quinta-feira, 21 de julho de 2005


Crise na Fazenda do Eng. Sócrates

"Os economistas são respeitáveis professores da ciência sombria" [Carlyle]

Este País não tem remendo possível. Ora se consome em palavrosos conflitos - bramindo sublevado ruídos sobre a validade da pátria - ora se abate em copiosas lágrimas por um repudiado ministro caído em desgraça, novo mártir que os opinativos colunistas erguerão em dor pungente. O cinismo disto tudo é um desaforo nada aceitável. Enquanto a soldadesca liberal regurgita de fúria face à desgraça pública da saída do ministro, animados que foram pela profunda reflexão de Campos & Cunha sobre a tormenta dos investimentos, dada à estampa no jornal do companheiro JMF, os incansáveis socialistas acham tudo absolutamente normal. Isto é, se o evangelho liberal, como sempre, navega à vista na confusão da sua revolução conservadora, os procuradores da maioria governamental são marionettes nada exigentes. A coerência é total.

O espantoso disto tudo é a quantidade de fantásticos professores-economistas que ao longo dos anos são deliciosamente maltratados. Ao trocar a prelecção da sebenta no cadeiral universitário pela efabulação do sofá ministeriável os senhores professores mostram não só o que aprenderam sob pavilhão estrangeiro mas também arriscam revelar o que na cátedra ensinam à mente conspícuo do estudante. É bom de ver que as formosas teorias económicas e financeiras tricotadas habilmente pelos lentes resultam invariavelmente, quando a prescrição exige e o BCE aplaude, numa enorme trapalhada de opiniões, que aliás a história do pensamento económico bem cedo anotou. Está na lembrança o opinioso protestatório em torno do milagroso superavit em tempos idos de Junho de 1913, sob a alçada de Afonso Costa, e a comoção havida entre os "economistas" domésticos. Não há, pois, gratidão ou respeito algum pela inteligentzia. Que a lamentação, em breve, de Teixeira dos Santos seja piedosa, é o que se deseja. A bem do magistério.
"Manifestação de apoio e não só"

"A multidão invadira a praça, rodeando a estátua que lá em cima apontava algo glorioso. Espezinhando canteiros, inundando ruas adjacentes, vociferante. A manifestação.
Palavras de ordem. Guinchos. Várias crianças à procura do pai.
Era o apoio. Incondicional, ininterrupto, ao Primeiro Ministro.
Ali, na praça enorme e paciente.
O Primeiro Ministro olhou por uma das janelas, no terceiro andar antiquíssimo do Paço Ministerial. Sorriu levemente. Apalpou a cara, passou uma das mãos pela lapela do casaco, numa carícia inconsciente. Acenou com a cabeça, discreto, um pouco irónico, ao ministério perfilado no fundo da Sala de Actos.
Dirigiu-se à varanda alta, sobre a praça apopléctica.
Abriu a janela num gesto paternal e deu um passo em frente.
Ouviu-se um som murcho e abafado, uma espécie de paff, lá em baixo, no empedrado decorativo que circundava o Paço.
Alguém tirara a varanda. Toda.
Isto não se faz, é muito feio."

[Mário Henrique-Leiria, in Aqui, nº 2, Setembro de 1976]

Hart Crane [n. 21 Julho 1899-1932]

"Muitas vezes das ondas, do largo desta escarpa
os dados de ossos dos afogados que ele vira mandam-lhe
embaixadas. Os números quando os notava
caíam na praia e se volviam obscuros.
...
E então no circuito calmo de uma vasta curva,
encantado o chicotear e conformada a malícia,
gelados olhos havia que levantavam altares;
e silentes respostas se esgueiravam de astro a astro.

Bússolas, quadrantes, sextantes já não forçam
mais marés. Alta nos azuis declives
a monodia ao marinheiro não despertará.
Esta sombra fabulosa só o mar a guarda"

[Hart Crane, "No Túmulo de Melville", trad. de Jorge de Sena]

Locais: Hart Crane (1899-1932) / Harold Hart Crane / Hart Crane (1899-1932) / À Ponte de Brooklyn [poema de H. Crane] / Contemplação do Urbano (Ensaio sobre a poesia de Hart Crane) / Brooklyn Bridge: facto ou símbolo? / As Vozes Submersas: Nome, Prece e Canção em The Bridge, de Hart Crane / O poeta Hart Crane suicida-se no mar [poema de Vinícius de Moraes]

sexta-feira, 8 de julho de 2005


Boletim Bibliográfico 26 de Luís P. Burnay

Referente ao mês de Julho, acaba de sair o 26 Boletim Bibliográfico do livreiro Luís P. Burnay (Calçada do Combro, 43-47, Lisboa), como sempre excelente. Peças monográficas, históricas, literárias, alguns lotes modernistas valiosos e raros, caracterizam este boletim.

