Dança de cadeiras
"
Os partidos correspondem ao estado da nação. Fazem-me lembrar um homem que numa feira vendia vinho e vinagre, da mesma pipa. O vinho saía por um lado, e o vinagre por outro. A droga era a mesma. É o que acontece com a política dos nossos partidos: é igual e sai da mesma pipa. Só as torneiras é que são diversas ..."
[
Guerra Junqueiro, citado por
Bordalo Pinheiro in Pontos nos ii, aliás, in
Guerra Junqueiro, por
Lopes d'Oliveira, vol II, ed. Excelsior]
A
lista dos putativos candidatos ao
cadeiral de S. Bento é trabalho de uma chateza emotiva, mas revigorante. Quando se avista
Luís Filipe Menezes a descer o escadório do
Bom Jesus de Braga, sob os aplausos da ralé, a profanação é soberba. O frenético edil de
Gaia não se machuca, nunca tropeça, não repousa. Ei-lo a contorcer-se de vaidade na ribeira de
Gaia, no
faccis um olhar vesgo à procura de
Rui Rio. Enquanto isso,
Zita Seabra, em delírio de gula política, prepara-se para atacar uns salmonetes e castigar uns doces de laranja, lá para os lados de
Setúbal. A coisa vai de promessa ou não arribasse a
Castelo-Branco o terrífico boxeur
Morais Sarmento, a carpir saudades da juventude
on the road. Enquanto muitos olham para as poltronas das suas ambições políticas, o genial camarada
Lima,
ex-João Carlos Espada, seguindo antiquíssima paixão, tricota mais um programa eleitoral, desta vez sob a silhueta do liberal
Santana Lopes. E o brasileiro do costume, um tal
Jacome da Paz, desenha a produção laranja. Lá vai a onda
tsunamizar por aí.
A resposta
rosa não se faz esperar. Com vigor furtivo, o inefável
Pina Moura ficará retido na cidade da
Guarda, organizando palestras em catadupa. O laureado electricista espanhol é um compêndio escolar que muito irá instruir os indígenas locais, avaros da coisa económica. Na sua estância costumeira,
Lisboa,
Jaime Gama declara que não irá satirizar para a
Bica do Sapato, enquanto confessa que tem ideias vigorosas e estimadas sobre tudo e está pronto para a acção. A peça não fica composta sem a graciosidade intelectual de
Miranda Calha, em terras de
Portalegre, o perfume espiritual de
José Junqueiro em
Viseu e, principalmente, sem a presença discreta de
Alberto Costa, agora deslumbrado em terras do
Rio Liz. A tudo isto se chama evolução e elegância
socrática. Já vimos o filme.