terça-feira, 27 de janeiro de 2004

WOLFGAMG AMADEUS MOZART [1756-1791]



n. em Salzburgo, a 27 de Janeiro de 1756

"Salve sagradas criaturas que se impõem através da noite!
Agradecimentos a vós, Osiris e Isis, sejam apresentados!
A força venceu, e como recompensa
Apresenta a eterna coroa à beleza e à sabedoria".

[Flauta Magica]


CATÁLOGO Nº 3 DA LIVRARIA D. PEDRO V


A Livraria D. Pedro V (Rua D. Pedro V, 16, Lisboa) lança o seu Catálogo 3 (nova série) com 286 peças raras umas, esgotadas todas, a preços interessantes. Julgo que ainda está à frente da D. Pedro V a Catarina, que aqui apresenta um cuidadoso conjunto de obras de estimação a ter em conta.

Algumas referências: Cartas de Amor de Sóror Mariana ao Cavaleiro de Chamilly, de Sóror Maria Alcoforado, Livr. J. Rodrigues, 1925 (ilustrações de Alberto de Souza, e prefácio de Gustavo Matos Sequeira) / Alquimias, por Al Berto, Sines, 2001 / Recolhimento do Arcanjo S. Miguel (Alguns Apontamentos para a Historia de Guimarães) As Beatas de Chapéu, 1923 / Portuguese Hebrew Grammars anda Grammarians, de Moses Bensabat Amzalak, 1928 / Chorographia Estatística do Districto de Coimbra, por Agostinho Rodrigues d'Andrade, Coimbra, 1896 / Judeus em Montemor-o-Novo, de António Alberto Banha de Andrade, 1977 / Contra a Obscuridade, de Eugénio de Andrade, 1992 / Os Poemas de Luís Buñuel, de J. F. Aranda (trad. de Mário Cesariny Vasconcelos), Arcádia, 1974 / Inventario de Lisboa, por Norberto de Araújo & Durval Pires Lima, 12 vols, 1944-56 / Homenagem a Camilo no seu Centenário, por António Baião (refere a suposta ascendência israelita de Camilo), 1925 / Cadernos de Literatura (nº 1 ao nº 25), Coimbra, 25 vols, 1978-86 / Biografias Figueirenses, por José de Sousa Cardoso, F. Foz, 1947 / Iconografia e Simbólica do Políptico de São Vicente de Fora, por José dos Santos Carvalho, Lx, 1965 / Pequenos Mundos Novas Civilizações, de Ferreira de Castro, 1938 / Á Volta do Mundo, de Ferreira de Castro, 1938 / Os Transportes Populares em Portugal. Carros e Barcos, por Luís Chaves, 1958 / Inscrições na Quinta do Viso, por José Coelho, 1928 / Cristo como os Pintores, Escultores e Poetas Portugueses o Viram, Sentiram e Entenderam, Estúdios Cor (texto de José Régio), 1952 / Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo, por José Gomes Ferreira (publicada anteriormente sob o pseudónimo O Avô do Cachimbo, no jornal de Lisboa), 1963 / Ronda de Africa, por Henrique Galvão, 2 vols, 1942 / A Caça no Império Português, de Henrique Galvão et all, 2 vols, 1943-45 / Primeira Parte da Historia dos Religiosos da Companhia de Jesus, pelo Padre Sebastião Gonçalves, 3 vols, 1957-62 / Commigo, de Manuel Laranjeira, 1923 / Livro do Centanário de Eça de Queiroz, 1945 / Leitos e Camilhas Portuguesas (junto com Cadeiras Portuguesas), por J. F. Nascimento & Augusto Cardoso Pinto (reed.), 1998 / Olleboma Culinária, Lisboa, Empresa Diário de Noticias, 1928 (imp. livro de cozinha portuguesa) / Para uma Cultura Fascinante, de Ernesto Sampaio, 1959 / Os Primitivos Portugueses, de Reynaldo dos Santos (3ª ed.), 1958 / Loiça Brasonada, por José de Campos Souza, 1962 / Marcas de Contastes de Ourives Portugueses, de Manuel G. Vidal & Fernando Moitinho de Almeida, 2 vols, 1974

segunda-feira, 26 de janeiro de 2004

FLORES PARA MIKI FEHÉR



Sabemos da bondade da vida. Quantas vezes se julga que não a sabemos merecer. No entanto o lugar que ocupamos "é o único temível porque nos prende". Hoje os deuses esqueceram-se de Miklós Fehér. Ou foram os homens? A tristeza embala-nos os olhos, enquanto o que a TV mostra, nos mata aos poucochinhos. Um sorriso nos lábios, o coração a ceder, inclinação e morte. É demasiadamente perturbante para ser verdade. Magoa-nos. Torna-nos inúteis. É noite e hoje aqui não está ninguém. Até sempre Miki.

