terça-feira, 18 de setembro de 2007


Aquilino Ribeiro

"... Olhem sempre em frente, olhem o Sol, não tenham medo de errar, sendo originais, iconoclastas e anti, o mais anti que puderem, e verdadeiros, fugindo aos velhos caminhos trilhados de pé posto e a todas as conjuras dos velhos do Restelo. Cultivem a inquietação como fonte de renovamento"

[Aquilino Ribeiro, palavras que proferiu na homenagem que lhe foi prestada na Sociedade Portuguesa de Escritores – citado por António Valdemar, Expresso-Actual, 15 de Setembro 2007, p. 12 - sublinhados nossos]

segunda-feira, 17 de setembro de 2007


Charivari do bom nativo

Depois de ataviados gorjeios & prosas dos indígenas lusos – esses talentosos “bárbaros”, presentes nas lascivas historietas do dr. Rui Ramos aos genuínos Ingleses –, por ora muito consumidos pelo caso Maddie, mansamente animados pela disputa eleitoral no PSD e exaustos pela divertida propaganda política do governo, eis que lhes cai em cima do ego, para amor e civismo pátrio, o estupendo caso Scolari. Para durar.

De caso em caso, de expedição em expedição, de novidade em novidade, não há pavor algum ou pranto que tire o bom nativo do sério. A vigília do dr. Moita Flores, o génio (very british) de Rui Ramos, o dom educador do sábio Rui Santos, o intelecto de José Miguel Júdice, o cântico redentor do sr. Sócrates ou a aparição da figura indulgente do dr. Cavaco, transforma-os de rudes ignorantes em sábios. De tudo e de nada! Eis uma boa pista a seguir pela dr. Maria Lurdes Rodrigues, agora que está tão volteada para o “choque tecnológico” e o sucesso das criançolas. Colocar aquele raminho de notáveis no aconchego das escolas e universidades, era o sucesso escolar garantido e uma bênção para a União Europeia. Haja inspiração!

Depois, o bom nativo teve ocasião de acompanhar a argumentação lavrada, ad nauseaum “como é óbvio”, do sr. Luis Amado sobre a visitação do Dalai Lama a Portugal. A ousadia e o disparate dessa formidável figura deleitou tanto os spin doctors que até o dr. João Paulo Gorjão (nos braços da SIC) teve ensejo de registar, ao "piedoso" auditório e para os vindouros, a "espuma" e as "atitudes adolescentes" dos nossos transviados paroquianos, evidentemente pouco dispostos a ver a natural "realidade" de não se "ganhar" nada em receber o Dalai Lama, não vá a democrática China incomodar-se com essa questão (de pormenor) dos direitos humanos. Esses episódios másculos ficam sempre bem quando dirigidos a Cuba ou à Venezuela (leia-se formulário aqui). O bom do erudito português tem sempre, como se sabe, os tomates muito bem escaldados. Não convém abusar. E assim vai esta "fermosa estrivaria". Nada de espantos.

Boletim Bibliográfico 35 da Livraria Luís Burnay

Saiu o Catálogo do mês de Setembro da Livraria Luís Burnay (Calçada do Combro, 43-47, Lisboa). Peças estimadas e raras de Culinária, História, Colónias, Monografias, Caça, Almanaques, Literatura, Revistas e muito mais.

Algumas referências: An Account of several late Voyages and Discoveries ..., London, 1711 / Archivo Pitoresco, 1857-1868, XI vols / Athena. Revista de Arte, 1924-25, V numrs / Culinária Portuguesa, prol. Albino Forjaz de Sampaio, Ed. autor (194?) / Diccionario de Glossologia Botânica ..., de António A. da Fonseca Benevides, 1841 / Da Caça. Palestras Cinegéticas, por António Bomfim, 1946 / Historia da Luzitania e da Ibéria (vol I e único publ.), de João Bonança, 1887 / A Inquisição e os Professores do Colégio das Artes, de Mário Brandão, 1948-1969, II vols / De Benguella às Terras de Iácca, por Capelo & Ivens, 1881, II vols / De Angola à Contra-costa, idem, 1886, II vols / Ou eu, ou Elles, por António Feliciano de Castilho (opusc. raro), 1849 / Historia da Revolta do Porto de 31 de Janeiro de 1891, de João Chagas & ex-Tenente Coelho, 1901 / A Choldra. Semanário republicano de combate e critica à vida social (raro), 1926, XXI numrs / Manual Político do Cidadão Portuguez, de Trindade Coelho, , 1908 (2ª ed.) / Contemporânea. Revista Mensal (rara revista sob. Dir. José Pacheco), 1922-26, XIII numrs+ nº14 / Diana. Revista de caça, Hipismo e Pesca, 1948-1975, 256 numrs / Guesto Ansures, quadros da vida neo-gothica, pelo Visconde de Figanière, Livraria Ferreira, 1883 / Folheto de Ambas Lisboas (periódico olisiponense raro), nº1 (Junho 1730) a nº 26 (Agosto 1731), XXVI numrs / A Caça no Império Português, por Henrique Galvão et al, s.d., II vols / Inventário Artístico Portugal (Aveiro e Santarém) / Peregrino, de Armando Martins Janeira (homenagem a Wenceslau de Moares – peça de colecção), 1962 / Almanach de Caricaturas para 1874 (e 1875) de Rafael Bordalo Pinheiro, II vols / Portugaliae Monvmenta Cartographica, 1960, VI vols / Presença: folha de Arte e Critica, 1927-28, 54 numrs (rara)

