domingo, 19 de dezembro de 2004


Prémio Pessoa 2004 - Mário Cláudio

"... Um nevoeiro puríssimo desce sobre os bosques da madalena, torna infinitos os espelhos, derrete neles os fios do esplendor da tarde, e logo as redes se lançam, ficam por instantes suspensas até que as engole o ventre líquido. São os vapores que respiram ofegantes em sua rota, com uma multidão heteróclita de passageiros, onde causa escândalo certa dama coberta de flores e plumas, na companhia de seus dois periquitos, três gansos canadianos, quatro peixes doirados, um macaco e um par de criados. E os grumetes ficam-se a olhá-la um pouco de revés, dela se afastam os frades e os beleguins e a rapariga olheirenta embrulhada num xaile, que arrasta uma história passional e foge à sanha dos burgueses. Exportam-se os produtos da terra, e na alma deles se retém uma saudade de sangue e de suor, o espectro morno do amor que os fez nascer e crescer e serem separados do seio original onde se conceberam ..."

[Mário Cláudio, in Das Torres ao Mar, O Oiro do Dia, 1983]

Prémio EDP 2004, Artes Plásticas - Álvaro Lapa

'... carácter de «últimas» vontades, de última-vontade, de vontade extrema, tensa, sobreavisada, que tornam as obras para o futuro (=doravante). A obra como sinal premonitório, a imaginação como actividade receptiva (seu carácter dominante), captadora do sinal-mensagem «que vem do futuro»: uma gigantesca central-receptora, a imaginação da «arte moderna». Trata-se de preservar o essencial - donde as minha «legendas proféticas», as minhas «caixas-relicário-pessoal», as minhas «alegorias», os meus «cânones», os meus «dogmas», os meus «abrigos», os meus «auto-auto-retratos», os meus «estímulos», os meus «flagrantes eróticos» ...'

[Álvaro Lapa, in Raso como o Chão, Estampa, 1977]

sábado, 18 de dezembro de 2004



Antonio Stradivari [m. 18 Dezembro 1737]

Locais: Antonio Stradivari. His Life and Work (1644-1737) / Antonio Stradivari / Antonio Stradivari / Sonatas Barrocas

[Livros & Arrumações]

Temos da "Annona ou mixto-curioso folheto semanal que ensina o methodo de cosinha e copa, com um artigo de Recreação", Lisboa, Imprensa de C. A. S. Carvalho, fim da Calçada do Garcia nº 42, nº 1 ao nº 36, 1836-1837, curiosas observações e dizeres vários. Algumas anotações:

"Doce - Manjar branco de peros. Ponham-se a coser em meia canada de leite meia dusia de peros grandes, limpos, apurados, e sem pevide, estando meio cosidos, deitem-se em um tacho, desfasem-se com a colher, e deitam-se-lhe duas canadas de leite, dois arrateis de assucar, e um arrátel de farinha de arroz, ponham-se a coser; e em quanto se cosem, refrescam-se com meia camada de leite, deitando-se-lhe pouco a pouco, e depois de cosido, deita-se-lhe agua de flor, tira-se do lume, e põe-se nos pratos" [nº20]

"Detalhes sobre a vida de Milton - Milton levantava-se da cama às quatro horas da manha no verão, e as cinco no Inverno. Trazia sempre uma borjaca de pano ordinário de mescla, estudava até ao meio dia, jantava frugalmente, e dava o seu passeio com o seu conductor, cantava pela tarde, tocando qualquer instrumento, conhecia as regras da harmonia, e tinha uma voz agradável. Sabia a arte da esgrima. E quem ler com attenção o seu Paraíso Perdido, verá que amava apaixonadamente a musica, e o cheiro das flores; ceava cinco, ou seis azeitonas, e uma pouca de agua, deitava-se às nove horas da noute, e alli compunha algumas obras; quando compunha alguns versos, repetia-os a sua mulher, ou a seus filhos; em dias de sol, sentava-se em um banco à sua porta ..." [idem]

"Poesia - Dois sujeitos, e ambos muito feios, andavam continuamente motejando-se um ao outro; um deles entrando certo dia no quarto do outro, a tempo que este fazia a barba, com grande trejeitos, que ainda o tornavam mais horrendo, lhe improvisou o seguinte soneto

"Boca, e mais boca de letrinea casta!
Penca, e mais penca té ao cu descida;
Horrenda, e sempre eterna prosseguida,
Carranca enorme a quem eu cedo, e basta!