domingo, 25 de janeiro de 2004

VIRGINIA WOOLF [1882-1941]



n. em Londres, a 25 de Janeiro de 1882

"Discutamos, pois, com a maior brevidade possível, o tipo de educação necessário. Dado que a história e a biografia - as únicas provas ao dispôr de estranhos - provam, aparentemente, que a antiga educação das antigas faculdades não provocam particular respeito pela liberdade, nem particular ódio pela guerra, é evidente que deverá reconstruir a sua faculdade em moldes diversos. Está ainda no começo e é pobre; deixe-a, por conseguinte, tirar vantagem dessas qualidades e tomar como base a pobreza e a juventude. Deve, portanto, ser obviamente uma faculdade experimental, uma faculdade temerária. Deixe que se construa com estruturas próprias. Não deve ser construída em pedra talhada e com vitrais, mas em qualquer material barato e de combustão fácil que não crie pó nem perpetue tradições. Não faça capelas. Não instaure museus e bibliotecas, com livros de encadernações luxuosas e edições metidas em vitrinas. Vale para que todos os quadros e livros sejam novos e estejam sempre a mudar. Deixe que cada geração a decore com as suas próprias mãos e processos baratos. O trabalho dos vivos não é dispendioso; oferecem-no muitas vezes, apenas a troco de deixarem que o produza. (...)

Os professores deveriam ser escolhidos entre os «bon vivants» e os bons pensadores". [Virginia Woolf , in Os Três Guinéus, Veja, 1978]

Locais: Virginia Woolf / Virginia Woolf (1882-1941) / Virginia Woolf (biografia) / Virginia Woolf forum, links / Virginia Woolf's Texts / The International Virginia Woolf Society / Virginia Woolf's Psychiatric History / Virginia Woolf Her Life and Works / Virginia Woolf and Modernism / Virginia Woolf (Um Tecto Todo Seu) / Virginia Woolf: a androginia como desconstrução / Virginia Woolf Seminar [1-9 Junho 2004]

sábado, 24 de janeiro de 2004

BAIRRO LIVRE - JACQUES PRÉVERT





















[Bairro Livre]

Puz o boné na gaiola
saí com o pássaro na cabeça
E então
já não se faz continência
perguntou o comandante
Não
já não se faz continência
respondeu o pássaro
Ah bem
desculpe julguei que se fazia
disse o comandante
Não há de quê toda a gente pode enganar-se
Disse o pássaro

[Jacques Prévert, Bairro Livre, trad. Jorge de Sena]

SOLIDARIEDADE COM A FUNÇÃO PÚBLICA



"O Homem é um secular malvado, que, por perversão ou estupidez, construiu uma civilização de canibais, cem vezes mais malvada do que ele" [Gomes Leal]

A requintada hipocrisia com que alguns mencionam a Função Pública, ontem em greve por melhores condições de vida e qualidade de trabalho face a uma administração e gestão ruinosa, inoperante e incompetente que anos a fio a classe politica amamentou, pelos ditos assombrosos proferidos, na maior das soberbas e com entoações do mais profundo desprezo pela dignidade de quem trabalha, desvela bem os sinais dos tempos.

Dum lado os acólitos do neo-liberalismo balofo e de sacristia, para quem toda a perfeição reside na gestão privada, enquanto lá vão piscando os olhos aos amigos, entretidos a espoliar o Bem Público, fugindo aos impostos, praticando a corrupção moderna, com a eficácia e a produtividade conhecida. Outros, os ressaibiados que por fastio, acomodação servil e falta de qualificações técnico-profissionais foram atirados para a selva do mercado de trabalho, tão de agrado dos novos liberais, dobrados que lhes foram a espinha vertical, desatam em impropérios vários, quase sempre bem maledicentes e espumosos de servilismo e arrogância. Por fim aqueles que em papeletas avençadas, os opinativos serventuários dos seus donos bem amados, clamam com o dedo no ar contra a alimentação do monstro, bem sustentado que foi pelo cavaquismo nos tempos áureos do oásis e depois continuado em alegro folgazar pelos que lhe seguiram, burilam teorias orçamentais que fariam corar o Botas de Santa Comba.

