Domingo, Janeiro 23, 2005



O espectáculo do espectáculo: os moralistas

"Nada é mais atraente que as coisas desonestas" [Ovídio]

Estranho espectáculo se assiste em torno da peripécia observada, supostamente, no debate Portas-Louçã e em torno dos cinco minutos passados a falar sobre o problema do aborto. A repulsa dos nossos ilustrados intelectuais contra o que denominam um "golpe baixo" de Louçã, o lavor de moralização presente nalguns blogs liberais, a hipocrisia do moralista-mor Eduardo Dâmaso, a meditação progressista de Helena Matos ou o tricot da new left Ana Sá Lopes, são de desmedida agitação e subtil excitação. Confessamos que nunca assistimos a tamanho pranto e a tão vulgar retórica.

O mais espantoso é que, de um momento para outro, o insidioso Louçã passa de patrono e zelador do direito de gays e lésbicas, radical sempre a rasgar "causas fracturantes", para findar em macilento "reaccionário" e a debitar "fascismos genéticos", tudo num "reaccionarismo progressista" nunca visto, terminando por ser um execrável neofascista, isto segundo o beato Bagão Félix. Ao mesmo tempo, sem qualquer pudor, hipocrisia ou vergonha na cara, o casto, virtuoso e democrata Portas é travestido de sujeito tolerante, paladino da verdade, da ética e dos bons costumes. Inolvidável.

A arte apurada dos nossos opinadores é um exercício assaz curioso: tentar moralizar o pensamento moralizador do "pastor das consciências tresmalhadas", o dr. Louçã. Este movimento edificador, em prol do politicamente correcto, teve sempre entre os indígenas abundantes discípulos. O gosto pelo espectáculo, embalado pelo ruído, está-lhes no sangue. Mas a distracção perante os seus ódios de estimação impede-os de reflectir, e assim o pronto a pensar politicamente correcto queda-se fracativo, tem demasiadas exuberâncias.

Curiosamente, no afã do killer instinct argumentativo do que é ou não ofensivo, caem na sua própria ratoeira e desatam a tecer duvidosas e inadmissíveis conjecturas sobre a vida privada de cidadãos, sem qualquer pejo e decoro, a partir das suas (próprias) interpretações e análises moralistas da réplica de Louçã a Portas. O instinto virulento de Eduardo Dâmaso é um study-case, dado a sua posição num jornal que se quer respeitável e de absoluta limpidez. E se já tínhamos o assessor do assessor, o gabinete do gabinete, resta para toldar a atmosfera lusa, estimular o moralista do futuro ministro da Moralidade, o qual tem Dâmaso como forte candidato.

Afinal, no episódio enleado laboriosamente pelos novos patrulhadores, nunca lhes ocorreu que, face às afirmações costumeiras de Portas sobre os putativos criminosos que propugnam a despenalização do aborto, a resposta possa ser aquela, sem segundas intenções por detrás? E que, contrariamente ao que interpreta a taramelada Ana Sá Lopes, não se trata de assumir que só aqueles que gerem filhos têm direito de se pronunciar sobre a despenalização ou não do aborto, mas sim não permitir que a intolerável ladainha sobre os criminosos a favor do aborto persista?

Por fim algumas questões mais sérias, que os nossos moralistas esqueceram de interiorizar, decorrentes da leitura das diferentes intervenções neste caso: o facto de permanecer uma curiosa visão homofóbica entre o privado e o público; a existência de um pronunciamento por um registo de afectos que se quer zelosamente guardado em "armários"; a consagração de um efeito discursivo perverso sobre a sexualidade; e que sugerem novas querelas, bem contempladas em textos do Bruno, na intervenção de CAA ou num post de Vicente Jorge Silva. Pelo menos sempre se ganhou alguma coisa, no meio de tanto moralismo serôdio.



Raphael Bordallo Pinheiro [m. 23 Janeiro de 1905]

"A entrada em cena de Raphael Bordallo Pinheiro provocou uma revolução completa na nossa ilustração gráfica. Tão forte era a sua personalidade que os imitadores continuavam, várias décadas após a sua morte. Os gags dos seus cartoons foram repetidos até ao fastio; as histórias aos quadradinhos satíricos invadiram todos os jornais em todos os lados. A admiração que despertou, algumas vezes em excesso, fez esquecer os artistas que o precederam na caricatura e técnica narrativa (...)
Dizer que Raphael «inventou» os quadradinhos portugueses não é uma afirmação rigorosamente correcta, pois já Flora [pseudónimo ?] e Nogueira da Silva, pelo menos, tinham enveredado por esse caminho. Porém, foi Bordallo que lhes deu ductilidade suficiente para virem a ser utilizados de forma eficaz e duradoura" [António Dias de Deus, in Os Comics em Portugal uma história da banda desenhada, Cotovia, 1997]

