Propriedade (Max Stirner, trad. João Barrento, Antígona) 2. Poesia (Eugénio Montale, Assírio & Alvim) 3. Budapeste (Chico Buarque, Dom Quixote) 4. Michael Koolhaas, o Rebelde (Heinrich von Kleist, Antígona) 5. Catalogues de la collection d'estampes de Jean V, roi de Portugal, III vols (FCG e BNF) 6. Janelas Altas (Philip Larkin, Cotovia) 7. Eu:seis inconferências (e. e. Cummings, Assírio & Alvim) 8. Contos Completos, vol I (Nathaniel Hawthorne, Cavalo de Ferro) 9. Austerlitz (W. G. Sebald, Teorema) 10. Sobre a Industria da Cultura (Theodor W. Adorno, Angelus Novus) ![]() 10 Álbuns de 2004 1. You Are The Quarry - Morrissey 2. The Delivery Man - Elvis Costello & The Imposters 3. Franz Ferdinand - Franz Ferdinand 4. "i" - The Magnetic Fields 5. Seven Steps: The Complete Columbia Recordings of Miles Davis, 1963?1964 6. Medúlla - Björk 7. Absent Friends - The Divine Comedy 8. Real Gone - Tom Waits 9. Riot on an Empty Street - Kings of Convenience 10. Resistir é Vencer - José Mário Branco Quinta-feira, Dezembro 30, 2004
SOLIDARIEDADE AID (Índia) / AMI / CARE USA / CRS / Cruz Vermelha Portuguesa / Food for the Hungry / Karuna Trust / MAP / Médicos Sem Fronteiras / Mercy Corps / NDMC Sri Lanka / Network for Good / Sarvodaya / Save the Children / (UN) World Food Programme / UNICEF [Informação] 2004 Indian Ocean earthquake / Asian quake - Missing persons (BBC) / Name Search in Thailand / One Thailand Info Centre / Phuket Gazette / Relief Web / Search Victims in Thailand / The Hindu Newspaper [Blogs] A life with a View / Asha's Tsunami Relief / Bananeira / Bloggers Without Borders / Brand New Malaysian / Ceneus / Enquiries. Helplines. Emergency. Services / Extra Extra / Friskodude / Indonesia Help / Javajive / Life of Buddhi / ProPoor / Tsunami help / Tsunami Missing People / Tsunami News Updates / Wayward Mutterings
Dança de cadeiras "Os partidos correspondem ao estado da nação. Fazem-me lembrar um homem que numa feira vendia vinho e vinagre, da mesma pipa. O vinho saía por um lado, e o vinagre por outro. A droga era a mesma. É o que acontece com a política dos nossos partidos: é igual e sai da mesma pipa. Só as torneiras é que são diversas ..." [Guerra Junqueiro, citado por Bordalo Pinheiro in Pontos nos ii, aliás, in Guerra Junqueiro, por Lopes d'Oliveira, vol II, ed. Excelsior] A lista dos putativos candidatos ao cadeiral de S. Bento é trabalho de uma chateza emotiva, mas revigorante. Quando se avista Luís Filipe Menezes a descer o escadório do Bom Jesus de Braga, sob os aplausos da ralé, a profanação é soberba. O frenético edil de Gaia não se machuca, nunca tropeça, não repousa. Ei-lo a contorcer-se de vaidade na ribeira de Gaia, no faccis um olhar vesgo à procura de Rui Rio. Enquanto isso, Zita Seabra, em delírio de gula política, prepara-se para atacar uns salmonetes e castigar uns doces de laranja, lá para os lados de Setúbal. A coisa vai de promessa ou não arribasse a Castelo-Branco o terrífico boxeur Morais Sarmento, a carpir saudades da juventude on the road. Enquanto muitos olham para as poltronas das suas ambições políticas, o genial camarada Lima, ex-João Carlos Espada, seguindo antiquíssima paixão, tricota mais um programa eleitoral, desta vez sob a silhueta do liberal Santana Lopes. E o brasileiro do costume, um tal Jacome da Paz, desenha a produção laranja. Lá vai a onda tsunamizar por aí. A resposta rosa não se faz esperar. Com vigor furtivo, o inefável Pina Moura ficará retido na cidade da Guarda, organizando palestras em catadupa. O laureado electricista espanhol é um compêndio escolar que muito irá instruir os indígenas locais, avaros da coisa económica. Na sua estância costumeira, Lisboa, Jaime Gama declara que não irá satirizar para a Bica do