A desorientação é evidente e total. Aliás é vê-los a dissertar sobre o vencimento dos assessores ministeriais (hi! Marques Mendes) e outros cérebros partidários, o pagamento da antiquíssima dívida da República ao poupado Jardim madeirense, o aumento e descontrolo das dívidas das autarquias locais a bem dos colegas de carteira, a qualidade técnica e profissional dos gestores públicos, ou das políticas de saúde e educação, para se entender de que se fala quando se fala de modo obstinado e boçal sobre as revindicações dos trabalhadores da Função Pública. Estamos disso crentes. [foto: Henri Cartier-Bresson, Bolsa de Londres, 1955

sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

O JUDEU NO POLÍPTICO DE SÃO VICENTE


A Rua da Judiaria faz alusão aos Painéis do Museu das Janelas Verdes ou Políptico de São Vicente, identificando o homem gordo com um livro aberto, no Painel dito da Relíquia, como um judeu, e logo o famoso Isaac Abravanel.

Pode ser que sim, mas a longa controvérsia em torno dos "mistérios dos painéis" desde a publicação do ensaio inicial de Joaquim de Vasconcelos em 1895 não permite, com toda a segurança, afirmá-lo.

Aliás tudo à volta do políptico de S. Vicente é absolutamente extraordinário. E a paixão que o debate suscita, com alguma violência diga-se e tragédia mesmo (exemplo disso foi o suicídio de Henrique Loureiro), sugere que se seja prudente nalgumas das "certezas" proferidas. Quer no que toca a execução dos Painéis para a Sé de Lisboa, às diferentes interpretações e significados esgrimidos (Tese Vicentina, Fernandina, esotérica, etc), quer ao reconhecimento das diferentes figuras aí representadas, o que conduz a dizer que se está ainda longe da sua inteira compreensão. Paradoxalmente, ou talvez não, os historiadores remetem-se a um prudente silêncio interpretativo.

De facto, a questão não é pacífica e requer um cabedal de conhecimentos, desde o domínio da cultura da época e a leituras e saberes iconográficos, mitológicos, cabalísticos mesmo, que não estão ao alcance de qualquer um. Como exemplo da dificuldade existente, refira-se a arrumação primitiva das tábuas, o patrocinador do trabalho, ao debate sobre o menino do gorro (Painel do Infante), à suposta confusão entre o Infante D. Henrique (que ainda hoje é representado nos livros de historia como aquele homem do chapéu grande, que se vê no Painel do Infante) pela figura de D. Duarte, etc.

Como exemplo da controvérsia, diga-se que ao suposto judeu que a tese oficializada defendia há ainda poucos anos, o Dr. Belard da Fonseca há muito a resolveu a partir da leitura do texto que o homem gordo mostra, e de pesquisas feitas, e que diz tratar-se do borgonhês Olivier de la Marche. O texto decifrado pode ser lido na obra Os Mistérios dos Painéis - O Cardeal D. Jaime de Portugal, de Belard da Fonseca, que depois o traduziu. A cruz referida na Rua das Judiaria seria a Cruz de Santo André, e a cor da loba e do barrete usado, verde escura, era a libré dos "pannetiers" da casa de Bergonha. Inútil explicar quem era Olivier de La Marche. Apenas se pretende referir que não é fácil ter certezas nesta questão. Ficaria assim posta de parte tratar-se da figura de Abravanel, alquimista, sábio, bibliófilo e conselheiro de D. Afonso V, astrólogo ["A Era Messiânica manifestar-se-á quando Saturno e Júpiter estiverem conjuntos no signo Peixes (particularmente influente no que respeita a Israel por ser signo água ...)", in Dicionário do Milénio Lusíada, de Manuel Gandra, referindo-se a Isaac Abravanel]. Curiosamente D. Afonso V era um interessado por alquimia, tendo ao que alguns dizem escrito um livro (julgo que só circula policopiado), denominado "Tratado Alquímico". Para uma consulta bibliográfica sobre a questão dos Painéis, aqui se deixa algumas referências:

Obras a consultar: Joaquim de Vasconcelos, Tábuas da Pintura Portuguesa do Século XV, in Comercio do Porto, 27/28 Junho de 1895 / José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, Lisboa, 1910 / Alfredo Leal, Os Painéis do Infante e a Obra do Sr. José de Figueiredo, Lisboa, 1917 / José Saraiva, Os Painéis do Infante Santo, Leiria, 1925 / Affonso Dornelas, Os Painéis do Mosteiro de S. Vicente, Elementos para a sua Identificação, II vols, 1931 / Albino Lapa, História dos Painéis de Nuno Gonçalves, 1935 / Artur da Motta Alves, Os Painéis de S. Vicente num Códice da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Lisboa, 1936 / Georges Kaftal, Essai Iconographique sur Les Paneaux Atribués à Nuno Gonçalves, in Boletim dos Museus Nacionais, vol II, fas. 6, 1942 / Garcez Teixeira, O Significado dos Painéis de S. Vicente, Museu, vol. IV, 1945 / João Couto, Nuno Gonçalves, O Políptico de S. Vicente, Col. Museu, 1954 / Reynaldo dos Santos, Nuno Gonçalves, London, 1955 / Adriano de Gusmão, O Nuno Gonçalves da Phaidon – Erros, Omissões e Plágios, Eur. Amer., 1956 / Adriano de Gusmão, Nuno Gonçalves, Colecção saber, 1957 / António Belard da Fonseca, O Judeu, o seu Livro e a Crítica, 1958 / Vitorino Magalhães Godinho, in Revista de História, nº 37, São Paulo, 1959 / Armando Vieira Santos, Os Painéis de São Vicente de Fora, 1959 / António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis as Personagens e a Armaria, 1959 / António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis, IV vols, 1959-1967 / António Belard da Fonseca, Dom Henrique? Dom Duarte? Dom Pedro?, Lisboa, 1960 / António Manuel Gonçalves, Do Restauro dos Painéis de São Vicente de Fora, Museu, 1960 / Jorge de Sena, Os Painéis ditos de 'Nuno Gonçalves', in Revista Ocidente, nº 305/306, 1963 / José dos Santos Carvalho, Iconografia e Simbólica do Políptico de São Vicente de Fora, 1965 / Charles Sterling, Les panneaux de Saint Vicent e leurs Enigmes, in Revue d’Art, nº 159, 1968 / Jaime Cortesão, "A Historia dos Painéis de S. Vicente", in Historia dos Descobrimentos Portugueses, Circulo de Leitores, 1979 / José Luís Conceição Silva, Os Painéis do Museu das Janelas Verdes, Guimarães, 1981 / Jorge Segurado, Painéis de S. Vicente e Infante Santo, Ed. Noticias, 1984 / Paula Freitas & M. Jesus Gonçalves, Painéis de S. Vicente de Fora uma questão inútil?, 1987 / Dagoberto L. Mark, O Retábulo de S. Vicente da Sé de Lisboa e os Documentos, Caminho, 1988 / Theresa Schedel de Castello Branco, Os Painéis de S. Vicente de Fora - As Chaves do Mistério, 1994

quinta-feira, 22 de janeiro de 2004

AUGUST STRINDBERG [1849-1912]



n. em Estocolmo, a 22 de Janeiro de 1849

"Sinto-me melhor porque li Strindberg. E não o li por ler, antes porque desejava aninhar-me contra o seu peito. Agarra em mim com o braço esquerdo, como se eu fosse uma criança, e ali fico feito homem sentado numa estátua. Dez vezes senti o perigo de cair mas à décima primeira instalei-me solidamente. À minha frente segurança e uma vasta perspectiva ... Enorme Strindberg, essa raiva, essas paginas conquistadas a murro ..." [F. Kafka, in August Strindberg, Inferno, Edições &etc, 1978]

"... Só completamente só, janto no quarto e como tão pouco que o empregado solícito fica penalizado. Há uma semana que não dou palavra e, por falta de exercício, o som da minha voz começa a sumir-se. Não tenho tostão. Preciso de cigarros e selos. Num esforço supremo concentro a minha vontade. Quero fazer ouro pela via seca e pelo fogo. Dinheiro há-de arranjar-se, as muflas, os cadinhos, as brasas, o fole, as pinças (...)