"... Não era só no trabalho e na conversa que a graça irrompia da sua [Rapahel B. Pinheiro] fértil imaginação; um relance de olhos bastava para o sugestionar e a prova está no seguinte episódio. Anos seguidos frequentei as Caldas da Rainha, e nalgumas noites, finda a cavaqueira no Parque, o Rafael vinha acompanhar-se até casa, na rua do Capitão Filipe de Sousa, antiga do «Cabo da Vila» por ser da vila ali o termo. Numa delas, antes de nos despedirmos, parámos ainda a dar à língua quando, de súbito, olhos fitos no letreiro da rua fronteira à minha porta, comum sorriso manhoso me diz com toda a gravidade «Ó Scwalbach, você não acha uma injustiça este capitão Filipe de Sousa há tantos anos sem ser promovido?». Apoiei, a rir, o reparo. E ele, continuando, «Amanhã eu te direi, apanhas mais um galão!» Acercou-se do letreiro de azulejo, tomou certas medidas e ... «Até amanhã!». Para resumir, na noite seguinte sacou dum pedaço de papel, um pincelito, uma pouca de massa e onde se lia capitão apareceu major, a jogar na perfeição com o resto do letreiro. Num abrir e fechar de olhos lá estava Rua do major Filipe de Sousa: eu meti-me em casa e o Rafael safou-se para a dele. Ali pelas nove horas da manhã começou a dar-se pela promoção - borborinho, protestos indignados (...) Já lá vão 56 anos..." [Eduardo Schwalbach, in À Lareira do Passado . Memórias, Lisboa, 1944]


Bem fica ou Benfica eis a questão

"Como o palhaço, vamos fazendo as nossas cabriolas, simulando sempre, adiando sempre o grande acontecimento. Morremos a lutar para nascer. Nunca fomos, nunca somos. Estamos sempre na contingência de vir a ser, separados, desligados, sempre. Sempre do lado de fora" [Henry Miller]

Apetecia-nos partir depressa para o bridge mas temos o futebol ainda na cabeça, os ovos-moles na boca e as mãos teimam em dobrar o lenço que se agita em enxovalho. Mau grado as olheiras pisadas por um qualquer Tanque Silva visando a baliza de Quim e os brindes à moda da Luz, temos por nós que a malapata se deve à pieguice desse malfadado meeting entre o cangalheiro Filipe Vieira e o piegas Dias da Cunha. A tamanha coscuvilhice em público o jovem Silva não entendeu. Inculto! E eu com o bridge à perna e as noites vazias. Senhor tende misericórdia.

Pronto. E lá vamos, que se faz tarde. A récita para esconjurar o demo está feita. Suspeita-se que ainda vamos a grande cheleme. Cuidado. Há noites abundantes.

Sábado, Janeiro 22, 2005



Lord Byron [n. 22 Janeiro de 1778-1824]

Lord Byron, acompanhado pelo "seu fiel criado" Hobhouse, embarcou num navio em Talmouth, nos tempos idos de Junho 1809, com destino Lisboa. Sabe-se que visitou, também Sintra e Mafra, partindo depois para Sevilha. Deixou algumas anotações sobre a sua visita a Portugal, nas suas Peregrinações.

"Pobre povo de escravos! Nascidos em tão delicioso clima! - Ó Natureza, por que hás tu prodigalizado teus dons a tal gente? O aspecto variado dos vales e das colinas de Sintra, se nos oferece como um novo Éden! Ah! que mão poderá guiar o pincel ou a pena para seguir a vista deslumbrada através dos lugares mais deslumbrantes para a contemplação dos mortais, como essas maravilhas descritas pelo poeta que ousou franquear ao mundo surpreso as portas do Eliseu?" [Estância XVIII das Peregrinações, in Lord Byron, por João Paulo Freire (Mário), Lisboa, 1944]

"Assim Mafra retê-lo-á um momento. Esta residência da infeliz rainha da Lusitânia, reuniria a igreja e a corte, os frades e os cortesãos; às missas sucediam-se os banquetes. Mistura estranha, sem dúvida; mas aqui a prostituta da Babilónia construiu um palácio tão sumptuoso, que os homens esquecem o sangue que ela tem derramado, e ajoelham perante a pompa que se esforça por emprestar ao crime enganoso"

[diz JP Freire (Mário) - «Em nota, Byron escreve: "A amplidão do Convento de Mafra é prodigiosa; reúne um palácio, um convento e uma igreja magnifica. Os seis órgãos que existem nesta igreja são os mais belos que jamais hei visto (?) Classifico Mafra o Escourial de Portugal?. Em carta a sua irmã Augusta, Byron diz-lhe que visitou a Livraria do Convento e falou latim com os frades, que lhe perguntaram se na sua pátria também havia livros ...» - Estância XXIX, ibidem]

Locais: The Life and Work of Lord Byron (1788-1824) / Lord Byron - Life Stories, Books, and Links / Lord Byron / Lord Byron (1788-1824) / George Gordon, Lord Byron 1788-1824 / Crede Byron / Selected Poetry of George Gordon Lord Byron (1788-1824) / The Diary of John Cam Hobhouse (Portugal, July 7th-23rd 1809) / The Oxford Byron Society

Sexta-feira, Janeiro 21, 2005



Flash eleitoral

"O segredo do demagogo é fingir ser tão estúpido quanto a sua plateia, para que ela pense ser tão inteligente quanto ela" [?]

A seriedade desta campanha eleitoral assegura-nos o mesmo de sempre: desânimo. Os pantomineiros do costume, na falta de informação, ideias e trabalho de casa, animam estes dias de sol imprudentemente suaves no tempo e na fortuna. A nova lida eleitoral é um ambicioso trabalho de separação entre o ético e o político, uma manifesta falta de qualquer código moral e uma paixão declarada de manipular o gado eleitoral. O que profundamente está em causa, não é a apresentação de linhas orientadoras governativas e propostas programáticas político-partidárias, mas um matraquear constante de fait-divers, uma retórica em torno de milagres para conversão da plebe, tudo isso envolto num entusiasmo infantil de luta pessoal, contra inimigos internos e externos.