Sapato, enquanto confessa que tem ideias vigorosas e estimadas sobre tudo e está pronto para a acção. A peça não fica composta sem a graciosidade intelectual de Miranda Calha, em terras de Portalegre, o perfume espiritual de José Junqueiro em Viseu e, principalmente, sem a presença discreta de Alberto Costa, agora deslumbrado em terras do Rio Liz. A tudo isto se chama evolução e elegância socrática. Já vimos o filme. ![]() Susan Sontag [1933-2004] "Photographs are perhaps the most mysterious of all the objects that make up, and thicken, the environment we recognize as modern. Photographs really are experience captured, and the camera is the ideal arm of consciousness in its acquisitive mood." [ler] "Não seria errado falar de pessoas que têm uma compulsão por fotografar: transformar a experiência em si num modo de ver. Por fim, ter uma experiência se torna idêntico a tirar uma foto, e participar de um evento público tende, cada vez mais, a equivaler a olhar para ele, em forma fotografada. Mallarmé, o mais lógico dos estetas do século XIX, disse que tudo no mundo existe para terminar num livro. Hoje, tudo existe para terminar numa foto" Algumas obras: Against Interpretation and Other Essays (1966) / Death Kit (1967) / Styles of Radical Will (1969) / On Photography (1977) [Ensaios sobre Fotografia, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1986] / Illness as Metaphor (1978) / I, Etcetera (1978) / Under the Sign of Saturn (1982) / AIDS and Its Metaphors (1989) / The Volcano Lover (1992) / In América (2000) / Regarding the Pain of Others (2003) Locais: The Susan Sontag Archive / A morte sob o signo de Saturno / Susan Sontag / Listen to the Susan Sontag interview with Don Swaim, 1992 / On Photography (Excerpt) / A fotografia enquanto representação da dor / Interview with Susan Sontag / A minha América é o Império (Entrevista) / Notes On "Camp" by Susan Sontag / A Arte de Escrever com Luz: memória, fotografia e ficção Quinta-feira, Dezembro 23, 2004
Estamos de abalada. Estórias de assombramentos contadas à lareira esperam por nós. Todos os anos a mesma coisa. Trotar pelo campo, subir todos os muros, cruzar olhares, lembrar afectos. Seguir a vida, felizes no incêndio do nosso coração. Uma paisagem contra o tédio. Uma cadeia de milagres. Nesses instantes a alma não tem discursos. Só memória.
Natal
Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade Nem veio nem se foi: o Erro mudou. Temos agora uma outra eternidade, E era sempre melhor o que passou. Cega, a Sciencia a inútil gleba lavra. Louca, a Fé vive o sonho do seu culto. Um novo deus é só uma palavra. Não procures nem creias: tudo é occulto. [Fernando Pessoa, in Revista Contemporânea] Terça-feira, Dezembro 21, 2004
m. Barbosa du Bocage (21 Dezembro 1805) "... Eu mesmo a fui despindo, e fui tirando Quanto cobria seu airoso corpo. Era feito de neve; os ombros altos, O colo branco, o cu roliço e grosso; A barriga espaçosa, o cono estreito, O pentelho mui denso, escuro, e liso; Coxas piramidais, pernas roliças, O pé pequeno ... Oh céus! Como é formosa! Já metidos na cama em nívea Holanda, Erguido o membro, té tocar no umbigo, Qual Amadis de Gaula entrei na briga: Pentelho com pentelho ambos unidos, Presa a voz na garganta, ardente fogo Exalávamos ambos; Nise bela Ou fosse natural, ou fosse d'arte, O peito levantado, ansiosa, aflita, Tremia, soluçava, e os olhos belos Semi-mortos erguia ..." [Barbosa du Bocage, in Poesias Eróticas Burlescas e Satíricas, S. Paulo, 1969]
