[No dia de nascimento (1924) de Alexandre O'Neill]
"Aqui dormi.
Aqui sonhei.
Aqui me masturbei.
Da parede,
o mesmo azul do mapa
me convida.
Mas não fui «de longada».
De lombada em lombada,
quanta estante corrida!"
[Alexandre O'Neill, in O Quarto]
domingo, 19 de dezembro de 2004
Excitações Lusitanas & mais do mesmo
- os domésticos socialistas da cidade do Porto, sempre pródigos nas suas perturbações de fé eleitoral, congratularam-se pelo providencial apoio do senhor Pinto da Costa contra o insolente Rui Rio. O país nem um sorriso profundo manifesta. Nem um esgar incómodo declara. Ninguém se chega à frente em reparos. Mas sabe-se que os mistérios portuenses dão sempre em alucinações entusiastas, que invariavelmente acabam em arriscadas hermenêuticas no Bolhão.
O brinde do virtuoso Papa Costa foi disputadíssimo. O estremado Francisco Assis deu o amem rosa. Fernando Gomes comoveu-se pelo altíssimo discurso do sr. Pinto da Costa, esse incansável paladino da democracia. Nuno Cardoso amuou. A tralha socialista reclama um regresso. Sócrates resta um túmulo. Enquanto isso, o inefável Marco António confessa que frequenta as Antas aos domingos e dias santos. Consta, ainda, que Luís Filipe Menezes teve uma apoplexia, politicamente falando, é claro. Como são puros os ares da província.
- a economia já era. As lambiscadas dos tediosos opinion-maker's da coisa económica andam cansativas. Enjoam pelos testemunhos. Todas as manhãs lá vêm a ordem de argumentos em defesa do defunto. Entre as trevas da política económica, saltam as vozes puristas do professorado. Miguel Cadilhe consegue ver a borda do precipício, mesmo que esteja à sombra de quem o construiu. O deslumbrado Miguel Frasquilho, aleijado pelas mazelas pós-keynesianas, entretém os indígenas na comédia divertida do choque fiscal. Ignora-se, apenas, como entende imolar o Estado. O professor Cavaco, em magnifico delirius oeconomicus, fustiga os seus imediatos da governação, cavalga a besta do apocalipse pátrio, taramela qualquer coisa. A lenga-lenga do prof. Cavaco esquece o caudal económico dos disparates Barrosistas e, principalmente, a mercearia da senhora Ferreira Leite. Mas não faz mal a sabatina económica. O charivari é ensurdecedor. A turba indígena está de consoada. O bacalhau não desaparece, de vez. Deo gratias!
Prémio Pessoa 2004 - Mário Cláudio
"... Um nevoeiro puríssimo desce sobre os bosques da madalena, torna infinitos os espelhos, derrete neles os fios do esplendor da tarde, e logo as redes se lançam, ficam por instantes suspensas até que as engole o ventre líquido. São os vapores que respiram ofegantes em sua rota, com uma multidão heteróclita de passageiros, onde causa escândalo certa dama coberta de flores e plumas, na companhia de seus dois periquitos, três gansos canadianos, quatro peixes doirados, um macaco e um par de criados. E os grumetes ficam-se a olhá-la um pouco de revés, dela se afastam os frades e os beleguins e a rapariga olheirenta embrulhada num xaile, que arrasta uma história passional e foge à sanha dos burgueses. Exportam-se os produtos da terra, e na alma deles se retém uma saudade de sangue e de suor, o espectro morno do amor que os fez nascer e crescer e serem separados do seio original onde se conceberam ..."
[Mário Cláudio, in Das Torres ao Mar, O Oiro do Dia, 1983]
Prémio EDP 2004, Artes Plásticas - Álvaro Lapa
'... carácter de «últimas» vontades, de última-vontade, de vontade extrema, tensa, sobreavisada, que tornam as obras para o futuro (=doravante). A obra como sinal premonitório, a imaginação como actividade receptiva (seu carácter dominante), captadora do sinal-mensagem «que vem do futuro»: uma gigantesca central-receptora, a imaginação da «arte moderna». Trata-se de preservar o essencial - donde as minha «legendas proféticas», as minhas «caixas-relicário-pessoal», as minhas «alegorias», os meus «cânones», os meus «dogmas», os meus «abrigos», os meus «auto-auto-retratos», os meus «estímulos», os meus «flagrantes eróticos» ...'