Os motivos estão à vista. As prodigiosas facadas que todos os dias, sem misericórdia, os impetuosos compagnon-de-route Santanistas se aprestam a dar à criatura em chefe, são de uma ambição desmedida. Absorvidos no enlevo de se verem livres do homem, para poder mudar de amo e de negociatas, não se dão conta que foram eles que o levaram aos ombros para o trono e para nossa desdita. Ontem Morais Sarmento, hoje Aguiar Branco. É que todos estiveram no mesmo barco: o da incompetência. Ainda temos memória.

Da parte de Sócrates, a regra é ser palrador-mor. Sem que se saiba o que pretende para o país e para o mundo - e tantos dias foram já passados -, o seu único cântico é tentar contrariar as sondagens e obter a maioria absoluta, no meio de um discurso errático e vulgar. Como clonado de Santana, não possui a virtude de ser líder forte de modo a conter a tralha do seu partido e as diatribes dos seus correligionários. O episódio das miseráveis declarações de Nuno Cardoso aí está para o comprovar. Numa única semana, desbaratou capital eleitoral que dificilmente regressará. O que falta ainda percorrer revelará a dimensão da tragédia.

Olhando para o PP e para os gemidos animados do seu putativo governo, a lição é que a desgraça nunca vem só. Debatendo-se entre a urgência de dar um ar respeitável e civilizado e a tortura de não poder espinotear por aí, mais a garotada que o venera, Paulo Portas pouco tem a dizer. O vazio de ideias que manifesta é total. Encharcado de angustias quando lhe falam no seu parceiro da coligação, debatendo-se na cadeira quando ouve falar dos seus inefáveis ministros, crispado por saber que nada sabe, Paulo Portas tem a tragédia de poder falar no trabalho do seu ministério. O resto do país passa-lhe ao lado, como foi bem visível no debate com Francisco Louçã. E este, inteligente e estudioso, vai capitalizando ideias e votos, numa argumentação irrepreensível. Compreende-se que os novos liberais, mesmo os que habitam a blogosfera, se sintam desconfortáveis. Esquecem que o mundo mudou. Estão velhos, sem ideias e sem bandeiras. O que não deixa de ser um paradoxo.

Quinta-feira, Janeiro 20, 2005



D. Sebastião [n. 20 Janeiro de 1554]

"Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
" [F. Pessoa, in Mensagem]

"O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade de indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroísmo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante. Ruge com Passos Manuel, grunhe com D. João VI. É de raça, é de natureza. Foi sempre o mesmo. A história resume-se quase numa série de biografias, num desfilar de personalidades, dominando épocas. Sobretudo depois de Alcácer. Povo messiânico, mas que não gera o Messias. Não o pariu ainda. Em vez de traduzir o ideal em carne, vai-o dissolvendo em lágrimas. Sonha a quimera, não a realiza?

[Guerra Junqueiro, in Pátria]



Portugal & Sebastianismo

"D. Sebastião continuará o mito do Rei Artur, como modelo exemplar da soberania; do rei que, oficiante e vítima, se oferta e imola no sacrifício ritual do seu reino, dele seu representante, a ele identificado transcendentemente; e o que, após longa dormição, o virá salvar. E assim como os Cavaleiros da Távola Redonda foram exterminados na batalha de Camlan, assim o forma os cavaleiros da nobreza do reino lusíada na batalha de Álcacer Quibir: mas também depois de sua morte, seu longo período de pausa e ocultamento, o rei salvador voltará ressuscitado, purificado e iniciado, para redimir e ressuscitar o seu povo. E entretanto, como Artur ficou permanecendo na ilha de Avalon, centro do mundo, assim também D. Sebastião ficou permanecendo na sua Ilha Encoberta, como outro centro do mundo" [Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal, 1978]

"Ser navegador ... Ser navegador
Não é termos sido é sermos ainda
É irmos a Vénus ou seja onde for
Esperar os cornos onde o espaço finda

É haver Camões como uma revolta
E haver Gil Vicente como um desafio
A esse Encoberto que nunca mais volta
Porque é pretexto do nosso vazio
"

[Natália Correia, in De Comunicação, 1959]

Quarta-feira, Janeiro 19, 2005



Muitos parabéns Eugénio! Bom Dia!

"Podias ensinar à mão
outra arte,
essa de atravessar o vidro;

podias ensiná-la
a escavar a terra
em que sufocas sílaba a sílaba;

ou então a ser água,
onde, de tanto olhá-las,
as estrelas caíam
"

[Eugénio Andrade, in Loreto13, 1979]



O mártir Nuno Cardoso, o fundamentalista Sousa Tavares & outros

As façanhas assombrosas da classe política lusa, local e nacional, davam excelentes best-sellers. Por muito que os comentadores da coisa pública assobiem para o ar, entretendo-se em produzir alucinadas teorias para a salvação da pátria, nada consegue fazer esquecer o fastio da contemplação da corrupção, que é transversal a toda a sociedade portuguesa. E quando a coisa assumiu tamanha proporção não há modelos económicos, políticos ou sociais que resistam. O argumento do debate político contínuo encerra algumas virtuosidades, mas não basta aceder ao seu discurso sem que as enfermidades maiores do sistema democrático sejam resolvidas. E a corrupção, o compadrio, o deixa-andar, o apostolado partidário, o fundamentalismo de todas as matizes, admitidas com o maior dos beneplácitos pela elite indígena, tornam moribunda a sociedade civil e castra o exercício da cidadania. Ou este jogo insuportável se atenua ou a tragédia não tem fim.

