segunda-feira, 28 de junho de 2004


Silêncio Ensurdecedor

Ao contrário do que se passa nos jornais, TV e nos Blogs, o silêncio sobre a tragédia do frete de Barroso à UE é ensurdecedor entre a classe política indígena e seus serviçais. A intensidade da criação e reflexão da direita/extrema-direita, a delicadeza do seu mutismo, a ideia evidente que não enxergam um palmo à frente do nariz, diz muito sobre a classe intelectual desses candongueiros da democracia.

Um anúncio assim, de tão extraordinário como inaudito, amortalha a rapaziada da classe política e os jovens turcos - todos ainda a esfregar a cara e a dar contas à vidinha -, e faz tremer qualquer um. O dernier cri é estar sossegado, pouco suspeitoso e observar a circulação. Acredita-se que em fase meditabunda não se esqueçam que "quando a imprudência vem de cima, a revolução vem sempre de baixo", como diria Gomes Leal.

Entretanto, para se confirmar como a malfadada inteligência da rapaziada apaixonada do Portas & Lopes lhes atordoa o juízo - julga-se que na falta do pai putativo Rato-, tenha-se em conta o que é eruditamente estampado no Acidental. Diz muito do que será os próximos dois anos de governação do Lopes. Não há engano possível: aquele rapaz, PPM, irá a ministro. Só pode.
À Volta dos Blogs

- [Via Incoming Signals] "Wonderful news: Ubuweb has created a permanent archive of the 365 Days Project, Otis Fodder's fantastic collection of outsider-music mp3s, which had gone offline in January ..."

Não resistimos:

1. LaurieAnderson TWO SONGS FOR TAPE BOW VIOLIN:(4:06)ETHICS IS THE ESTHETICS OF THE FEW-TURE (Lenin) SONG FOR JUANITA, 1977
2. Guy Debord Excerpt from soundtrack to Critique de la separation (Dansk-Fransk Experimentalfilmskompagni,1961
3. Allen Ginsberg | I'm a Victim of Telephones (1:30, Recorded GPS, December 1968)
4. Allen Ginsberg: C.I.A. Dope Calypso 4:00
5. William S. Burroughs|What Washington,What Orders(recorded GPS, April 1, 1974)
6. John Cage |excerpt from Silence(1:55, recorded Carbondale, Indiana, March 1969)

domingo, 27 de junho de 2004

[As Noites]

"... São gordas as noites em que discordo do sono
incha o corpo vago balbuciar de livro
lendo baptizo o silêncio dos olhos
e a geleia de ideias dissocia grão a grão
as mãos humanas de suas colheitas ...
" [Dórdio Guimarães]


Santana Lopes ou Nós

"Nothing is but what is not ..." [W. S. in Macbeth]

Não é difícil de pressagiar o que sobrevirá à aventura Santana Lopes. Não há nisto nada de novo. Os acontecimentos, por muito emocionais que sejam, só podem conduzir ao caos social e político, tal a hostilidade que o cenário Lopes & Portas indicia. Não podem causar espanto, portanto, a dramatização e a denúncia vindos de diferentes sectores da sociedade portuguesa. Nada de novo, portanto. O que parece ser novo é a imprudência de algumas afirmações, aqui e ali proferidas, o protesto populista (mesmo que sincero) posto a circular e, principalmente, o descuido da exigência do rigor na análise, que estas situações comportam.

Expliquemos: Do ponto de vista constitucional não existe qualquer impedição para que a Assembleia da República não continue em funções. O senhor Presidente da República terá a última palavra, certamente, mas se a obsessão de Jorge Sampaio por essa figura irrealista da estabilidade politica persistir (como infelizmente parece acontecer), então não haverá lugar a eleições. Ora, se a legitimidade formal do novo governo não é questionável, a avaliação do desempenho do governo de Durão Barroso já o é. Os cidadãos eleitores ficam, objectivamente, impedidos de exercer esse imprescindível exercício democrático, porque na verdade ao fim da legislatura não estão a classificar as mesmas políticas e os mesmos intérpretes. A fraude é evidente. E se no invés de Santana estiver a Ferreira Leite, passe a maior legitimidade processual, a posição mantém-se.

