quarta-feira, 6 de julho de 2011

COELHO DESMASCARADO OU LETREIROS DO CATECISMO NEOLIBERAL


"Coelho – Ingénuo dos matos" [in Dicionário João Fernandes, 1878]

O raminho de adesivos, devotos da superstição liberal, que levita na obscura governação (!?) do sr. Passos Coelho, teve hoje, para lá da minúcias costumeiras, um dia de copiosa erudição doméstica. A paróquia, escoltando o comboio lusitano do default posto a correr pela santa Moodys, pasmou nas redobradas unções desses cavalheiros. O downgrade do rating da República anunciada repesou o discurso patriótico. O representório é farto e variado. Ninguém ficou de fora na caprichosa polémica sobre as agências de rating.

O indigenato, desde o conspícuo dr. Cantigas ao invulgar guarda-portão Durão Barroso e do ignorante zelador Zé Manel Fernandes (leia-se este anedotário económico) ao sábio vigário João Miranda, a fazer fé nos suspiros & pronunciamentos acasalados, soprou (prenhe de graça neoliberal) autorizadas explicações e demais "traficâncias dos áulicos". O sr. Passos Coelho confessa que levou com "um murro no estômago". Gasparzinho, orador das Finanças, assegura que a Moddys "ignora" os paliativos que se está a praticar. O nosso admirável raminho de banqueiros defende que se deve "romper com as agencias de rating". Álvaro, professo da tradição coimbrã, prepara, desde já, a venda da ilha Madeira aos chineses. O lavrador Portas espera um milagre bíblico: já telefonou a Bush. Frau Merkel, de resto clássico, discorda das manhas da Moddys. A dra Manuela Ferreira Leite, imperturbada no seu mausoléu partidário, ignora (agora) o sinal da Moddys de falta de confiança no Governo. E Sócrates, no segredo inviolável do exílio, dizem que sorri grávido como um filósofo. De facto, o país (e a Europa) virou uma coelheira, nestes dias.

Os amadores da coisa económica são, portanto, na opinião e autoridade intelectual, uma agremiação curiosa. E acordam sempre muito tarde, decerto por dever de ofício ideológico. O dr. Cavaco (por exemplo), num curioso diseur (Memorabilia Cavacus dicta), assegura "não haver a mínima justificação para que o rating de longo prazo de Portugal tenha sofrido tal corte" e, num decerto malfalante linguado, "congratula-se com a condenação da atitude da agência de notação financeira Moodys por parte da União Europeia". Que cacofonia. Que desatino. Ora que maçada! Lembra-nos sempre essa deliciosa paródia da primeira aula de Finanças Públicas do ano, tricotada pelo lente Cavaco Silva, quando anunciava (enternecido) a estatística dos chumbos do ano anterior. Mas não durou muito o rating cavaquista. Perante a recusa às aulas dos "clientes" assim escruciados, lá teve de caminhar o lente para terras de York. Admirável resposta! Acautelai-vos Ó Moddys.

E - pasme o leitor(a) pelo nosso testemunho - afinal em que ficamos? Continuamos nesta tresvairada (des)construção da União Europeia, sem lustre nem grandeza, vacilantes nos passos a dar, sem comandante nem barco, sem gente de respeito? Acaso o sr. Trichet (ou o servo Constâncio), distinto empregado do BCE, tem utilidade, visão ou rasgo para o lugar que (misteriosamente) ocupa? A quem obedecerá, na sua prece íntima ou linha de orientação estratégica, o inefável Presidente da Comissão Europeia? Como salvar o Euro e ao mesmo tempo, nos salvar do "estoiro" da economia norte-americana? Como jogar o jogo com as empresas de notações de risco, com exigência de transparência responsável e sem qualquer forma de manipulação? Como conseguir fugir à devassa, pagar os juros a vencer e os deficits futuros, que são o nosso fado? Como nos livrar desta soldadesta neoliberal, desta perversão maníaca dos mercados sem regulação, desta religião ou purga neoliberal? Quando seremos um país decente, economicamente produtivo e equilibradamente justo, civilizado no trabalho e na vida, fraterno e transparente nos rendimentos e na coisa pública? Haverá um amanhã? Afinal "que é o meu nada, comparado ao horror que vos espera" [Rimbaud].