quarta-feira, 9 de fevereiro de 2005


Fyodor Dostoevsky [m. 9 Fevereiro em St. Petersburg de 1881]

"... No século da ciência, no século da elaboração das grandes reformas sociais, Dostoievski ouvia ainda dentro de si as vozes antiquíssimas do mundo medieval. E a grande dúvida que me assalta sempre após a leitura dos seus romances é esta: que pensava Dostoievski dos homens? Acreditava neles ou não - esses homens que, se ousassem confessar em voz alta os mais secretos pensamentos (tal a opinião do príncipe Valkovski, a figura-chave dos Humilados e Ofendidos), acabariam por afogar a Terra numa tal pestilência que a humanidade morreria sufocada? Não acreditava? Que sentido têm estas perguntas?
Mas, seja como for, suspeitamos que Dostoievski, descrente dos homens, só vê para eles uma única salvação: a tirania cruel que os sujeite ao sofrimento purificador ..." [Augusto Abelaira, in Introdução a Humilhados e Ofendidos, Estúdios Cor, 1962]

"... Dostoiewsky pertencia à categoria daqueles seres de que Michelet disse: «sendo homens vigorosos, têm muito da fragilidade feminina». Desta forma se explica toda uma faceta das suas obras, onde se apercebe a desumanidade do talento e a necessidade de fazer sofrer. Em face deste carácter, o martírio cruel e imerecido que um cego destino lhe prescreveu devia profundamente tê-lo modificado. Nada há que admirar pois, ao vermos que se tornou um génio nervoso e irritável aé ao mais alto grau ..." [M. de Vogue, in pref. De Recordações da Casa dos Mortos, de Dostoiewsky, Porto, 1942]