Algumas referências: 30 Anos do Estado Novo, dir. Matos Gomes, 1957 / Mistérios da Praia da Rocha, por Marcos Algarve, 1926 / Obras Completas de Nicolau Tolentino, 1861 / Santos Portugueses, de João Ameal, 1957 / 3 primeiras edições de Sophia Mello Breyner (Livro Sexto, 1963; Mar Novo, 1958 e Dia do Mar, 1947) / Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, com notas de Natália Correia, ed. Rio de Janeiro / Roteiro da Ribeira de Lima, pelo Conde da Aurora, 1929 / Algarve Monumental, de Correia de Azevedo, 1977 / Ruas de Lisboa, de J. J. Gomes de Brito, 1935, III vols / Lisboa nas auras do povo e da historia, por Luís Chaves, 1961-69, IV vols / O Livro do Nómada Meu Amigo, de Ruy Cinatti, 1958 / Historia do Infante D. Duarte, irmão del Rei D. João IV, por José Ramos Coelho, 1920, III vols / Conta publicada pela Comissão encarregada de dirigir a distribuição do Donativo Votado pelo Parlamento do Reino Unido ... para socorro das Terras de Portugal devastadas pelo inimigo em 1810, Lisboa, 1813 / Documentos Históricos da Câmara Municipal de Lisboa. Livro dos Reis, Lisboa, 1957-1964, VIII vols / Documentos para a Historia da Arte em Portugal (or. De Raul Lino e Luís Siveira), 1969-1976, XV vols / 40 Noites de Insónia de fogo de dentes numa girândola implacável e outros poemas, de António José Forte, 1958 (raro) / O Saloio, por João Paulo (Mário) Freire, 1948 / Monografia do Parque da Pena, de Mário de Azevedo Gomes, 1960 / Ofício Cantante 1953-1963, de Herberto Hélder, 1967 / Historia de Portugal, de Alexandre Herculano, 1853-58, IV vols / Integralismo Lusitano (dir. de Luís de Almeida Braga, Hipólito Raposo), vol. I e II, Abril de 1932 a Março de 1934, 24 fasc. Em II vols / Os Pescadores da Vila de Peniche, por Albino Lapa, 1954 / Sindicalismo Personalista: plano de salvação do mundo, de Raul Leal, 1960 (raro) / Exercício sobre o sonho e a vigília de Alfred Jarry seguido de o Senhor Cágado e o menino, de António Maria Lisboa, 1958 (raro) / O Livro de Alportel, por Estanco Louro, 1929 / Legendas de Portugal, de Rocha Martins, XIV tomos em IV vols / Mundo Português: imagens de uma exposição histórica, 1940 / Orpheu, por Almada Negreiros, 1965 / Relevos, de Fernando Namora, 1937 / O verbo e amorte, por Vitorino Nemésio, 1959 / Entre a cortina e a vidraça, de Alexandre O'Neill, 1972 / Na Inquisição do Salazar, de Luís Portela & Edgar Rodrigues, pref. de Roberto das Neves (conjunto de cartas sobre "as atrocidades cometidas pela policia politica do Estado Novo" ? foi proibido em Portugal), Rio de Janeiro, 1957 / Nobilíssima Visão, de Mário Cesariny Vasconcellos, 1959 / Planisfério e outros poemas, idem, 1961 / Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, idem, 1953 / O Paço de Queluz, de Francisco Câncio, 1950 / Graal (revista), dir. António Couto Viana, nº 1 (Abril/Maio de 1956) a nº 4 (Dez 1956 /Julho 1957), IV nums, completa / Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, Bertrand, 1944 (raro)


Locais: Al Qaeda strikes in London's heart / Al-Qaida is exporting the war from Iraq to Europe / And this is why they did it / Conflit de valeurs / Esta vez, Londres / Iraq: the wrong war / La presse européenne s'inquiète d'une menace globale / Let the Olympics be a memorial / London: The latest ground zero / London lives / Online photos proliferate after London blasts / Please Appease Me / The price of occupation / The struggle against terrorism cannot be won by military means

quinta-feira, 7 de julho de 2005



[blogs] About this boy / Andrew Ian Dodge / BackCountry Conservative / Blood and Treasure / BuzzMachine / Europhobia / Guardian news blog / Norm Geras / perfect.co.uk / Project Nothing / Rhymes with Right / The Command Post / Tim Worstall / Tinkerty Tonk