[Álvaro Lapa, in Raso como o Chão, Estampa, 1977]
sábado, 18 de dezembro de 2004
Antonio Stradivari [m. 18 Dezembro 1737]
Locais: Antonio Stradivari. His Life and Work (1644-1737) / Antonio Stradivari / Antonio Stradivari / Sonatas Barrocas
[Livros & Arrumações]
Temos da "Annona ou mixto-curioso folheto semanal que ensina o methodo de cosinha e copa, com um artigo de Recreação", Lisboa, Imprensa de C. A. S. Carvalho, fim da Calçada do Garcia nº 42, nº 1 ao nº 36, 1836-1837, curiosas observações e dizeres vários. Algumas anotações:
"Doce - Manjar branco de peros. Ponham-se a coser em meia canada de leite meia dusia de peros grandes, limpos, apurados, e sem pevide, estando meio cosidos, deitem-se em um tacho, desfasem-se com a colher, e deitam-se-lhe duas canadas de leite, dois arrateis de assucar, e um arrátel de farinha de arroz, ponham-se a coser; e em quanto se cosem, refrescam-se com meia camada de leite, deitando-se-lhe pouco a pouco, e depois de cosido, deita-se-lhe agua de flor, tira-se do lume, e põe-se nos pratos" [nº20]
"Detalhes sobre a vida de Milton - Milton levantava-se da cama às quatro horas da manha no verão, e as cinco no Inverno. Trazia sempre uma borjaca de pano ordinário de mescla, estudava até ao meio dia, jantava frugalmente, e dava o seu passeio com o seu conductor, cantava pela tarde, tocando qualquer instrumento, conhecia as regras da harmonia, e tinha uma voz agradável. Sabia a arte da esgrima. E quem ler com attenção o seu Paraíso Perdido, verá que amava apaixonadamente a musica, e o cheiro das flores; ceava cinco, ou seis azeitonas, e uma pouca de agua, deitava-se às nove horas da noute, e alli compunha algumas obras; quando compunha alguns versos, repetia-os a sua mulher, ou a seus filhos; em dias de sol, sentava-se em um banco à sua porta ..." [idem]
"Poesia - Dois sujeitos, e ambos muito feios, andavam continuamente motejando-se um ao outro; um deles entrando certo dia no quarto do outro, a tempo que este fazia a barba, com grande trejeitos, que ainda o tornavam mais horrendo, lhe improvisou o seguinte soneto
"Boca, e mais boca de letrinea casta!
Penca, e mais penca té ao cu descida;
Horrenda, e sempre eterna prosseguida,
Carranca enorme a quem eu cedo, e basta!
Mal haja o sabonete que se gasta,
Em lavar-se essa tez ennegrecida;
Mal haja essa navalha envillecida,
Que a barba hirsuta do cartão te affasta!
Oh! quem pudera da fealdade excesso.