domingo, 9 de setembro de 2007


Eliezer Kamenezky - uma biografia

"... Começa a frequentar a escola aos 6 anos. Desde que é expulso do liceu, passa por vários empregos e vicia-se no jogo. Lê romances de aventura que lhe despertam anseios por outras paragens. Grande desgosto com a morte da mãe e, depois, de um irmão mais novo. Foge, acompanhando um grupo italiano de ópera [I - Abrindo asas / The shaping of my mind]

(...) Vende batatas, trabalha em bares; frequenta a Biblioteca Russa, participa em reuniões do Círculo Socialista. Vive ao sabor das circunstâncias, que o fazem cair na tentação do furto. Em Boston, apanha um barco para Liverpool, onde se hospeda na Pensão dos Judeus. Entra na festa do Sukess. Deseja voltar à Rússia [VI - De Nova York a uma fronteira da Rússia / Good and Evil - reprodução da B.N.]"

[in Ivo de Castro et al, "Eliezer ascenção e queda de um romance pessoano", Revista Da Biblioteca Nacional, nº 1, 1992]

Eliezer Kamenezky

No passado 7 de Setembro, 119 anos atrás em Lugansk (Rússia), nascia Eliezer Kamenezky. Esta personagem curiosa, de vida plena, exuberante e voluptuosa, sempre vivida de rebeldia e sarcasmo - qual cidadão do mundo -, com obra e espólio a merecer atenção, foi especialmente conhecida pela sua ligação ao vate Fernando Pessoa.

De tal modo era a (re)criação e a familiaridade entre os dois que até deu lugar a uma viva polémica (que "morreu" logo à nascença), quando em 1991 um artigo de Luciana Stegagno-Picchio publicado no jornal Repubblica anunciava a descoberta de um romance (em inglês) de Fernando Pessoa, e até então desconhecido entre os pessoanos, com o subtil título de "Eliezer". A putativa descoberta de um inédito de Pessoa foi objecto de tratamento e avaliação pelos membros da equipa pessoana (prof. Ivo Castro e outros investigadores), que depois de analisarem os argumentos, e pelo muito que conheciam de F. P., fizeram gorar tal hipótese.

Afinal, tratava-se não de mais um inédito da arca de Pessoa mas da tradução, feita pelo poeta e amigo, da biografia de Eliezer Kamenezky.

[ver sobre o assunto, Ivo de Castro et al, "Eliezer ascenção e queda de um romance pessoano", Revista Da Biblioteca Nacional, nº 1, 1992]

Livraria Olisipo

Ali em Lisboa, bem ancorada no largo Trindade Coelho e entre a Artes & Letras e a Bizantina, fica a Livraria Olisipo. Peregrinação sempre obrigatória. Agora, para encantamento de todos, está mais próximo do amador de livros, de gravuras ou da simples converseta sobre papéis & outras artes. Mestre José Vicente, muitos anos levados na arte e gosto do livro antigo, iniciou-se via net, com invejável vantagem para nós e vós.

O seu estimado estabelecimento está aqui, para nos servir. Graças!

sábado, 1 de setembro de 2007


In-Libris – Catálogo do mês de Setembro 2007

Saiu o catálogo do mês de Setembro da In-Libris (Porto).