Hoje calhou a vez a Nuno Cardoso. E de novo está presente a relação suspeitosa entre presidentes de câmaras, empreiteiros e clubes de futebol. Ainda os arrufos de Fernando Ruas, em defesa e lisonja dos autarcas, desabavam nos jornais, já o caso Nuno Cardoso aí estava. A fé jurada de Ruas em homenagem aos autarcas teve a sua morte prematura. A classe política lançou sementes que, curiosamente, germinaram. Por culpa de todos nós.

O caso de Miguel de Sousa Tavares, hoje em pronunciamento na TVI, desvela as cândidas oportunidades que demos a toda essa gente. Por manifesto fundamentalismo clubístico, Sousa Tavares não quer ver o que aí está. Furioso dispara para todo o lado, à maneira dos hooligans. Custa acreditar no que se está a ver. E quando só reconhece o facto se a cadeia das desgraças abraçar, também, os outros clubes rivais, então estamos perante um caso clínico grave. Não merecíamos este Sousa Tavares, arrastado pela clubite, bizarro, fanático e suplicante. Precisamos de homens livres e por inteiro. Se ainda existirem.



Alexander Woollcott [n. 19 Janeiro 1887-1942]

"Há muitos chás em moda, porém nenhum como os de Dorothy Parker e seus cavaleiros. É que nos tempos confusos da Lei Seca, nos E.U.A., eles se reuniam em torno da Távola Redonda do Hotel Algoquin para bebericar xícaras e xícaras de ... Uísque! E, isso mesmo. Era o uísque que lhes aquecia as tardes nova-iorquinas dos anos vinte, liberando as línguas para o vituperioso exercício de falar mal da vida alheia. Maldade com classe, é bom frisar. (...) Era um grupo formado pelos melhores artistas da época. Figuras como o comediante Harpo Marx, o editor da New Yorker, Harold Ross, o teatrólogo Robert Sherwood, o editor da Vanity Fair, Frank Crowninshield, o crítico Alexander Woollcott e muitos outros" [in O chá de Dorothy Parker e sua loira burra]

"Tout juste avant de devenir un adulte, je caressais trois rêves : devenir un héros comme Lindberg, apprendre le chinois et adhérer à l'Algonquin Round Table" [J. F. Kennedy]

Locais: Alexander Woollcott / Alexander Woollcott (1887-1942) / Alexander Woollcott - The Man Who Came to Dinner / Miss Kitty Takes to the Road, August 1934 / The Algonquin Round Table / "The Algonquin Round Table" / Algonquin Round Table / Algonquin Round Table (Caricature) / The Algonquin Hotel, New York


[Manias de bibliófilos 2]

"... Há por aí alguém que tenha conhecido o Pereira Merelo! (...) Esse tinha outra mania. Tudo lhe prestava, contanto que tivesse forma de livro. Velhas crónicas, livros de missa, números soltos de jornais, romançada de três ao pataco, edições princeps, relatórios de associações, tudo encontrado, depois da morte daquele célebre corretor de Bolsa, metido em sacos de linhagem, à laia de batatas ou feijão em fundo de armazém. Tenho essa informação de Teófilo Braga que prefaciou essa aventesma bibliográfica que é o catálogo do leilão Merelo.
Mas no meio daquele entulho livresco, que os ratos e as baratas já começavam a rilhar, quantos manuscritos preciosos, quantos exemplares únicos de incunábulos e livros do quinhentos e seiscentos.
Merelo foi o tipo de bibliófilo hermético. Livro que lhe caísse nas mãos era alma que caía no inferno: nunca mais ninguém lhe punha a vista em riba. Não há notícia de pesquisador a quem o famoso corretor permitisse a conslta dum livro..."

[Cardoso Martha, in Almanaque do Jornal O Século, 1931]

Terça-feira, Janeiro 18, 2005



Ary dos Santos [m. 18 Janeiro de 1984]

"... A poesia é de mel ou de cicuta?
Quando um poeta se interroga e escuta
ouve ternura luta espanto ou espasmo?

Ouve como quiser seja o que for
fazer poemas é escrever amor
a poesia o que tem de ser é orgasmo
" [Ary]

"Isto vai meus amigos, isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente

Isto vai meus amigos isto vai
O que é preciso é ter sempre presente
Que o presente é um tempo que se vai
E o futuro é o tempo resistente ..." [Ary, in O Futuro, 1978]

"... Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
" [Ary]

Locais: Ary dos Santos / José Carlos Ary Santos / Ary dos Santos (1937-84) / Biografia / A Máquina Fotográfica / Queixa e imprecações dum condenado à morte / Poemas / Aqui Jaz Ary dos Santos sentado no muro do cemitério a ver passar a classe operária



Momento absolutamente desportivo

"Who has good luck is good, Who has bad luck is bad" [Brecht]

Apartados do mundo - oh eterno bridge p'la noute dentro - não acompanhámos o mistério do gozo e vil penar dos aspirantes ao título de campeon nacional de futebol. Mas generosidade amiga, em terras do Mondego, com o senhor Reytor lá no cimo venerando, contou-nos a dedicaçon que os emissários do Norte transportaram no jogo com os estudantes da Briosa. Espíritos devassos confessam o desgosto de não se tirar proveito da alegre passeata dos azuis e brancos e, evidentemente, de não lhes ter ensinado a tabuada. Ah meus caros amigos, como soys caprichosos!

