sábado, 27 de dezembro de 2003

ASSOCIAÇÕES DE COIMBRA (XIV)


* Alta Venda (1848) - O Conimbricense (18 de Julho de 1905) refere que "o General Joaquim Pereira Marinho, tendo recebido do estrangeiro autorização para poder estabelecer a Carbonária em Portugal, delegou poderes, em relação a Coimbra, no sr. Padre António de Jesus Maria da Costa (B. P. Ganganelli), para poder levantar choças em toda a parte onde julgasse conveniente regularizá-las, dirigi-las, uniformizá-las e relacioná-las entre si". Segundo os Estatutos da Carbonária Lusitana, existia três Câmaras: Alta Venda (Vendicta Coinimbricense), Barracas e Choças. O artgº 1º dos Estatutos rezava assim: «A Sociedade Carbonária é uma Ordem philantrophica, que tem por fim manter a verdadeira liberdade do paiz e o socorro mutuo dos seus consócios».

Em Coimbra, a 29 de Maio de 1848, deu-se inicio à Carbonária Lusitana, sendo eleito Sup. Cons. da Alta Venda, o referido Padre António Maria da Costa. A sua primeira reunião foi na Rua da Ilha. Além da Alta Venda, instalaram-se as Barracas: Egualdade e União; e as Choças, 16 de Maio (depois Segredo) e Fraternidade e Liberdade. Alguns dos carbonários iniciados foram, entre muitos: Abílio de Sá Roque (Robespierre), Adelino António das Neves e Mello (Napoleão), dr. António José Rodrigues Vidal (Odorico), dr. António Luiz de Sousa H. Secco (Cicoso), António Marciano de Azevedo (Sidney), Cassiano Tavares Cabral (Nuno Alvares Pereira), dr. Francisco Fernandes da Costa (Timon 2), João Gaspar Coelho (Archimedes), dr. João Lopes de Moraes (Dupont), José António dos Santos Neves Dória (Huffland), José de Gouveia Lucena Almeida Beltrão (Lamartine), dr. Raymundo Venâncio Rodrigues (Washington), etc. Aconteceu que em Outubro de 1848, reuniu-se a Alta Venda, na Quinta de Coselhas do Padre Maria da Costa, para eleições, tendo sido eleito Sup. Cons. o dr. Francisco Fernandes da Costa. Sucede que ficando "despeitado" o Padre Maria da Costa, entendeu guardar o livro da matricula e todos os documentos relativos à Carbonária, apesar dos esforços feitos para a entrega dos documentos, pelo que foi riscado do quadro da Ordem. Pelo que diz o Conimbricense, chegou a contar a Carbonária à volta de 500 membros, quase todos armados, dado até uma das condições de adesão à Ordem, ser "possuir os carbonários ocultamente uma arma com competente cadastro". [in, Conimbricense, 1905]

* Barraca Egualdade (1848) - Tinha por presidente o dr. António Rodrigues Vidal; secretário Joaquim Martins de Carvalho (B. P. Ledru Rollin) e por tesoureiro, o dr. José Gomes Ribeiro. A legenda desta Barraca era: Eripuit coelo fulmen sceptrumque tyrannus. Reuniam-se em diferentes locais e até uma noite se fez a reunião no Jardim Botânico, na casa da aula de Botânica, pegada à Estufa. [ibidem]

* Barraca União (1848) - Subordinada à Alta Venda, era presidida por Abílio Roque de Sá Barreto. [ibidem]

segunda-feira, 22 de dezembro de 2003

DEO GRACIAS



O Almocreve vai de saída. Após salutar descanso e pequenos trabalhos, espera vir mais prendado para fazer mandas aos profanos. Deo Gratias.

Felicidade e Boas Festas

"TEMOS AGORA UMA OUTRA ETERNIDADE..."



















"Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou ..."

[Fernando Pessoa]

domingo, 21 de dezembro de 2003

"DAS PETAS O ALMOCREVE ..."





















"Das Petas o Almocreve é obra tua.
Bem se vê, Daniel, na frase e gosto:
Adiça três de Abril ou seis de Agosto,
É de quem vende rimas pela rua..."