Mal haja o sabonete que se gasta,
Em lavar-se essa tez ennegrecida;
Mal haja essa navalha envillecida,
Que a barba hirsuta do cartão te affasta!

Oh! quem pudera da fealdade excesso.
Arrumar-te em logar de banho morno,
Dois peidos nessas ventas d?arremesso:

Oh! quem te dera para teu adorno,
Por agua escarros, por espelho o cesso,
Por sabão merda, e por navalha um corno.
" [nº 21]


The most beautiful sleeves of 2004

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004


Olavo Bilac [n. 16 Dezembro de 1865-1918]

"Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
- Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
- Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
- Mais abaixo, meu bem! - disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci..."

[Delírio, por Olavo Bilac]

Locais: Biografia / Olavo Bilac / O. Bilac / Poesia / Bilac / Aviso aos pais ou Bilac Erótico

Geração Rasca

Os episódios políticos, a crise laudatória e a cacofonia destes dias não têm nada de empolgante, nem de virtuoso. A estratégia política foi há muito exumada e nem a língua de trapos, destas semanas, pode servir de paródia a quem quer que seja. Os disparates em série de um conjunto de homenzinhos da classe política, et pour cause seguido de chacota bem humorada, evidencia o que muitos referem sem mistério: estamos perante uma classe política rasca, que sem se saber porquê veste a farda da governação e usurpa o poder. Não há memória de tamanha obscenidade. Custa acreditar em tão desabridos acontecimentos.

A singular arribação destes novíssimos gestores governamentais tem de ter alguma explicação sob pena de estarmos decisivamente condenados. Sabia-se que a invasão do aparelho político era prometedor para quem tem da administração a vaidade de subir de vida, sem aborrecimento pelo trabalho, com um perfil e preparação técnica tacanha e grotesca, sem esforço intelectual ou ético visível. Sabia-se que quase todos lá chegam, unicamente, via benesses político-partidárias. Mas ninguém pensou, decerto, que estávamos a assistir à sua massificação, no meio de uma algazarra extravagante e perturbadora.

O desaire do exercício presidencial do dr. Sampaio; a declaração conjunta de Lopes & Portas em bom estilo pimba, embuçados em juras d'amor até ao espinote final daqui a dias; as atabalhoadas e vergonhosas afirmações do santanista Paulo Pereira Coelho, em excelente prosápia do que foi a atmosfera destes anos de jogos florais em terras figueirenses; as fantasias desafinadas de Bagão Feliz quanto ao deficit, aos agentes financeiros e ao pessoal indígena; as maquinações condimentadas de Morais Sarmento; as lamúrias improvisadas de Dias Loureiro; as tiradas vazias e torpes do afadistado Pires de Lima Filho ou as cogitações de Nuno Thomaz; são apenas a ponta do iceberg. Porque o aparecimento deste rebanho de novos políticos na pista governamental é o mais singular testemunho do desastre nacional. E que irá perdurar por tempos intermináveis. Como alguém já disse, "a ignorância é muito atrevida". O abismo aí está.
[Dezembro]

"O entendimento foi concebido de molde a guiar o coração; desgraçadamente, tanto neste mês como nos seguintes, os homens deixar-se hão arrastar pelo sentimento, cavalo fogoso e sem vista.
É costume cada um gravar as injúrias em bronze e os benefícios e finezas na areia ou na onde fugidia. As belas almas têm uma só lápide: a das boas obras recebidas.
Há povos infortunados hoje, ora e sempre. São os que fazem depender a fé e suas acções resultantes da decisão dos homens (...)
A ambição é um golfo em que só há escolhos e penas. Àqueles que se mantenham no cairel, os aplausos do mundo fá-los hão esquecer que podem escorregar ... e escorregam (...)"