Londres ... de novo a barbárie

Que resta dizer quando o ruído que trazemos na alma é um imenso distúrbio e a memória é coisa ininteligível. Ainda que esta cortina, negra, aberta ao terrorismo, à barbárie, ao terror, seja um vendaval constante, uma maldição - neste sonho colectivo de democracia que não pode quebrar -, ainda que o labirinto da nossa memória viva excessivamente, ainda que a prudência nos diga que "precisamos de inteligência" para o combate ao fundamentalismo religioso islâmico, ainda ... assim esta estranha incapacidade de construirmos uma estratégia comum contra o terror e a violência, perdura. Hoje Londres, ontem Madrid e Nova Iorque. Amanhã outro lugar. O espaço do terrorismo desliza na paisagem. O gesto para o derrubar exige muito mais. Entre eles esse trabalho de laicizar os Estados, seja eles quais forem. E manter a dignidade, a nobreza e as virtudes reveladas pelos londrinos que, como noutros tempos, nunca vacilaram mesmo sendo a amargura imensa. Sem vergar!

Locais: A Letter To The Terrorists, From London / BBC News / Coordinated terrorist attack in London / Letter from London / London Bomb Blasts Pool / News Now / Rush-hour attack on London / Technorati:London

quarta-feira, 6 de julho de 2005


[diálogos improváveis]

-- Mira, Fidel, éste Dirceu és un cabrón. Más uno traidor de la revolución? Donde fué que erramos, jefe?

-- Queda tranquilo, mio Che. Como dice el Bob Dylan, "Los tiempos cambian". Además, hoy en día, hay que endurecer pero sin perder la gordura.

[via Prosa Caótica]

5 - Aniversários atrasados - 5

"(... para amanhã ter a ilusão
de que o mundo é um sonho sem forma
a sair-me da cabeça.)
" [J.G. Ferreira]

A desdita fez com que 5- blogs -5 celebrassem a glória do aniversário e nós por cá nem desfalecemos de alegria. As virtudes com que pedalamos na blogosfera [Oh! P'rá nós na sedução em serviço de duas rodas], neste abraçado mês de Julho, comprometem a movida. Porém, são sinceros os votos de felicitações ao Adufe, Litle Black Spot, Opiniondesmaker, Pantalassa & Um Mundo Imaginado. Sejam, por isso, benevolentes. Esvoacem de gozo & grandeza. Vistam-se de graça. Saúde e fraternidade. Cheers!

No aniversário ido ... do Dias com Árvores

[para a Manuela. Felicitações]

"¿Cómo vive una rosa
si la arrancas del suelo?
" [Luis Cernuda]

"... Plantar uma árvore é desejar viver na natureza, incorpora-se nela e prolongar a própria existência. Nós vivemos com as árvores que plantamos, e, ainda quando o seu desenvolvimento máximo deva ser atingido muitos anos depois, nós acompanhamos, em espírito, esse desenvolvimento através do tempo e como que assistimos aos benefícios que essas árvores hajam de espalhar na frescura da sua sombra, na beleza do seu porte, na doçura dos seus frutos e até na riqueza da sua própria madeira. Isto é: vivemos no futuro com a árvore; e os que vierem depois de nós, hão-de certamente, lançar um olhar piedoso para essa árvore que cresceu, representando, na sua mente, a memória bendita daqueles que a plantaram ..."

[José de Castro, in pref. A Árvore, Biblioteca da Infância, 1913]

Devaneios e trapalhadas da Rosa

"Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante ...
" [G. Junqueiro]

Está claro: vem aí uma formidável trapalhada. A sentença para o país, dada com pompa e circunstância, ontem em sede do PIIP e a sua consolação, já noite dentro, pelo assombroso Sócrates (num bom momento de forma) via SIC, fundamenta os receios que lavram na paróquia lusa. O aspecto irrepreensível da apresentação da "coisa", que no dizer de Sócrates se "destina a criar um clima de confiança e de apelo ao crescimento", não ultrapassou sequer o seu merecido rescaldo.

Era ver os inauditos empresários, todos muito ajeitadinhos & ao molhe, do alto da sua imaculada quanto prudente essência empresarial, partirem à desfilada porta fora, para outro refúgio. O peditório, presume-se, não foi de muita estimação. O empresário indígena ainda se guia pelas doutrinas da infância do Estado Novo. Adormece quando lhe fazem ver que é empresário e/ou capitalista. Cá no burgo, o capital é uma vaidade para mostrar aos amigos, família & afins. Não é ferramenta intelectual nem o risco, decerto, é esmero que se venda a qualquer um.

Assim, esperar que este noviciado Plano de Fomento rosa, para além das megalomanias costumeiras e do desperdício de dinheiros públicos que gera, se concretize na/pela participação/decisão de investidores particulares lusos resulta em coisa pouco credível e, no invés, dará trapalhada certa. O exercício socrático de chamar a si ... os empresários e a populaça arrisca-se a uma pura esterilidade.