[Bocage, numa "farpa" a José Daniel Rodrigues da Costa, autor do Almocreve das Petas]

BARBOSA DU BOCAGE (MANUEL MARIA) [1765-1805]




Morre a 21 de Dezembro de 1805

"Quando completamos atentamente o retrato de Bocage (...) em que as feições estão vigorosamente acusadas: quando reparamos na testa espaçosa, em que a luz do estro parece circular ainda, e nos olhos azuis e rasgados, que tanto deviam cintilar quando a inspiração baixava, revela-se-nos o carácter do poeta e a índole do seu engenho, pelo exame de reflexão (...) Pela pálida tristeza das faces percebemos que o homem foi pouco ditoso: que o vate estremeceu com as sensações do orgulho e dos triunfos, e que, não se embriagando com as seduções das honras e da opulência, pagou o tributo que em todos os tempos tornou cruel ao génio a sua glória, embora o console depois a crença na justiça da posteridade (...)

Magro e trigueiro, de estatura mediana e curva, o corpo parecia pesado de mais para as extremidades: mas nesta constituição defeituosa havia contudo o que quer que fosse que o não deixava confundir. Os cabelos compridos desalinhados e o movimento maquinal dos dedos, aumentando-lhe a miúdo a desordem, eram outra feição natural dele. O sorriso pouco acudia a animar-lhe as faces macilentas. Melancólico até no meio das cenas de maior alegria, ainda conservava a tristeza no rosto e já o delírio tripudiava em torrentes de versos picantes e maliciosos."

[Luís A. Rebelo da Silva, in Memoria Biográfica e Literária acerca de Manuel Maria Barbosa du Bocage e ...]


"Magro, de olhos azues, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste da facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir n'um só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura,
De zelos infernaes lethal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) n'um só momento,
E sómente no altar amando os frades,

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Sahiram d'ele mesmo estas verdades
N'um dia em que se achou mais pachorrento.

[Bocage, Retrato Próprio, In Sonetos, 1915]

ASSOCIAÇÕES DE COIMBRA (XIII)


* Loja Philadelphia (1844) - O Conimbricense refere que a partir da revolução de 8 de Março de 1844, houve perseguição feroz contra ao mentores do partido progressista. Este partido entendeu criar um jornal para reagir às "prepotência da autoridade", tendo sido estabelecida a respectiva imprensa na Rua de Coruche, hoje Visconde da Luz, no edifício da Misericórdia, e a publicação saiu a 9 de Julho. Ora, em Junho estava instalada no mesmo edifício a Loja Philadelphia, de onde provinha a direcção do jornal. Coube a José de Castro Freire a incumbência de instalar a Loja em Coimbra. Pertenciam à Loja Maçónica, entre muitos, o Venerável, Dr. Agostinho de Moraes Pinto de Almeida (Ir. Sócrates), António José Duarte Nazareth (Ir. Camillo Desmoulins), Dr. António Luiz de Sousa Henriques Secco (Ir. Viriato), António Augusto Teixeira de Vasconcellos (Ir. O’Connell) e que era o orador, Padre António de Jesus Maria da Costa (Ir. Sieyés) como tesoureiro, Francisco Henriques de Sousa Secco (Ir. Giraldo), José Maria Dias Videira, Manoel Joaquim de Quintella Emauz, Dr. Joaquim Augusto Simões de Carvalho (Ir. Danton), Dr. Joaquim Júlio Pereira de Carvalho (Ir. Condorcet), Dr. José Teixeira de Queiroz (Ir. Aristides), Luiz Parada da Silva Leitão, José Henriques Secco de Sousa e Albuquerque (Ir. Diógenes), J. F. Mendonça Castello Branco (Ir. Washington), Abílio Roque de Sá Barreto (Ir. Lafayette), etc. Refira-se que o jornal se publicou até 24 de Setembro, dia em que foi suspenso pelas autoridades, tendo-se mudado para outra casa e sido retirados os objectos da Loja, levando-os para a Quinta que o Padre António de Jesus Maria da Costa tinha em Coselhas. As reuniões da Loja faziam-se em casa do Padre António, em Coimbra, na Calçada, hoje Rua Ferreira Borges, com entrada pelo Arco de Almedina. [in, Conimbricense, 1905]

* Associação Nova Especulação (1845) [ibidem]