[Cavaleiro de Oliveira, in Recreação Periódica, vol II, 1922]


Philip K. Dick [n. 16 Dezembro 1928-1982]

terça-feira, 14 de dezembro de 2004

[Amôre]

"O Amôre, graça de mau gosto,
muitas vezes na boca, sempre no sentimento,
veio, trota trotando, ter comigo.

Trazia a língua de fora, tropeçava nela,
fazia-se cansado, era apenas piegas.

Por que volta a bestiúncula
a rondar-me o terreiro?

É camaradagem
ou aragem de cama?

Desapossados é que estamos livres para caminhar."

[Alexandre O'Neill]

Bom dia Jane. Faço ideia do alvoroço que vai por aí. Uma Avé Maria por cada olhar, um pecadilho por ouvido. O ideal seria cantares sob protecção divina. O fruto ainda não caiu ... de vez.

Naquele tempo "uma mulher passou quando eu dormia ou acordava" [H.H.]. Não sei bem. Ter apenas memória que a vida es sueno. Feliz aniversário.


[DOWNLOADS]

The Clash - Discography [via KingBlind]

Meus senhores é entrar e downloadar para afastar o tédio aqui na lusa Pátria acanhada à espera de toda essa gente coligada que o Bettencourt já botou faladura o Delgado cultiva ideias ad-curativas e o sismo Lopes pode ocorrer que ninguém consegue escapar ao destino nem à pachorra destas noites sem entrarmos em alvoroço poético. Vivam as brigadas Clash recauchutadas. Tenha um bom dia.

"Ninguém entra em pânico / Todos se prostituem / e tudo canta minha gente / por dentro do gaiolame / Os modelos morais cobrem os muros / ... / A rádio diz-me o que devo dizer / a rádio os jornais e a televisão todos mo dizem / ... / E como é pá pra veres o teu tempo interior / na TV? / ..." [Ninguém entra em pânico, The Clash, in Pravda nº1, 1982]

segunda-feira, 13 de dezembro de 2004


Heinrich Heine [n. 13 Dezembro 1797 - 1856]

"Põe sempre os nomes aos bois
Nas histórias que contares.
Ou logo os burros depois
Se queixam de os retratares:
«Mas são as minhas orelhas!
Este azurrar é o meu!
Se estas são minhas guedelhas!
Ai este burro sou eu!
Nâo me nomeie ele embora,
Toda a Pátria vai agora
Saber-me por burro, hin-hã!
Ai que eu, hin-hã, hin-hã!»
- Quiseste a um burro poupar
Logo doze hão-de zurrar."

[Heinrich Heine, in Bom Conselho, trad. Jorge de Sena]
Futebol - Reservado o direito de admissão

"Quando nasci já trazia um «deficit» de dois whiskies" [Charles Montague]

Toda a idade tem beleza. O SLB («Glorioso» para os fidalgos da bola) tem um século respeitável, um encanto opulento. Qualquer manifestação de retórica rústica, com atropelos à civilidade e à etiqueta, é um desperdício de trabalho. Assim se obram compêndios para cidadãos. Álbuns de glórias. Para que conste.

Porém, a garden-party do Restelo foi um quieto jogo para desenganos dos néscios. Estamos numa canseira bizarra. Os nossos nem num pastel de Belém se chegam à frente. Os modos finos e adamados desta equipa de Vieira & Veiga, Lda são uma curiosa demência histórica. Aquela equipa de mendigos extenuados, saltitando em alegre rincharia sobre a relva, babando-se à perfídia dos cavaleiros de Cristo, é uma afronta.

As massas desditosas queriam castigar uns pastéis de Bélem. Saiu-lhes um vulgar jesuíta. Ninguém nos convence que não há mão Presidencial nisto tudo.

[PS: Ao que parece, ninguém esclareceu o respeitável público qual a equipa que perdeu aos penaltys com aqueloutra das Antas. Está mal! Depois de não se saber o que sucedeu de Segunda para Terça-feira passada em Bélem, era o que faltava que, agora, nem uma simples informação se dê sobre essa notável equipa que perdeu, algures no Japão. A ignorância nunca é de louvar. Seja como for, aplaudimos aquele rapaz de nome Maniche, outrora muito honrado, nas Antas, com interjeições à moda da Ribeira quando vestia o fato de gala do Benfica. Bem-haja.]