Em banhos na Madeira, Peseiro & seus formosos muchachos, tiveram o mayor dos recolhimentos. As fadigas de Sá Pinto, a decoração defensiva de Polga e a energia de Paíto são salutares temperos na fecunda equipa d'Alvalade. Os assuntos futebolísticos dos verdes são cada vez mais lavrados em inocentes jogatinas em versão solteiros contra casados. Só a é que os salva. E o Dias da Cunha. Não vale a pena ruborizarem-se. Convertei-vos!

Ah! e que dizer da eloquência do futebol avermelhado? Daquele momento heróico, cheio de Mantorras, temperado por Simãozinho, que a eternidade gravou? Vós, educados nos sãos princípios do futebol, submissos ao belo e severos às lides da bola respigai soidades. Prestai homenagem. E vós ímpios, nada de prantos! Aproxima-se a inevitável hora. Fazei vénia. Disse.


[Manias de bibliófilos]

"... Um falecido estanceiro, bibliófilo amador, que mercê de muitos contos de réis conseguiu reunir uma preciosa livraria, esse esperava nos leilões que o volume desejado excedesse o lanço de cinquenta mil réis para o arrematar. Até esta altura, o livro não era digno dele - era entulho sem valor. Mas logo que o desejado calhamaço excedesse a bitola dos cinquenta, tínhamos homem. Já não o largava.
Eu ainda conheci um patusco que comprava todas as Artes de Furtar, da hipotética autoria do Padre António Vieira, que topasse à venda em alfarrabistas ou de que tivesse notícia por catálogos ou informações pessoais. Assim alcançou uma duas ou três dezenas. Um dia, tendo os encharcados previamente de petróleo, deitou-lhes o fogo num pátio interior da casa onde morava, no meio dos protestos da vizinhança, escamada com a fumaceira que invadia os prédios circundantes até às águas furtadas.
Queria o bom homem - vejam lá esta ratice! tornar rara aquela obra. Tempo perdido, porque a Arte de Furtar ainda hoje não figura no elenco das raridades ..."

[Cardoso Martha, in Almanaque do Jornal O Século, 1931]

Segunda-feira, Janeiro 17, 2005



Calderón de la Barca [n. 17 Janeiro de 1600-1681]

"Apurar, ó céus, pretendo,
já que me tratais assi,
que delito cometi
contra vós outros, nascendo;
que, se nasci, já entendo
qual delito hei cometido:
bastante causa há servido
vossa justiça e rigor,
pois que o delito maior
do homem é ter nascido ...
" [in La Vida es Sueño, trad. Jorge de Sena]

Locais: Calderón de la Barca / Pedro Calderón de la Barca / La vida es sueño / Poemas



A mezinha de Barreto, a sabatina do Espada e o ministro Rosado Carvalho

O que seriam as nossas vidas sem as croniquetas e as oratórias dos divinos António Barreto, João Carlos Espada e Carlos Rosado de Carvalho? Decerto a dor de não tresler a tribuna sagrada de António Barreto no Público seria um tormento horrendo, um choro desvalido, uma maldade moderna. Não aludir nas conversetas de café o ímpeto neo-liberal do profeta Espada nas páginas d'O Expresso, um desaforo severo, uma insensatez pedante. Deixar de ouvir o putativo ministeriável Rosado de Carvalho e a sua economia amestrada, na SIC-Notícias, um esquecimento mesquinho. A obediência a estes preclaros doutores, que com a pena e a palavra instruem os indígenas lusos e quiçá europeus, é um sentimento nobre e a esperança que o País, embevecido, contempla a sua própria ruína. A obra libertadora com que adoçam os seus queixumes sobre a horrível ralé, a média burguesia ou o pé descalço, arrisca-se a ganhar a imortalidade. Portugal, com tais apologistas, brilhará para todos nós. Sigamos os mestres, pois.

Cumpre-nos referir, no entanto, aos sábios e inocentes pregadores que as venturosas sabatinas que temos o privilégio de atender andam tumultuosas. Esta semana, por exemplo, a mezinha de Barreto diz-nos que o problema do ignóbil Portugal pode ser resolúvel pelo pacote do sistema de círculos uninominais. Mais, não sabendo bem como seria a sua configuração, Barreto assegura-nos uma certeza: na impossibilidade de mudar de país, contra os políticos populistas e deputados inúteis, resta-nos alterar o sistema eleitoral. Era, pois, certo e sabido que doravante chegaríamos ao topo da Europa e da civilização. O povo, resignado, inculto e iletrado compreenderia, e castigaria, na sua bondade democrática, os caciques distritais e nacionais, os suspeitos do costume. Um mar de rosas.

Por fim, a sabatina de Espada sobre "O desafio do Oriente", no Expresso, é de uma grandeza libertária inolvidável. Ficámos persuadidos. Pois, se até o director do departamento de ciência política da Universidade de Sun Ya Tsen (longa vida camarada Mao) fala "inglês fluente", porque razão não entramos já nesse novo campeonato mundial de baixa de impostos!? Absolutamente, professor. E que dizer do temerário Rosado de Carvalho que garantiu na SIC, a propósito da eliminação dos benefícios fiscais, e contrariando os desígnios de Lopes & Sócrates, que se deve liquidar não uma classe média, mas duas ou três, de preferência (sic)!? Genial o douto politólogo. Ainda vai a ministro. Oremos.




[Em 1966 "Sounds of Silence" por Simon and Garfunkel. Nunca mais fomos os mesmos. Nunca mais ficámos quietos no incêndio do nosso coração. Nunca mais.]