* Sociedade do Theatro do Pateo da Inquisição (1846) [ibidem]

* Sociedade do Theatro da Rua do Norte (1847) [ibidem]

* Assembleia Académica de Coimbra (1848) – Antes Assembleia Philarmónica de Coimbra [ibidem]

* Assembleia Philarmónica de Coimbra (1848) – Pequeno teatro na Rua do Norte, pertencente ao Cabido. Como o espaço era demasiado pequeno, fundou-se outro no celeiro do mesmo Cabido à Sé Velha. Mais tarde conseguiram obter o espaço da Igreja de S. Cristóvão. [ibidem]

sábado, 20 de dezembro de 2003

"É TÃO DIFÍCIL ..."



É tão difícil guardar um rio
Sobretudo quando ele corre
dentro de nós

[Jorge de Sousa Braga, O Guarda-Rios]

ASSOCIAÇÕES DE COIMBRA (XII)


 
* Loja Segredo (1843) - O Conimbricense refere, que no ano lectivo de 1983/84, Luiz Carlos Pereira, estudante do 3º ano de Direito, fundou em Coimbra, uma Loja Maçónica, a que foi dado o nome de Segredo e de que ele foi Venerável. As reuniões faziam-se na primeira casa no princípio da Rua das Fangas, depois Fernandes Thomaz. A Loja estava arredada completamente da política e funcionava como apoio a estudantes e pessoas "que se achassem desvalidas". Quase todos os Ir. eram académicos, e habitantes da cidade eram apenas três. O litografo Luiz Augusto de Parada e Silva Leitão, foi quem abriu o selo da Loja e quem litografou em cetim branco os diplomas dos Ir.. A revolução de 8 de Março de 1844 fez terminar a Loja. [in, Conimbricense, 1905]


* Sociedade de Alegre Viver (1844) – Foi fundada por quatro rapazes, todos estudantes: António Fernandes Thomaz (direito), Jacintho Alberto Pereira de Carvalho (medecina), José Adolpho Trony (direito e lente, posteriormente), José Maurício de Carvalho (direito e teologia), Ricardo José Pimentel Baptista, José Ildefonso Pereira Carvalho, Daniel da Veiga Saraiva e Augusto Ernesto de Castilho e Mello. [ibidem]

* Assemblea Philarmonica de Coimbra (1844) [ibidem]

* Caixa Económica de Coimbra (1844) [ibidem]

CATÁLOGO Nº17 DE LUÍS P. BURNAY


Saiu o Catálogo nº 17, de Luís Burnay, Calçada do Combro, 43-47, Lisboa, com algumas curiosidades e obras estimadas.

Algumas referências: Nobiliário de Famílias de Portugal, por Felgueiras Gaio, Braga, 1938-42, de 13 vols (raro) / Terra Portuguesa, Revista ilustrada de Arqueologia artística e etnográfica, dir. Vergílio Correia, 1916-27, 7 vols / Poesias de Manuel Maria de Barbosa du Bocage, 1853, 6 vols / Actas das Sessões da Câmara dos Deputados na 1º legislatura depois da promulgação da Constituição Politica da Monarchia Portugueza, 1939 / Almanak Portuguez para 1852, s/ direcção de M. M. de S. Bruschy, 1851 (raro) / As Orações a Israel, de Moses Bensabat Amzalak, 1927 / Arquivo do Distrito de Aveiro: Índice Alfabético dos Autores, Aveiro, 1992 / Israel: notas várias, por Adolfo Benarus, Lisboa, 1924 (curioso censo da população judia espalhada pelo mundo, historia, tradições e espírito do judaísmo) / Boletim Oficial do Grande Oriente Lusitano – Supremo Conselho da Maçonaria Portugueza, Nov. 1906 / Vários opúsculos sobre a polémica Bom Senso e Bom Gosto / Tratado da Agrimensura, no qual se propõe o Preciso para hum medidor de campos, de Cabral Estêvão, 1795 (raro) / Discurso pronunciado na Câmara Electiva em sessão de 23 de Março de 1850 sobre o projecto de Lei repressivo dos abusos de Liberdade de Imprensa pelo Presidente de Legislação ... José Bernardo da Silva Cabral, Lisboa, 1850 (raro) / A Questão Académica de 1907, por Natália Correia / Topónimos e Gentílicos, de I. Xavier Fernandes, Porto, 1941, II vols / A Rebolação: resposta ao folheto "A Reacção" do sr. Brito Camacho, por Frey Gil (aliás pseud. de Artur Bívar), 1932 (raro) / Grande Oriente Lusitano Unido – Supremo Conselho da Maçonaria Portugueza: Rito Escocês Antigo e Aceito para Portugal e Colónias, 1920 / Alma Errante, poesia de Eliezer Kamenezly, c/ pref. de Fernando Pessoa, 1932 / A Bomba Explosiva: depoimentos de diversos revolucionários (28 de Jan. 1908 a 5 Outubro 1910), por José Maria Nunes, 1912 (rara obra sobre os movimentos revolucionários) / Exordio em prol da filantropia & educação física (paginas desconhecidas), por Fernando Pessoa, Porto, Edição Petrus / Vinho de Pasto, por Batalha Reis (vinicultura), 1894 / Ritual do Gr. de Ap. do Rito Francez ou Moderno, GOLU, 1909 / O Couto de Aguim: subsídios para a sua historia, Anadia, 1959 (monografia estimada) / Escriptos Diversos, por Augusto Filipe Simões, Coimbra, 1888