Em termos da caracterização do populismo Santanista, parece-se ignorar os seus potenciais perigos. Não se trata, meramente, de assistir a substituição do Diário das Sessões pela Gente ou pela Lux, de ver a aprovação de medidas para relvar todo o país, ou mesmo pela vaidade de construir uma sala oval em S. Bento. É divertido e imaginativo, mas há muito mais a ter em conta para além da fatuidade e do seu espectáculo. É que, por detrás do risonho Lopes e a pretexto do bem público, reside toda uma máquina de evangelização e doutrinação, aonde a lei está sistematicamente ausente, a autoridade é um meio de promoção unipessoal e a favor do grupos de amigos e onde a resistência democrática é simplesmente banida. Quem por isso passou sabe do que aqui se fala. Santana Lopes é o Berlusconi indígena. Quem disso se esquecer não viverá para contar. E não é aceitável pensar que a esquerda aproveite com a chegada de Lopes ao Governo, como alguns registam. Desde logo porque o populismo não lhes dará essa amabilidade, nem o cenário económico que se aproxima o possibilita. É bom não esquecer.
[Não fujas]

"... Não fujas. Tem ânimo e contempla-te. «Que direito teme este tipo de dizer-me o que quer que seja?» Leio esta pergunta nos teus olhos amedrontados. Ouço-a na sua impertinência, Zé Ninguém. Tens medo de olhar para ti próprio, tens medo da crítica, tal como tens medo do poder que te prometem e que não saberias usar. Nem te atreves a pensar que poderias ser diferente: livre em vez de deprimido, directo em vez de cauteloso, amando às claras e não mais como um ladrão na noite. Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém. Dizes: «Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?» E tens razão: Quem és tu para reclamar direitos sobre a tua vida? ..."
[Wilhelm Reich, in Escuta, Zé Ninguém!]

Emma Goldman (1869-1940)

n. na Lituânia a 27 de Junho de 1869

"A verdadeira emancipação começa ... na alma da mulher ..."

"... Se alguém quer desenvolver-se livre e plenamente, tem que se ver livre da interferência e da opressão dos outros ... Isto nada tem a ver com ... individualismo exacerbado. Tal individualismo depredador é na realidade débil, não robusto. Ao menor perigo à sua segurança, corre em direcção ao Estado para buscar refúgio e ajuda pela sua protecção ..."

"... A verdadeira liberdade é positiva; é a liberdade em direcção a qualquer coisa, a liberdade de ser, de fazer, e os meios dados para isso. Não pode tratar-se de um dom, mas de um direito natural do homem, de todos os seres humanos. Este direito não pode ser acordado ou conferido por nenhuma lei, nenhum governo. A necessidade, o desejo ardente faz-se sentir em todos os indivíduos. A desobediência a todas as formas de coação é a sua expressão instintiva. Rebelião e revolução são tentativas mais ou menos conscientes e sociais, são as expressões fundamentais dos valores humanos ..."

"... Em Emma Goldman, no princípio, estava um desejo de justiça, de amor e liberdade. Foi esse desejo que ela viveu e serviu, sempre recusando-se a submetê-lo a regras de eficácia ou de lógica (...) Por isso lutou pela felicidade, pela igualdade social, pelo direito à liberdade, pela beleza das flores e cores, pelo prazer e pelo amor, sem estabelecer hierarquias. Imagino que isso signifique ser radical. Recusar etapas, objectivos ambíguos, meias palavras. Recusar a servidão sob quaisquer de suas formas" [Beth Lobo]

sexta-feira, 25 de junho de 2004


Durão Barroso - Presidente da Comissão Europeia

Definitivamente, Durão Barroso vai ser candidato a Presidente da Comissão Europeia, sucedendo a Romano Prodi. É bom para Portugal e para a Europa. O facto, é que um mau primeiro-ministro de Portugal pode ser um excelente Presidente da Comissão. Não há qualquer contradição. A escolha de Durão Barroso serve os interesses e as diversidades dos vários países e brinda-nos com alguma vaidade. Assim Barroso saiba compreender o porquê da candidatura e, certamente, da sua eleição.

Uma outra questão é a particularidade da nomeação de Santana Lopes (como refere a SIC) para primeiro-ministro de Portugal. Uma leitura óbvia é que o populismo e a incompetência mais abjecta chegam ao poder. Já lá estavam, poderão dizer alguns. Decerto, mas a esta precipitada improvisação é um golpe palaciano que instala a barafunda e a falta de respeito pelos cidadãos eleitores. Mesmo entre os sociais-democratas. Curiosamente, o sublime disto tudo é que o PSD social-democrata e liberal é, decididamente, afastado da tarefa da governação. E o garoto da rua Paulo Portas vê-se assim auxiliado, inesperadamente, pelo seu amigo Lopes. Os próximos tempos serão de cortar à faca. Por último, como se estará a sentir o douto e perspicaz prof. Marcelo? Estará engasgado nas análises que lhe escaparam? Ou andará a limpar as armas? Aguardemos.
Natureza do Mal: um Manual de Civilidade

Todos os dias a Natureza do Mal deixa uma oração luxuriosa a todos os penitentes da blogosfera. O olhar de Sofia é o nosso exílio amoroso. As maldades nocturnas do Luís não têm emenda. André Bonirre ergue o cálice. São cruéis. Não se trocam contra reclamações. Dizem que são aniversariantes hoje, mesmo que o próximo dia 27 seja esse momento mágico em que se ouve o bater do coração. Parabéns.

Inglaterra ... já foste!