Arrumar-te em logar de banho morno,
Dois peidos nessas ventas d?arremesso:
Oh! quem te dera para teu adorno,
Por agua escarros, por espelho o cesso,
Por sabão merda, e por navalha um corno." [nº 21]
Temos da "Annona ou mixto-curioso folheto semanal que ensina o methodo de cosinha e copa, com um artigo de Recreação", Lisboa, Imprensa de C. A. S. Carvalho, fim da Calçada do Garcia nº 42, nº 1 ao nº 36, 1836-1837, curiosas observações e dizeres vários. Algumas anotações:
"Doce - Manjar branco de peros. Ponham-se a coser em meia canada de leite meia dusia de peros grandes, limpos, apurados, e sem pevide, estando meio cosidos, deitem-se em um tacho, desfasem-se com a colher, e deitam-se-lhe duas canadas de leite, dois arrateis de assucar, e um arrátel de farinha de arroz, ponham-se a coser; e em quanto se cosem, refrescam-se com meia camada de leite, deitando-se-lhe pouco a pouco, e depois de cosido, deita-se-lhe agua de flor, tira-se do lume, e põe-se nos pratos" [nº20]
"Detalhes sobre a vida de Milton - Milton levantava-se da cama às quatro horas da manha no verão, e as cinco no Inverno. Trazia sempre uma borjaca de pano ordinário de mescla, estudava até ao meio dia, jantava frugalmente, e dava o seu passeio com o seu conductor, cantava pela tarde, tocando qualquer instrumento, conhecia as regras da harmonia, e tinha uma voz agradável. Sabia a arte da esgrima. E quem ler com attenção o seu Paraíso Perdido, verá que amava apaixonadamente a musica, e o cheiro das flores; ceava cinco, ou seis azeitonas, e uma pouca de agua, deitava-se às nove horas da noute, e alli compunha algumas obras; quando compunha alguns versos, repetia-os a sua mulher, ou a seus filhos; em dias de sol, sentava-se em um banco à sua porta ..." [idem]
"Poesia - Dois sujeitos, e ambos muito feios, andavam continuamente motejando-se um ao outro; um deles entrando certo dia no quarto do outro, a tempo que este fazia a barba, com grande trejeitos, que ainda o tornavam mais horrendo, lhe improvisou o seguinte soneto
"Boca, e mais boca de letrinea casta!
Penca, e mais penca té ao cu descida;
Horrenda, e sempre eterna prosseguida,
Carranca enorme a quem eu cedo, e basta!
Mal haja o sabonete que se gasta,
Em lavar-se essa tez ennegrecida;
Mal haja essa navalha envillecida,
Que a barba hirsuta do cartão te affasta!
Oh! quem pudera da fealdade excesso.
Arrumar-te em logar de banho morno,
Dois peidos nessas ventas d?arremesso:
Oh! quem te dera para teu adorno,
Por agua escarros, por espelho o cesso,
Por sabão merda, e por navalha um corno." [nº 21]
quinta-feira, 16 de dezembro de 2004
Olavo Bilac [n. 16 Dezembro de 1865-1918]
"Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
- Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
- Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
- Mais abaixo, meu bem! - disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci..."
[Delírio, por Olavo Bilac]
Locais: Biografia / Olavo Bilac / O. Bilac / Poesia / Bilac / Aviso aos pais ou Bilac Erótico
Geração Rasca
Os episódios políticos, a crise laudatória e a cacofonia destes dias não têm nada de empolgante, nem de virtuoso. A estratégia política foi há muito exumada e nem a língua de trapos, destas semanas, pode servir de paródia a quem quer que seja. Os disparates em série de um conjunto de homenzinhos da classe política, et pour cause seguido de chacota bem humorada, evidencia o que muitos referem sem mistério: estamos perante uma classe política rasca, que sem se saber porquê veste a farda da governação e usurpa o poder. Não há memória de tamanha obscenidade. Custa acreditar em tão desabridos acontecimentos.
A singular arribação destes novíssimos gestores governamentais tem de ter alguma explicação sob pena de estarmos decisivamente condenados. Sabia-se que a invasão do aparelho político era prometedor para quem tem da administração a vaidade de subir de vida, sem aborrecimento pelo trabalho, com um perfil e preparação técnica tacanha e grotesca, sem esforço intelectual ou ético visível. Sabia-se que quase todos lá chegam, unicamente, via benesses político-partidárias. Mas ninguém pensou, decerto, que estávamos a assistir à sua massificação, no meio de uma algazarra extravagante e perturbadora.
O desaire do exercício presidencial do dr. Sampaio; a declaração conjunta de Lopes & Portas em bom estilo pimba, embuçados em juras d'amor até ao espinote final daqui a dias; as atabalhoadas e vergonhosas afirmações do santanista Paulo Pereira Coelho, em excelente prosápia do que foi a atmosfera destes anos de jogos florais em terras figueirenses; as fantasias desafinadas de Bagão Feliz quanto ao deficit, aos agentes financeiros e ao pessoal indígena; as maquinações condimentadas de Morais Sarmento; as lamúrias improvisadas de Dias Loureiro; as tiradas vazias e torpes do afadistado Pires de Lima Filho ou as cogitações de Nuno Thomaz; são apenas a ponta do iceberg. Porque o aparecimento deste rebanho de novos políticos na pista governamental é o mais singular testemunho do desastre nacional. E que irá perdurar por tempos intermináveis. Como alguém já disse, "a ignorância é muito atrevida". O abismo aí está.