O inferno? Fui educado no mais profundo desprezo pelo inferno. Ensinaram-me que não passava de fantasia a rejeitar para a lista dos preconceitos. A verdade, porém, é que não posso negar a novidade que agora encontro na interpretação das penas ditas eternas. Já nos encontramos no inferno. A terra é o inferno, prisão construída por uma inteligência superior, de forma tal que não podemos dar um passo sem ferir a felicidade alheia e os outros não podem ser felizes sem nos fazer sofrer..." [August Strindberg, ibidem]

Locais: August Strindberg / August Strindberg (1849 - 1912) / August Strindberg (Life and work) / (Johan) August Strindberg (1849-1912) / Strindbergs unofficial Homepage / August Strindberg Interviews Himself / Strindberg the Fertile (1963) / O Catecismo Radical de Strindberg / A Ciência Política e o teatro Intimista de A. Strindberg

À VOLTA DOS BLOGS & CIA



* João Oliveira dá missiva no seu blog sobre a produção da comunidade bloguística da zona de Aveiro * Sous les pavés, la plage - o regresso em versão blog de alguns dos fazedores do saudoso projecto Zona Non. De novo Coimbra e os seus encantamentos. Bem-vindos Rui Bebiano, Tiago Barbosa Ribeiro, Tó Lopes e Carlos Osório * Fernando Pinto Amaral, Nuno Júdice, Mário de Carvalho, Hélia Correia, Francisco José Viegas, Mia Couto, os rostos da escrita postados pela Silvana da Costa no Cometas * Regresso do Outro Eu, cada vez mais prendado e de merecida estimação. Transmissível ... sempre! * O Princípio da Atracção de Teresa Direitinho, ou o amor à luz da Ciência como nos foi indicado por um amigo. A ler, evidentemente. * Para leedores caprichosos, eis que saiu o número de Janeiro 2004 da Revista de Cultura Agulha: Ciência e surrealismo de Estela Guedes; Heidegger e Artaud: o percurso da angústia, por Wilson Coelho; Picasso versus Duchamp e a crise da arte atual, por Alberto Beutenmuller; Poesia Completa, de Cecília Meireles: a edição do centenário, por Antonio Carlos Secchin; Saramago e Drummond: o verdadeiro senhor dos arquivos, por Maurício Matos; Surrealismo e marxismo? por Claudio Willer; desenhos de Júlio Resende.

Nota: O Rio já corre. O venerável escriba do blog sem mancha e patriarca do Correio da Manhã, jornal para intelectuais debutantes ou espaço lúdico fogoso e subtil para seguir o bem e afugentar o mal, esta de volta. Com ditos sentenciosos, espirituais & morais, deu à estampa uma prudentíssima posta, bem esgalhada por sinal, que perdura entre um relato de futebol a João Marcelino e uma vigorosa discursata Bushiana, varrendo sem empacho as postumeiras dissertações do terrível Sousa Tavares. Na verdade "pretium laborum non vile". Evidentemente.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2004

GEORGE ORWELL [1903-1950]



Morre a 21 de Janeiro de 1950

"A essência da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas do produto do trabalho humano. A guerra prefigura a forma ideal de despedaçar, de lançar na estratosfera ou de afundar nos abismos marítimos produtos que, de outro modo, poderiam servir para dar às massas um conforto excessivo, e por conseguinte, a longo prazo, torná-las extremamente lúcidas. Mesmo que o armamento não chegue a ser de facto destruído, o seu fabrico, ainda assim, ocupa, na prática, forças de trabalho sem nada produzir que possa ser consumido.Se todos tivessem igual acesso ao lazer e à segurança, a grande maioria dos seres humanos, que normalmente vivem embrutecidos pela pobreza, instruir-se-iam e aprenderiam a pensar pela sua própria cabeça; a partir daí, cedo ou tarde concluiriam que a minoria privilegiada não desempenhava qualquer função, e acabariam com ela".

[George Orwell, 1984]

VÍTOR CONSTÂNCIO: UM FUNCIONÁRIO ZELOSO


A entrevista dada pelo Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, à RR e abundantemente divulgada pelos media é exemplar. As suas previsões optimistas sobre a economia portuguesa, atiradas do alto do Banco de Portugal sobre as nossas cabeças malabrutas, fazem a delícia dos analistas económicos, sobretudo daqueles que frequentam a gamela do aparelho de estado ou correm às sua migalhas, mas não são perceptíveis a partir das magras bolsas das famílias portuguesas e da miséria da sua situação económica e financeira, nem sequer do ponto de vista da ciência económica pode tal ser entendido.

Afinal, desconhece-se os fundamentos macroeconómicos com que se baseia o insigne economista, agora impulsionado como altar iluminante pela governação, para tais inauditas previsões e demais bênções à política orçamental.