O amigo inglês caiu da vaidade fervorosa que os seus professavam e assistiu a um espectáculo assombroso de orgulho luso. Ignorando a grandeza dos nomes, desfilaram no inferno da Luz (onde podia ser!?) os intérpretes do nosso coração. A intensidade dramática da jogatina foi um cântico ao futebol. A emoção manteve-se até ao último minuto. Afinal não somos completamente desprovidos de humor. Só não entende estas trivialidades do futebol quem se refugia na comédia de ser intelectual. Convenhamos que o work ego, assim desenvolvido, deve ser fantástico. Mas não passam de um desmancha-prazeres. Caso para dizer: "Os zelantes têm vistas curtas, só pensam em curar. E se isso não convém à pessoa?"

Dos nossos jogadores, todos infinitamente belos e garbosos, assinaram a excepcionalidade os dois Ricardos (excelente luvada, Ricardo, aos críticos com pronúncia do Norte) e Maniche. Ah! E o golaço de Rui Costa, o tal velhinho que emociona os críticos de bancada, não pode ser esquecido. Nem esse poema-penalty marcado por Hélder Postiga. C'est futebol!

quinta-feira, 24 de junho de 2004


Euro 2004: Vamos a Provas

Minhas senhoras meus senhores vamos alaparmos nos sofás e cadeirais vamos a provas não tenham tremuras a noite é nossa venham ver o Figo e seus Figões as mãos na baliza as cabeças na bola vede como a Inglaterra é apenas traje e cerveja venham mirar os nossos que a velha arca lusa ainda tem préstimo cada um em seu posto minhas senhoras e meus senhores no mercy eis o segredo

Terras do Nunca: Um ano e outros mais

Comemora amanhã o seu primeiríssimo aniversário, segundo reza o calendário de parede, o Terras do Nunca. «E as coisas? Como vão as coisas??, dizia no seu primeiro post. Vão bem, asseguramos nós, ainda que "malparadas". É que esta "guerra é muito bera para os dentes", como confirma Boris Vian e nós assinamos por baixo. Com calma, a razão e o resto virão depois. Até lá ... feliz aniversário.


Correios de Portugal: a Vergonha

Não sabemos se teremos de regressar aos cavalos persas, às velhas carroças lusas ou mesmo a pombos, para restituir o bom-nome aos Correios de Portugal. A ideia parece ser atraente e só Carlos Horta e Costa, a debater-se nesta tragédia da inabilidade lusa, não entende.

Expliquemos: hoje uma simples carta ou postal, demora dias a espinotear-se na nossa caixa de correio. Um livro, semanas a fio. A descarada propaganda de Horta e Costa sobre a qualidade do serviço dos CTT é a maior das grosserias. É uma monomania tipicamente portuguesa o alinhavar sugestivos e inspirados atestados de maioridade ao seu desempenho. A imaginação não tem limites.
A desgraça, porém, é nossa. Ontem (dia 23), recebemos o livro-catálogo do Leilão da Livraria do Calhariz que, pelo que sabemos, foi enviado de Lisboa no dia 8 do corrente mês. Apenas demorou 15 dias a chegar-nos às mãos. Só que o leilão tinha-se realizado no dia anterior. Pelo que entendemos depois, parecem ser normais estes atrasos. E a tendência é para aumentarem.

Perceberam? A única Instituição que ao longo de anos a fio tinha um serviço exemplar, acabou. A balbúrdia da incompetência da sua administração, a demanda intransigente da Mercearia Ferreira Leite e a merenda Barrosista, liquidaram de vez os CTT. Que nos resta mais?

quarta-feira, 23 de junho de 2004

Nós somos ...

"... Nós somos os homens de amanhã
vindos do silêncio
que se refugia atrás do silêncio ...
Nós somos os homens de amanhã ...
E connosco voltam as estrelas!...
" [Tomaz Kim]

Festa do solstício ... muito luxamente

Sob a égide do solstício a equipa do Causa Nossa fez, certamente, festa de arromba que a solenidade anunciava e a liturgia obrigava. O ritual da fertilidade da blogosfera lusa, nesta festa Junina de celebração dos antigos mysterios, prometia proporcionar farta colheita futura.
Ora, é sabido que tais festividades estão associados, por efeitos telúricos, à necessária fogueira, exigindo-se danças de circunstâncias e círculos mágicos para afastar as trevas, bem como o imprescindível banquete ou ágape (Não fazemos referência ao trabalho alquímico de recolha de orvalho, que nesta altura do ano termina, dado que a vida húmida não deve ser exposta aos profanos). Porém, quase a dar as seis badaladas ainda nada se soube das ocorrências festivas, nem quais as fadas e os elfos presentes. O que está mal. Afinal importa cumprir a etiqueta, mesmo que as práticas sejam discretas. Estamos desassossegados, já se vê. Não se faz!