Passa por mim em Bruxelas "Tenho uma ligeira oscilação quando ando, até uso uma bengala" [A. O'Neill] Os altíssimos dias deste final d'annus horribilis deu para assistir à récita pública do Eurostat, sempre fidelíssimo nos 3% e em demanda de défices excessivos, e ao espalhar da fúria, flagelo e dedicação sublime de três admiráveis personagens da lide política doméstica. Fala-se, evidentemente, de Santana Lopes, Bagão Félix e Vítor Constâncio. Dir-se-ia que não nos deixam dar graças às festividades sem qualquer martírio confesso. Estranha forma de vida em que os dotes políticos são completados pela sacrossanta oratória. A governação está em padecimento de corpo. O que, hoje, foi dado assistir em conferência de imprensa é verdadeiramente espantoso. Fora ninguém ter entendido o porquê da prece mediática, dado não se ter apresentado nada de substantivo, fica-se a saber que em vez da literatura económica e financeira os governantes preferem os jornais, mesmo que estrangeiros. Qualquer dia ainda os apanhamos a ler a Maria, o Record ou as crónicas do Delgado. Por fim, a dupla Lopes & Félix, em alegre coligada apresentam-se como arrependidos, prestam perjuro ao saudoso PEC. Como os desamparados do Barrosismo andam com amargos de boca, descontentes pelo seu sacrifício! O mistério do défice, a perfeição orçamental, a tabuada contabilística, comove qualquer indígena. Santana Lopes, um crónico incompetente consciente, generoso na sua sabedoria, imolou-se na miséria da mercearia Ferreira Leite. Como desconhece o que quer que seja, acreditou em tudo, seguiu «o Cherne». Pois se todos os extraordinários economistas e olheiros orçamentistas laranjas abraçavam a bondade das medidas do seu amigo Barroso, porque razão se haveria de verter lágrimas? Bagão Félix, o pudibundo cristão do orçamento cheio de graça, faz testemunho de ideias mal arranjadas e, num admirável discurso, dá uma valente sova no talento alemão. Inolvidável. Ligeiro, o despachante do Banco de Portugal, de nome Vítor Constâncio, revela o espírito do provado funcionário público: na falta de patrão, não há receitas extraordinárias para ninguém. No tempo da senhora Ferreira Leite é que era, suspira o piedoso economista. Mas afinal, o que seria uma Nação sem estes talentos bizarros? Pode-se saber?
[Remédios] "... Vi um médico, de espírito sublime, que possuía, a fundo, a ciência do governo. Tinha consagrado as suas vigílias, até à data, a descobrir as causas dos males do Estado e a encontrar remédios para curar os maus fígados dos que administram os negócios públicos (...) «Os homens encarregados da administração pública, as mais das vezes, estão cheios de humores movediços, que lhes enfraquecem a cabeça e o coração, causam-lhes convulsões, contracção dos nervos da mão direita, fomes caninas, indigestões, vapores, delírios, e outros males» Propunha tomar-se-lhes o pulso quando estivessem para se reunir em conselho. Por este processo tratava-se de ver se se descobria qual a espécie de doença de que eles padeciam (...) E porque, ordinariamente, todos se queixam da pouca memória que tem os validos dos príncipes, queria o nosso doutor que a todo aquele que tivesse de tratar com eles alguns negócio fosse permitido a liberdade de dar ao senhor valido esquecido um piparote no nariz, de lhe puxar pelas orelhas ou espetar-lhe um alfinete nas nádegas, a fim de que a pretensão fosse sempre lembrada (...) Queria também que um dos senadores, depois de haver apresentado a sua opinião e ter dito, em abono dela, o que tivesse para dizer, fosse obrigado a formular a opinião contrária ..." [J. Swift, in Viagens de Gulliver] Domingo, Dezembro 19, 2004
[No dia de nascimento (1924) de Alexandre O'Neill]
"Aqui dormi. Aqui sonhei. Aqui me masturbei. Da parede, o mesmo azul do mapa me convida. Mas não fui «de longada». De lombada em lombada, quanta estante corrida!" [Alexandre O'Neill, in O Quarto]