"Hello darkness, my old friend,
I've come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence.
...
«The words of the prophets
are written on the subway walls
And tenement halls»
And whisper'd in the sounds of silence". [The Sound of Silence]

Locais: Simon and Garfunkel / Simon and Garfunkel / The Simon and Garfunkel Homepage / Poet Musician Artist - A Critical Commentary / The Sound of Silence / The Sound of Silence (Lyrics) / Sounds Of Silence (Lyrics - tradução)

Sábado, Janeiro 15, 2005



[A Bem da Nação]

"Os homens parecem-se como corvos de olhos fixos que levantam voo por sobre os cadáveres e todos os peles-vermelhas são chefes de estação" [Francis Picabia]

Desfilaram esta semana um conjunto apreciável de sujeitos nas festas eleitorais. Enquanto a gravidade económica do país era assinalada, curiosamente também pelos que mais participaram na sua mediocridade, cá dentro e nos países civilizados, os diferentes espíritos da coisa pública, em discursos buliçosos, entravam no mais perfeito dislate. Supõe-se que os parcos aplausos eram todos "a Bem da Nação".

A crónica inicia-se pela apologia inenarrável do despeitado turista acidental, Morais Sarmento, a banhos em S. Tomé. A fraseologia usada revela-se de pouca singularidade. Fosse o ministro Sarmento um qualquer gentio da província, um ilustre desconhecido da administração pública, tivesse vestido a farpela fútil d'algum secretário de estado ou ministro-a-dias, que a palestra em sua defesa não existiria. O tiroteio seguido de intensa emoção, que o facto desvelaria, percorreria o país de lés-a-lés, e os frémitos contra o desafortunado turista produziriam em todas as bancadas espasmos colossais. Mas o homem era outro. Neste caso, passe o dito cheio de graça de Lobo Xavier que jura que Sarmento é homem de sucesso (curiosamente, todas as luminárias da politica o são, caso do próprio Xavier), a classe política juntamente com alguns opinion makers de serviço à Nação fizeram a desafronta e chibataram a plebe. Que não deve ter gostado da reprimenda.

Quanto ao cada vez mais clone de Santana Lopes, o eng. Sócrates, o caso é deveras admirável. A sua afoiteza em jurar eterno apoio do Estado aos mais pobres, "aqueles que se encontram abaixo do limiar da pobreza", fez lembrar com eterna saudade o outro engenheiro, de nome Guterres. A gaffe é elucidativa. A história repete-se. Como dizia o outro, "a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa". A peça espectaculosa sobre a eliminação ou não dos benefícios fiscais num futuro governo de Sócrates foi clarificadora. Diz-se uma qualquer coisa, não importa o quê, contra o governo com a alegação que a classe média é penalizada, que não há equidade fiscal, e noutro momento, imperturbavelmente, faz-se o elogio da estabilidade fiscal Santanista. Não há paciência para iluminadores assim. Ninguém resiste a tal grotesco.



Leilão de Livros na Leiria & Nascimento
[Dia 19 de Janeiro, 15 h e 21,30h - Pavilhão das Exposições da Tapada da Ajuda]

O primeiro leilão do ano inicia-se com um conjunto de valiosas e estimadas peças, catalogadas por José Vicente (da Livraria Olisipo), a cargo da leiloeira Leiria & Nascimento, "provenientes de várias bibliotecas", que pode ser consultado on line.

Algumas referências: Breve Compendio Di Maravigliosi Secreti Appronati con felice sucesso nelle Indisposition Corporali ..., de Fr. Doménico Auda... Per il Remondini (Séc. XVII) / Dom Miguel, ses Aventures Scandaleuses, ses Crimes et son Usurpation, Par un Portugais de distinction.Traduit par J. B. Mesnard. Paris. Ménard, Libraire, 1833 (Feio Barreto, obra publicada anónima) / Vida do Apostólico Padre António Vieyra da Companhia de Jesus Chamado..., pelo Pe. Andrade Barros, 1746 / Luz, & Calor Obra Espiritual..., pelo Pe. Manuel Bernardes, 1724, 2ª ed. / Historia Dela disunione del Regno di Portugallo..., scritta Dal Dottore Giovanni Battista Birago, Novamente Corretta, emendada illustrada, 1647 (rara) / Epitome Chronologico Genealogico & Historico, ... composto pelo Padre António Maria Bonucci, 1706 [«O autor foi missionário no Brasil e secretário do Padre António Vieira. Fez recolha e cópia de cerca de 300 cartas do Pe.A.Vieira, que enviou ao Papa Clemente XI»] / Opera Varia Quorum posthac exstat Catalogus Cum Indicibus necessaris & ... Geneve, por Robert Boyle, 1677 / Os Lvsiadas De Lvis de Camões, Lisboa, Paulo Paulo Craesbeeck, 1644 (raro) / Art de la Guerre par Príncipes et par Regles ..., por Jean François Chastenet Marechal de Puysegur, 1749, II vols / An Universal History of Arts anda Sciences ..., por Dennis de Coetlogon, London, 1745, II vols / Dell'Vnione Del Regno Di Portogallo Alla Corona di Castiglia..., de Ieronino Conestaggio ["também é atribuída a D. João da Silva, Conde de Portalegre", Rara], 1592 / Dicionário de Adágios e Princípios Jurídicos, de António Simões Correia, 1958, II vols (raro) / Tratado Singular Composto de Regras Certas e infalliveis, pelas quaes se descobrem os, principios por onde se purifica, affina, e legalmente se póde fabricar prata com pureza ..., por Luís Gonzaga da Costa, 1709 (raro) / Voyage Pittoresque et Historique au Brésil..., de J. B. Debret, Rio de Janeiro, 1965, III vols / Mort D'Abel Poème de Salomon Gessener, A Paris, 1793 / Saducismus Triumphatus Or Full and Plain Evidence Concerning Witches and Aparitions..., por Joseph Glanuil, 1682, II vols [«Rara obra sobre Aparições, Levitação, Bruxaria, etc»] / A Lanterna. Folha Política, Lisboa, 1868 (a 1871) / Historia y Tragedia de los Templários, Por Santiago Lopes, Madrid, 1813 / [Ms] Certidão da Torre do tombo, assinada pelo Cronista Gomes Eanes de Zurara e D. Afonso V, contendo as inquirições das Igrejas de S. Paio de Roilhe, julgado de Penafiel, feita por D.Afonso, Conde de Bolonha, e da Vila de Mós, passada a 14 de Junho de 1463 / Primera y Segunda Parte de La Diana de George de Montemayor, Madrid, 1622 / Collection Historique dês Ordres de Chevalerie Civils et Militaires existant chez les différens peuples du Monde, suivie d'un tableau chronologique des ordres éteint, por A. M. Perrot, 1820 / O Minho e as suas Culturas, pelo Visconde de S. Romão, 1902 (raro) / Secreti Nobilissimi Dell'Art Profvmatoria..., in Venetia, 1678 [«Raro tratado de cosmética seiscentista. Publicado anónimo»] / Historia da guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal..., por Simão José da Luz Soriano, 1866-1890, VIII tomos / Reflexions sobre El Derecho Espiritual y Temporal del Ordem de Calatrava..., por Plácido Francisco Sotelo, 1767