sexta-feira, 19 de dezembro de 2003

ALEXANDRE O'NEILL [1924-1986]






















Nasce em Lisboa, a 19 de Dezembro de 1924

"O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angustia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omite-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada …)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse ..."

[Alexandre O'Neill, Auto-Retrato]

OS FILHOS DO "DELGADO"



"Cada gota de saliva que se liberta da conversação transforma-se em ouro" [Tristan Tzara]

Vão, rapazes! Que está o Luís Delgado na T.V. a esclarecer os indígenas lusitanos. Reparai na boca fina e piedosa do comentarista, mesmo quando o esgar urbano e respeitável o martiriza e o traço maledicente se manifesta. Estais de orelhas atentas, sabemos bem. Vós, a quem a felonia nunca incomodou, pois tendes razões secretas que a recita conservadora vos enterneceu e a gravidade democrática vos perturba, estais esta semana excessivamente sentimental. O Delgado, entre o tédio do défice e o riso ministerial, fez-vos partir à desfilada contra os fantasmas costumeiros. Espevitem bem as orelhas que o Bolo-Rei, desta semana, saiu no Iraque. Estava alapado numa toca qualquer, algures, no assombroso triângulo sunita. O mesmo onde vocês, bravos combatentes de sofá, outrora caminharam civilizacionalmente contra os tenebrosos xiitas, os infames curdos, os demónios iranianos, os pérfidos comunistas iraquianos. Com a mão no peito pela Humanidade, com a América por generosidade, pela Europa por determinação, por todos nós. Graças Senhor nessa Santa Hora. E graças, ainda, pelo Bolo-Rei oferta Bush para todos os guerreiros da imaculada cruzada neoconservadora, nesta quadra natalícia. Abri os vossos portáteis e postai.

Postai até que o torpor da volúpia, as comoções da vertigem do fim-de-semana, o espectro daquele homem-de-barbas vos ensine que "sobre o mais belo trono do mundo nunca se sentou senão um rabo" [bem nos dizia Montaigne].

ASSOCIAÇÕES DE COIMBRA (XI)



* Loja Restauração (1842) - O Conimbricense refere, que posteriormente à restauração da Carta Constitucional, em 27 de Janeiro de 1842, a maçonaria em Coimbra representante do partido Cartista, "viu-se triunfante, tendo por si o apoio do governo". Ora o administrador geral do distrito, José Maria Cardoso Castello Branco foi substituído pelo Visconde da Graciosa, e posteriormente, por decreto de 8 de Outubro, foi nomeado Governador Civil, António de Oliveira Lopes Branco.