Apresenta peças estimadas de Almeida Garrett, António Osório, António Ramos Rosa, Armindo Rodrigues, Bento Carqueja, E. M. de Melo e Castro, Egito Gonçalves, Eugénio de Andrade, Fernando Echevarria, Fernando Pessoa, Ferreira de Castro, Fiama Hasse Pais Brandão, Hélder de Macedo, Herberto Hélder, Maria Teresa Horta, Mariana Alcoforado, Mário Sá-Carneiro, Vitorino Nemésio e outras obras, como: o Centenário de Gil Vicente, Companhia de Jesus, o Porto na Época dos Almadas, o estimado Diccionario Bibliographico Portuguez de mestre Inocêncio F. Silva, a rara revista Unicórnio & Bicórnio, Tricórnio, Tetracórnio, Pentacórnio (5 numrs), livros sobre Arte, Filosofia, História, Poesia, Teatro, Religião, Monografias várias e um curioso (e raro) "Estudo da Localização do Novo Aeroporto de Lisboa" (do Gabinete do Novo Aeroporto de Lisboa, 1972).

A consultar on line.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007


E.P.C. – um inventário de afectos

"Traz-me a planta que nos transporta
ao lugar onde surgem as douradas transparências
e a vida se evapora como um perfume;
traz-me o girassol enlouquecido de luz
"

[Eugénio Montale, citado por E.P.C. in "Tudo o que não escrevi", Diário I, 1992]

"Se estes versos [os de Montale] me comovem imensamente, é (também) porque através deles imagino, com assustadora nitidez, o meu modo de fazer a travessia da escrita. Nenhum sistema a construir, nenhuma mensagem fundamental para a humanidade (...)

O que fica? Apenas algumas indignações, o meu apego à linha de fronteira, o gosto das demarcações essenciais, meia dúzia de coisas que me importa defender (cada vez mais), algumas palavras ciciadas de ternura e amor, um inventário de afectos. E isto basta ... [E.P.C., idem]

Foto de Daniel Rocha, para a capa do jornal Público de 26 Agosto 2007

quarta-feira, 22 de agosto de 2007


É proibido ter memória!

"Um censor alucinado, maliciosamente alojado no ISCSP e a coberto de um presuntivo iletrismo informático, apagou o valioso e estimado acervo do Centro de Estudos do Pensamento Político (CEPP) laboriosamente lavrado pelo professor José Adelino Maltez.

O lugar (CEPP) que tão bem soube agasalhar um infindável rol de personagens que são pertença da nossa história; esse abundante inventário, ordenado e minuciosamente classificado de homens, mulheres e eventos da nossa memória colectiva; esse conjunto de verbetes únicos sobre o pensamento político português; os valiosos quadros cronológicos facultados; tudo o que era uma fonte de consulta obrigatória para estudiosos, leitores atentos ou simples curiosos, lastimosamente se esfumou da rede. O "reservado", onde tantas e tantas vezes recorremos para trabalhos biográficos ou simples iniciação, foi extraviado.

Essa biblioteca virtual, que com mérito e generosidade o professor José Adelino Maltez construiu e nos honra, sofreu um rude "apagão" às mãos da ignorância, da irresponsabilidade e da arrogância de "mandarinatos universitários" (citando Vital Moreira), que ontem como hoje têm da cultura, do trabalho e do ensino um insaciável desprezo. Que esses fantasiosos académicos, neste país de "muita vergonha", habitem o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) e a Universidade Técnica de Lisboa, surpreende pela sua gratuidade e impressiona. Não sabem dignificar a instituição, revelando, bem à maneira do que diz o vate Pessoa, que a cegueira voluntária é o pior dos atestados e defeitos da vida mental portuguesa. E que é proibido ter memória"

[in Almanaque Republicano]

segunda-feira, 20 de agosto de 2007


Folclore Pornográfico da Figueira da Foz

Reeditado pelo livreiro-antiquário Miguel Carvalho, saiu em edição fac-similada o raríssimo "Folclore Pornográfico da Figueira da Foz", publicado anonimamente em 1914. Esta curiosa peça de conteúdo popular e brejeiro, de costumes, imprecações, superstições e modas do povo da Figueira da Foz, apresenta saborosas quadras, adágios e contos que fazem parte (ainda) do cancioneiro popular humorístico local.

Sob chancela "Debout Sur L'Ouef - De Pé Sobre o Ovo", pertença de Miguel Carvalho, esta edição fac-similada (de 200 exemplares) foi apresentada na centenária livraria figueirense "Casa Havaneza", pelo próprio Miguel Carvalho e pelo professor António Tavares (antigo director do jornal Linha do Oeste), e é vendida pitorescamente (tal como outrora o foi, mas por outros motivos) por "debaixo do balcão", na venerável livraria da Figueira da Foz.