Quarta-feira, Janeiro 12, 2005



In Memoriam de Augusto Nunes - Livreiro Alfarrabista

Um dos mais estimados alfarrabistas de Lisboa, um dos mais queridos profissionais que gerações de amantes dos livros conheceram e respeitaram, faleceu no passado dia 9 de Janeiro. Um cidadão exemplar.

Augusto Nunes, o Nunes de Benfica como era conhecido, com livraria aberta na Rua São Domingos de Benfica nº 5, em Lisboa, era um homem notável, um homem bom e um excelente profissional. As suas histórias sobre bibliotecas e livros, que amava exemplarmente, as curiosas peripécias passadas ao longo da sua vida na profissão que orgulhosamente gostava, a franca amizade que mantinha com todos os amantes dos livros, novos ou velhos, são sentimentos de um espírito bom. Um virtude rara.

A sua perda é irreparável. Decerto que todos os seus clientes e amigos se sentem consternados pela triste notícia e apresentam as mais sentidas condolências à sua família, em especial ao seu filho, que continuará a obra do seu ilustre pai. Que descanse em paz.

Terça-feira, Janeiro 11, 2005



Alberto Giacometti [m. 11 Janeiro de 1966]

"Tout n'est qu'apparence, non?" [A. Giacometti]

Locais: Alberto Giacometti Page / Alberto Giacometti / The Museum of Modern Art / Alberto Giacometti (1901-1966) / Alberto Giacometti Stampa (Grisons), 1901 - Coire, 1966 / Guggenheim Museum



Nos 80 anos passados da morte de António Sardinha [10/01/1925]

"... o Amadis é o espelho cristalino da profunda natureza lírica da nossa raça. A delicadeza do seu coração não exclui das práticas vigorosas de cavaleiro intemerato. Lembremo-nos de que, sendo estruturalmente lírico o génio português, não deixamos de ser por isso um povo de acção, - um ninho permanente de descobridores e de navegadores. A nossa epopeia que, além de nacional, é cheia de universalismo em relação ao sonho inquieto da Renascença, por quem foi concebida e escrita, senão por um lírico? O que é o mito supremo do Encoberto senão uma condensação colectiva de lirismo? (...)

(...) E, transmitido dos Cancioneiros ao Amadis, prolonga-se em inolvidáveis criações literárias da Menina e Moça à Diana, de Jorge de Montemor ..."

[António Sardinha, "Um romântico esquecido", in Nação Portuguesa, IV Série, tomo I, 1946]



Maçonaria Portuguesa

[a propósito das afirmações de Paulo Noguês, citadas no jornal Público, em que era dito que a maçonaria portuguesa "ou tem capacidade de projectar o futuro ou acaba"]

"... Em quanto o Maç. vulgar, satisfeito com uma apparencia mystica, se contenta se saber pronunciar algumas palavras, de que ignora o verdadeiro sentido, o Maç. philosopho se lança aos séculos passados, e lá vê as causas primeiras e os fins reaes da Instituição Maç. (...) [in Historia da Franc-Maçonaria ou dos Pedreiros Livres pelo autor da Bibliotheca Maçónica [Miguel António Dias], capítulo IV, Lisboa, 1843]

"A Bulla do papa João XXII de 19 de Março de 1319, pela qual foi fundada a Ord. de Christo em Portugal; a Ractificação da mesma por el-rei D. Diniz, feita em Santarém aos 5 de Maio do mesmo ano; e a Bulla do Papa Júlio III, de 4 de Janeiro de 1551, pela qual se fez a união dos Mestrados das Ord. de Christo, de San-Iago, e Aviz, à Coroa Portugueza, são documentos irrecusaveis, e provam que a Iniciação primitiva, fonte de Franc-Maç. actual, existiu primeiro em Portugal, do que em outras Nações da Europa (...)" [in Annaes e Codigo dos Pedreiros Livres em Portugal pelo auctor da Bib. Maç. e Arch. Mystica, etc, , p. 4 , Lisboa, 1853]