Diz o Conimbricense que uma das coisas que teve em vista foi reorganizar a maçonaria na cidade e em todo o distrito, lançando mão nos elementos da Loja maçónica do Arco da Almedina, fundando uma outra. Assim, foi na casa onde outrora foi refeitório dos frades (no Claustro do Pilar) de Santa Cruz que se estabeleceu a Loja Restauração, nº 27 ao Or. de Coimbra. Pertenciam um grande número de pessoas, não só da cidade, mas quase todos os administradores do concelho e do distrito, párocos e regedores. É referido uma ocasião onde foi iniciado um "cavalheiro do concelho de Anadia", em que estava presentes 150 Ir., vindos dos diferentes concelhos, seguido de um "magnifico banquete". C

Como Lopes Branco foi eleito deputado, pelo colégio eleitoral do Douro, ficou Venerável da Loja, José António de Amorim. Curiosamente, o deputado Lopes Branco tendo passado da maioria para a oposição, dirigiu de Lisboa para Coimbra, e à Loja Restauração, uma prancha com "o fim de a fazer passar para a oposição". Após reunião, a Loja deliberou que como Lopes Branco não a tinha consultado para passar para a oposição, esta não se obrigava a segui-lo na sua carreira política. Depois da remessa da prancha da Loja para Lopes Branco, este aparece em Coimbra anunciando a necessidade de convocação da Loja. Sabedores de tal facto, vários elementos da Loja dirigiram-se à casa da Loja, desmancharam tudo e fizeram "abater colunas", impossibilitando Lopes Branco de fazer a projectada reunião. Desde então a Loja nunca mais funcionou. [in, Conimbricense, 1905]

* Sociedade de Socorros Mútuos (1843) [ibidem]

* Sociedade Philarmonica Conimbricense (1843) [ibidem]

quinta-feira, 18 de dezembro de 2003

ROBERT BRESSON [1901-1999]



Morre a 18 de Dezembro de 1999

"Filmar é compreender, mas compreender não no sentido de explicar ... No sentido de amar, de provar" [RB]

"La cinématographie est une écriture en mouvement avec des images et des sons. Si l'on tient à trouver une analogie, il faut chercher du côté de la musique et non du côté de la peinture car on aboutirait à la carte postale." [RB, in Le Figaro - 6 Mai 1983]


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"LAICIDADE" E "FÁBRICA DE VÉUS"





"O corpo desenha o espaço como a água desenha o vaso" [El-Hakim]

A posta de André Belo, pelos considerandos aí referidos, sobre o comprometimento do Estado na defesa da laicidade da Escola, sugere curtas anotações, a saber:

- é possível que a noção de "laicidade", lugar central no discurso mass-mediático francês, seja objecto cientificamente re-analisável, no seguimento do que Edgar Morin assume pelo aparente contraditório entre "laicidade", "doutrinarismo" e "democracia". É, porém, razoável que no termo "laicidade" se encontre lugar para uma pratica contra o totalitarismo, o dogmatismo ou o monopolitismo da verdade. Como conciliar, tudo isso, no território e cultura escolar, aberto e plural, eis a questão que André Belo questiona.

- o espaço escolar é atravessado, sabe-se, por processos sociais, políticos e simbólicos que se ramificam no campo discursivo do poder. Isto é, a Escola é encruzilhada de diferentes discursos verbais e não verbais, "mercado" alucinante de signos-mercadorias, afloração de saberes, ambiente de aprendizagem activa, lugar de escolha e clarificação de valores e comportamentos, espaço privilegiado da produção e reprodução social. Estamos disso crentes. Assim entendida, sabemos que a Escola se estrutura a partir de regras formais (além de outras), dando lugar a um "locus de reprodução e produção normativa", consubstanciada numa cultura de identidade assente em realidades não homogéneas (evidentemente), mesmo que a dissidência seja esse espaço de cumplicidade ou percurso de todos os afectos e seduções.

- o espírito da "laicidade" pretende, a partir de um conjunto de regras comuns mínimas, estabelecer um espaço "conversável" no tecido escolar, afinal garantia de liberdade, e portanto, um espaço "protegido" pelo Estado, para além do direito à diferença que na esfera privada se reconhece. Não se trata de dar lugar a um qualquer guetto, mas tão só assumir que a "laicidade" contribui para a nossa liberdade, até pelo sentido que, se se permitisse que as regras fossem estabelecidas pelo diversos clientes escolares porquê então a aprendizagem? Que lugar do pedagógico como "trabalho" de compreensão e aceitação da diversidade e do multiculturalismo?