Excitações Lusitanas & mais do mesmo - os domésticos socialistas da cidade do Porto, sempre pródigos nas suas perturbações de fé eleitoral, congratularam-se pelo providencial apoio do senhor Pinto da Costa contra o insolente Rui Rio. O país nem um sorriso profundo manifesta. Nem um esgar incómodo declara. Ninguém se chega à frente em reparos. Mas sabe-se que os mistérios portuenses dão sempre em alucinações entusiastas, que invariavelmente acabam em arriscadas hermenêuticas no Bolhão. O brinde do virtuoso Papa Costa foi disputadíssimo. O estremado Francisco Assis deu o amem rosa. Fernando Gomes comoveu-se pelo altíssimo discurso do sr. Pinto da Costa, esse incansável paladino da democracia. Nuno Cardoso amuou. A tralha socialista reclama um regresso. Sócrates resta um túmulo. Enquanto isso, o inefável Marco António confessa que frequenta as Antas aos domingos e dias santos. Consta, ainda, que Luís Filipe Menezes teve uma apoplexia, politicamente falando, é claro. Como são puros os ares da província. - a economia já era. As lambiscadas dos tediosos opinion-maker's da coisa económica andam cansativas. Enjoam pelos testemunhos. Todas as manhãs lá vêm a ordem de argumentos em defesa do defunto. Entre as trevas da política económica, saltam as vozes puristas do professorado. Miguel Cadilhe consegue ver a borda do precipício, mesmo que esteja à sombra de quem o construiu. O deslumbrado Miguel Frasquilho, aleijado pelas mazelas pós-keynesianas, entretém os indígenas na comédia divertida do choque fiscal. Ignora-se, apenas, como entende imolar o Estado. O professor Cavaco, em magnifico delirius oeconomicus, fustiga os seus imediatos da governação, cavalga a besta do apocalipse pátrio, taramela qualquer coisa. A lenga-lenga do prof. Cavaco esquece o caudal económico dos disparates Barrosistas e, principalmente, a mercearia da senhora Ferreira Leite. Mas não faz mal a sabatina económica. O charivari é ensurdecedor. A turba indígena está de consoada. O bacalhau não desaparece, de vez. Deo gratias!
Prémio Pessoa 2004 - Mário Cláudio "... Um nevoeiro puríssimo desce sobre os bosques da madalena, torna infinitos os espelhos, derrete neles os fios do esplendor da tarde, e logo as redes se lançam, ficam por instantes suspensas até que as engole o ventre líquido. São os vapores que respiram ofegantes em sua rota, com uma multidão heteróclita de passageiros, onde causa escândalo certa dama coberta de flores e plumas, na companhia de seus dois periquitos, três gansos canadianos, quatro peixes doirados, um macaco e um par de criados. E os grumetes ficam-se a olhá-la um pouco de revés, dela se afastam os frades e os beleguins e a rapariga olheirenta embrulhada num xaile, que arrasta uma história passional e foge à sanha dos burgueses. Exportam-se os produtos da terra, e na alma deles se retém uma saudade de sangue e de suor, o espectro morno do amor que os fez nascer e crescer e serem separados do seio original onde se conceberam ..." [Mário Cláudio, in Das Torres ao Mar, O Oiro do Dia, 1983]
Prémio EDP 2004, Artes Plásticas - Álvaro Lapa '... carácter de «últimas» vontades, de última-vontade, de vontade extrema, tensa, sobreavisada, que tornam as obras para o futuro (=doravante). A obra como sinal premonitório, a imaginação como actividade receptiva (seu carácter dominante), captadora do sinal-mensagem «que vem do futuro»: uma gigantesca central-receptora, a imaginação da «arte moderna». Trata-se de preservar o essencial - donde as minha «legendas proféticas», as minhas «caixas-relicário-pessoal», as minhas «alegorias», os meus «cânones», os meus «dogmas», os meus «abrigos», os meus «auto-auto-retratos», os meus «estímulos», os meus «flagrantes eróticos» ...' [Álvaro Lapa, in Raso como o Chão, Estampa, 1977]
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