Enquanto isso, as comadres do Bloco Central, à falta de coisa melhor, lavam a roupa em S. Bento. A parceria da futricagem é verdadeiramente espantosa. O frenesim dos reparos em torno do Omo que lava melhor é uma oratória encadeada de respostas e contra-respostas, de regras e contra-regras, de desaforos liceais bem inspirados. E o Ministro das Finanças, em devoção extremada & em abono do défice, lá vai arranjando lenha para a fogueira dos impostos de todos nós, dando ocasião ao delicioso Santos Silva e ao imortal Oliveira Martins para fazerem o quebranto da rosa. Tudo engenhosamente sublime, decadente e rasca. O naufrágio está, portanto, à vista. Cuidem-se!
Livros & Arrumações [encomenda para o L. Miranda, Zé Viana e pró Motinha, algures a algarviar]

- curiosa separata da Revista Agronómica [vol.23(4):201-220, 1935] de Manuel de Sousa da Câmara intitulada "Abegão e Abegoaria". Trata-se, como se diz, de "ligeiros subsídios para um vocabulário agrícola e florestal português", importante para o conhecimento da "indústria agrária" e útil à "ciência dos campos". Estes apontamentos são agraciados ao Padre Luisier, Gustavo Matos Sequeira, Carlos Paim dos Reis, Augusto Ruela, Veloso de Araújo, Domingos Rosado, Rodrigues Simões e Carlos Rates (curioso!). Sobre cada uma das palavras [abegão e abegoaria] o autor faz um historial etimológico interessante, de vastas referências; depois parte para o significado da palavra, subsídios corográficos e elementos genealógicos

Para abegão temos, então, dirigente da abegoaria, empregado, chavão da lavoura, abaixo de feitor, carpinteiro de carros, fabricante de utensílios de lavoura e, ao que é dito, só é observado a sul do Mondego já que a Norte subsiste o moço, rapaz de penso ou pensador. Ao que o autor nos diz, abegão governa, para os lados de Benavente, o mancebo, os maiorais de bois, os contramaiorais, o roupeiro e o anojeiro, isto é "manda em todos os campinos". Portanto "ser abegão apresenta grandes dificuldades no exercício do logar; carece de grande experiência, bastante esperteza, muito desembaraço e provada honestidade". Cita o autor o excelente livro "Ribatejo" (1929), de Francisco Câncio, Mendes Leal Júnior ["O Campino", 1860] e "Atravez dos Campos - Usos e Costumes Agricolo-Alentejanos? (1903), de José da Silva Picão. Refira-se que, ao que se sugere, nalgumas terras alentejanas a palavra "abegão" foi substituída por "apeirador" (Campo Maior). Mais registos bibliográficos: Memória sobre a População e a Agricultura de Portugal (1868), de Rebelo da Silva; Épocas de Portugal Económico, de Lúcio de Azevedo. Para "Abegoaria", consultar ainda: Cintra Pinturesca (1838), de J. A. Pereira de Lacerda; O Livro do Alportel (1928), de Estanco Louro; Elucidário das palavras e Frases que em Portugal Antigamente se Usaram (1865), de Frei Joaquim de Santa Rosa Viterbo.

Nota necessária: "Aos estábulos de bois em Gouveia e regiões circunvisinhas denominam-os simplesmente lojas e em Santarém, Almeirim e povoados limítrofes lhes chamam motas, assim como noutros pontos do Ribatejo os distinguem por palheiros". Valeu!?

segunda-feira, 4 de julho de 2005


2 - Aniversários - 2

"Quem dirá o número dos meus dias?
Como será então o som da minha boca? ...
" [M.S. Lourenço]

Eis um somatório de virtudes: um homem & duas mulheres, entre poemas, análises, ideias e vocábulos - geometria imortal - teimam em iluminar a blogosfera lusitana. O viço das palavras é uma felicidade perturbante. Os mysterios (ou a miséria) da lide política comentados no Bloguitica & a perpétua poesis do/no Tempo Dual são puríssimos resguardos para todos nós. Fazem 2 libertos anos. Parabéns, saúde e fraternidade.

Para o Barnabé na Hora da sua Viagem

"Sou um marco
plantado há muitos anos:
Sei que aqui começa a vila
Sei que aqui começa o campo.
...
Muitas colheitas passaram,
crianças homens estão
a vila cresce e nas vinhas
amadurecem as uvas.
Tudo passa, por toda a vida
soluçam cheias as mãos ...
... Só eu sou o marco,
imóvel para sempre,
seco por uma angústia
de não ser vila nem campo
"

[Angel Crespo, in Aqui, trad. Manuel de Seabra]