Compreende-se o esmero de Vítor Constâncio. Funcionário zeloso e irrepreensível do Banco Central Europeu, a politica fundamentalista dos seus patrões não pode ser posta em causa. O controle da inflação como única variável explicativa dessa abencerragem do pacto de estabilidade não o incomoda nada. Nem os efeitos que tal máxima de estabilidade comporta na frágil economia portuguesa, sequer o atrapalham. Fica, sim, extasiado em discursos à volta da teoria dos ciclos económicos, esquecendo o que sobre eles foi dito por Robert Lucas, numa vaidade irritada e irritante à boa maneira de Mr. Jekyll & Mr. Hide. Dizem que é socialista. É possível que sim, não sabemos. Porém, pode crer que o seu nome ficará, independentemente do lugar que ocupa e da sua função, irremediavelmente ligado a um dos ciclos mais nefastos da economia portuguesa. Para bem ou para o mal.

CATÁLOGO Nº 80 DO LIVREIRO ALFARRABISTA MARTINHO


Saiu o Catálogo 80 do Livreiro Alfarrabista Martinho [Outeirinho do Mirante, 5, Lisboa] com livros esgotados, alguns raros e a preços convidativos.

Algumas referências: Álbum de Pensamentos, Máximas, etc, por Francisco Pimentel Carvalho, 1901 / Auxiliar do Ferroviário, por Jorge F. Teixeira, Lisboa, 1929 / Coimbra e António Nobre Homenagem ao Poeta, Coimbra, 1940 / Documentos para a História da Universidade de Coimbra (1750-1772), Coimbra, 1959 / Fel, de José Duro, 1898 / Elogio Histórico de Anselmo José Braamcamp, Porto, 1887 / A Memoria das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, por José Gomes Ferreira, Lisboa, 1966 / O Mundo dos Outros-Histórias e Vagabundagens, por José Gomes Ferreira, Lisboa, 1969 / Aldeia Nova, por Manuel da Fonseca, Ed. Forja, 1975 / Inventario da Criação dos Expostos do Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia, Lisboa, 1998 / Memorias Extraordinárias do major Calafaia, Páginas Desconhecidas, por Reinaldo Ferreira (Repórter X), Lisboa, 1945 / Os Lusíadas de Luís de Camões, Edição Comemorativa do IV Centenário da Publicação, 1972 / A Confissão de Lúcio, por Mário Sá-Carneiro, Edição do Autor, 1914 (raro) / As Portas que Abril Abriu, de José Carlos Ary dos Santos / Tarrafal Testemunhos – Trabalho Colectivo de Sobreviventes do Tarrafal, Editorial Caminho, 1978 / O Senhor Ventura, de Miguel Torga, Coimbra, 1943 / Traços de União - Temas Portugueses e Brasileiros, por Miguel Torga, 1955 / Relance da Alma Japonesa, de Wenceslau de Moraes, 1925

segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

EDGAR ALLAN POE [1809-1849]



n. em Boston a 19 de Janeiro de 1809

"'Rancores literários, vertigens do infinito, cuidados familiares, insultos da miséria - diz Baudelaire - tudo Poe sepultava na negrura da embriaguez; bebia não como quem é guloso, mas como quem é bárbaro'

Em Nova Iorque, exactamente na mesma manhã que a revista «Whig» publicava O Corvo, ao mesmo tempo que o nome de Poe passava a andar nas bocas de toda a gente, sendo o poema mais que disputado, ele deambulava pela Broadway a bater às portas e a estrebuchar. Uma tal quantidade de contradições bastaria para não ser preciso ir mais à frente falando de humor: umas vezes ele nasce do choque entre as suas faculdades lógicas fora do normal, a alta estatura intelectual e o brumoso espírito do vinho (O Anjo Bizarro); outras vezes vê-se tenebrosamente nascer nas inconsequências e contradições da condição humana pressentidas em alguns estados mórbidos (O Demónio da Perversidade)" [Edgar Allan Poe, in Antologia do Humor Negro, de André Breton, Fernando Ribeiro de Mello/ Afrodite, 1973]

Locais: Edgar Allan Poe / Index to the Edgar A. Poe Biography / The Edgar Allan Poe Society of Baltimore / E. A. Poe / Allan Poe (Biografia) / Allan Poe Website / The Works of Edgar Allan Poe / Os Espectros de Edgar Allan Poe / O Corvo (trad. Fernando Pessoa) / Edgar Allan Poe (Obras)

IN MEMORIAM DE ARY DOS SANTOS [1937-1984]





"Nós amamos a carne das palavras
sua humana e pastosa consistência
seu prepúcio sonoro sua erecta presença.
Com elas violentamos
O cerne do silêncio
"

[José Carlos Ary dos Santos, in A Luxúria, 1968]