Na altura da sua apresentação, Miguel Carvalho, secundado por António Tavares, sublinhou que "tudo indica que os autores [do livro] serão Cardoso Martha e Augusto Pinto". Referem que terá sido o "Folclore Pornográfico da Figueira da Foz" como que um complemento ao estimado trabalho "Folclore da Figueira da Foz" (datado de 1910), produzido por ambos e editado pela "Tipografia, Livraria e Papelaria Esposendense, Rua Veiga Beirão, 7 a 9, Esposende", no ano de 1911 e 1913 (trata-se de II vols). E devem estar certos.

Na verdade, conhecíamos (via Miguel Carvalho) a obra. Não havia (para nós) referência alguma sobre ela, a não ser a sua presença num catálogo (... de livros raros e curiosos que pertenceram a um Distincto Bibliophilo, à venda na Papelaria Serra & Cª., Rua do Ouro, 72, lote 222, p. 26), onde aparecia juntamente com a citada obra de Marta & Pinto, "Folclore da Figueira da Foz". Surpreendentemente é atribuída ao "Folclore Pornográfico" a sua edição em Esposende (lugar onde foi editado o trabalho primitivo). Trata-se, possivelmente, de um erro do organizador do catálogo, porque na edição na posse de Miguel Carvalho não há referência ao lugar de impressão. Existe, ainda, uma breve alusão ao "Folclore Pornográfico" nos "Subsídios para a bibliografia da história local portuguesa", de António Mesquita de Figueiredo, ed. B.N., 1933 [onde é dito que se trata de um 8º de 16 por 11,5, 25 p., s.l.].

domingo, 19 de agosto de 2007


In-Libris – Especial Monografias

Saiu um catálogo de Monografias pela In-Libris (Porto). Apresenta um conjunto de peças estimadas sobre Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Matosinhos, Felgueiras, Paços de Ferreira, Évora, Porto, Lisboa, Vila da Feira, Oliveira de Azeméis, Póvoa de Lanhoso, Vila Nova de Gaia Aveiro, Covilhã, Santo Tirso, Valongo, Valença do Minho, Melgaço, Algarve, Minho, Trás-os-Montes, Alentejo, Beiras, Açores e Madeira, entre outras de carácter regional.

A consultar on line.

Diário de Um Quiosque

A Figueira da Foz tem um respeitável número de blogs, que animam a vida dos indígenas locais. Não é possível conhecer a agitação política e social figueirense sem acompanhar a vitalidade e as iniciativas de alguns dos seus blogs. Numa terra onde os seus paroquianos estremecem de cultura, sem a compreender e praticar, fica bem registar a "movida" bloguística local.

No Jornal de Noticias d'hoje, pela pena de José Luís de Sousa, ficámos a conhecer o curioso blog "Diário de Um Quiosque", onde se narra as (des)aventuras de "um espaço de seis metros quadrados" com ledores fidelíssimos. Sereno, junto ao monumento a Fernandes Tomás na Praça 8 de Maio, Pedro Silva, ardina por paixão, não está de sentinela aos seus leitores mas com prazer e estima consulta-os. Que o "comércio" intelectual e o gozo da escrita assim o exigem. E a Figueira agradece.

Seu Eugénio Dutra Jr.

O amor e o gosto ao livro têm na Papiro marca pessoal. Habitualmente os seus visitantes e clientes sabem-no. Seu Eugénio – ali, em cima, sorrindo-nos – tem o hábito de satisfazer as manias dos bibliófilos ou de simples curiosos do papel escrito.

Inteligente e de muita simpatia, Seu Eugénio, fala sobre a literatura e arte brasileira, enquanto, com visível satisfação, comenta obras de Camilo, Eça, Saramago ou Vitorino Nemésio. Leitor compulsivo, o que é raro nesse negócio dos livros, tem o entusiasmo de um amador de livros, revelando no trato a proverbial alma do povo da Bahia, que aliás conhece bem.

Axé!

Sebos da Bahia - Livraria Papiro

Fica perto da estação da Lapa, em Salvador da Bahia. Na Av. Vale do Tororó, 28, um sebo bem curioso que nos deixa recordações carinhosas. Com um acervo farto, que vai da literatura à história, da arte ao livro jurídico, económico e didáctico, o sebo sitiado perto da Lapa, é local de peregrinação obrigatória. Há sebos assim: hospitaleiros, generosos e vivos, porque respiram a memória dos livros. A visitar.