[Dezembro]
"O entendimento foi concebido de molde a guiar o coração; desgraçadamente, tanto neste mês como nos seguintes, os homens deixar-se hão arrastar pelo sentimento, cavalo fogoso e sem vista.
É costume cada um gravar as injúrias em bronze e os benefícios e finezas na areia ou na onde fugidia. As belas almas têm uma só lápide: a das boas obras recebidas.
Há povos infortunados hoje, ora e sempre. São os que fazem depender a fé e suas acções resultantes da decisão dos homens (...)
A ambição é um golfo em que só há escolhos e penas. Àqueles que se mantenham no cairel, os aplausos do mundo fá-los hão esquecer que podem escorregar ... e escorregam (...)"
[Cavaleiro de Oliveira, in Recreação Periódica, vol II, 1922]
"O entendimento foi concebido de molde a guiar o coração; desgraçadamente, tanto neste mês como nos seguintes, os homens deixar-se hão arrastar pelo sentimento, cavalo fogoso e sem vista.
É costume cada um gravar as injúrias em bronze e os benefícios e finezas na areia ou na onde fugidia. As belas almas têm uma só lápide: a das boas obras recebidas.
Há povos infortunados hoje, ora e sempre. São os que fazem depender a fé e suas acções resultantes da decisão dos homens (...)
A ambição é um golfo em que só há escolhos e penas. Àqueles que se mantenham no cairel, os aplausos do mundo fá-los hão esquecer que podem escorregar ... e escorregam (...)"
[Cavaleiro de Oliveira, in Recreação Periódica, vol II, 1922]
terça-feira, 14 de dezembro de 2004
[Amôre]
"O Amôre, graça de mau gosto,
muitas vezes na boca, sempre no sentimento,
veio, trota trotando, ter comigo.
Trazia a língua de fora, tropeçava nela,
fazia-se cansado, era apenas piegas.
Por que volta a bestiúncula
a rondar-me o terreiro?
É camaradagem
ou aragem de cama?
Desapossados é que estamos livres para caminhar."
[Alexandre O'Neill]
"O Amôre, graça de mau gosto,
muitas vezes na boca, sempre no sentimento,
veio, trota trotando, ter comigo.
Trazia a língua de fora, tropeçava nela,
fazia-se cansado, era apenas piegas.
Por que volta a bestiúncula
a rondar-me o terreiro?
É camaradagem
ou aragem de cama?
Desapossados é que estamos livres para caminhar."
[Alexandre O'Neill]
Bom dia Jane. Faço ideia do alvoroço que vai por aí. Uma Avé Maria por cada olhar, um pecadilho por ouvido. O ideal seria cantares sob protecção divina. O fruto ainda não caiu ... de vez.
Naquele tempo "uma mulher passou quando eu dormia ou acordava" [H.H.]. Não sei bem. Ter apenas memória que a vida es sueno. Feliz aniversário.
[DOWNLOADS]
The Clash - Discography [via KingBlind]
Meus senhores é entrar e downloadar para afastar o tédio aqui na lusa Pátria acanhada à espera de toda essa gente coligada que o Bettencourt já botou faladura o Delgado cultiva ideias ad-curativas e o sismo Lopes pode ocorrer que ninguém consegue escapar ao destino nem à pachorra destas noites sem entrarmos em alvoroço poético. Vivam as brigadas Clash recauchutadas. Tenha um bom dia.
"Ninguém entra em pânico / Todos se prostituem / e tudo canta minha gente / por dentro do gaiolame / Os modelos morais cobrem os muros / ... / A rádio diz-me o que devo dizer / a rádio os jornais e a televisão todos mo dizem / ... / E como é pá pra veres o teu tempo interior / na TV? / ..." [Ninguém entra em pânico, The Clash, in Pravda nº1, 1982]
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