[Nota: o autor, a partir do que foi acima transcrito, procura, curiosamente ou não tanto, demonstrar que a origem da introdução da maçonaria em Portugal nada deve à Ordem dos Templários e muito menos à Ordem de Cristo, dado afirmar, estranhamente, que tais Ordens nada tinham de iniciáticas. Seja como for, os vários livros publicados, anonimamente, por António Miguel Dias são fundamentais para a história da Maçonaria Portuguesa]

"... Por conclusão, diremos mais que Portugal precisa reformar a sua Maçonaria, reduzindo todos os Ritos e todos os Orientes a um só Rito, e a um só Oriente - Não se diga que uma reforma entre os maçons portuguezes é hoje impossível: pelo contrário, sendo desejada de todos os verdadeiros maçons, como é, só lhe falta quem do coração lhe dê um impulso franco e sincero ..." [in Arch. Mystica do Rito Francez ..., 5843 (aliás 1843)]



Dashiell Hammett [m. 10 Janeiro de 1961]

"Hammett gave murder back to the kind of people that commit it for reasons" [Raymond Chandler]

"... Em Hammett, a conexão entre literatura e vida é radical e se processa de modo especialíssimo. Sustentei isso em outras ocasiões, e insisto: o melhor dele são os contos da fase inicial. Com o tempo, ganhou em fôlego e ambição, mas Estranha Maldição (The Dain Curse) é reciclagem de contos, emendados um ao outro. Sua última narrativa, A Ceia dos Acusados (The Thin Man) é, notoriamente, a mais fraca. Mesmo na obra-prima, O Falcão Maltês, há reaproveitamento de contos e inconsistências. Seu livro mais bem-acabado é aquele mais próximo do romance social, A Chave de Vidro. Encerrado o período produtivo de 12 anos, não fez mais nada. Tentou, buscou outros caminhos, saindo da esfera das histórias de detective, mas não conseguiu nem mesmo expandir lampejos de narrativa psicológica, a exemplo do belo conto Medo de Tiro, que está nesta colectânea, Tiros na Noite, sobre o covarde moribundo que, depois de seu único ato de coragem, quer refazer a vida para ir atrás de todos os que o haviam humilhado (...)" [ler aqui]

Locais: Dashiell Hammett (1894-1961) / Dashiell Hammett / Dashiell Hammett Biography / Dashiell Hammett / All about Dashiell Hammett / Bibliography / Dashiell Hammett / Dashiell Hammett (1894-1961) Guía de lectura / Dashiell Hammett e os mistérios da criação literária: um depoimento e um poema

Segunda-feira, Janeiro 10, 2005



O turista Morais Sarmento

Morais Sarmento, numa ladainha déjà vue, deplora a "lamentável falta de sentido de Estado" dos portugueses que pagam os seus impostos, que não usam e abusam dos privilégios do aparelho do estado (que ainda os há, pasme-se!) e que, muito justamente, consideram despropositado a fadiga do turista Sarmento em terras de S. Tomé e Príncipe, em suposto trabalho porfiado de cooperação no audiovisual. Numa linguagem de trapos, o ministro da Presidência consente que o seu gabinete pronuncie uma enternecida e putativa indignação ministeriável aos estupefactos indígenas lusos, de uma grosseria nunca vista. Bem podem os habituais colunistas da pátria reclamarem, mais uma vez, da inveja lusitana, da grosseria do lumpen, da latrina da plebe. Sabemos os que os move.

A historieta é de tal modo dementada, que Santana Lopes se aproveitou, de imediato, do vigor emotivo e patriótico do seu ministro, para se dissociar do seu extenuante trabalho. A vingança em Santana Lopes costuma servir-se fria. De outro modo, o encantador presidente da RTP, misteriosamente nada nos diz sobre as desventuras do seu patrão em terras de S. Tomé. Afinal, se o incansável presidente da RTP não tem autonomia para assinar acordos na sua área, necessitando dar boleia a outros, para que é que serve? Pode-se saber?

Domingo, Janeiro 09, 2005



n. Kurt Tucholsky [9 Dezembro 1890-1935]

"Nothing is more difficult and nothing requires more character than to find oneself in open opposition to on's time and to say loudly: NO!"

"Si les élections pouvaient changer le cours des choses, elles seraient interdites"

"La censure n'existe pas en Suisse, mais elle y fonctionne très bien"

"People in Europe are proud of:
Being German.
Being French.
Being British.
Not being German.
Not being French.
Not being British" [K.T., in What People are Proud of in Europe, 1923]

"Ach, tivemos muitos senhores,
Tivemos tigres e hienas
Tivemos águias e porcos
Se foram melhores ou piores?
Ach, a bota sempre foi igual à bota.
E em nós deu,
Compreendem, quero dizer,
Que não precisamos doutros senhores
Senão de nenhuns" [K. T., trad: noosfera]

Locais: Kurt Tucholsky Literaturmuseum / Kurt Tucholsky - Gesellschaft / Kurt Tucholsky / Biographie / De la Philosophie Sociologique des Trous (Kurt Tucholsky) / Départ (poème de 1928) / A nosa terra: Kurt Tucholsky / Kurt Tucholsky Jornalista e escritor alemão / Kurt Tucholsky (poesia) / Tucholsky e Karl Kraus



"They who lose today may win tomorrow" [Cervantes]

A cantilena do nosso amigo inglês, bem nutrido de Cervantes, sobre aquele jogo no sítio d'Alvalade, pareceu-nos adulterada. Os brados da rapaziada verde eram pouco misericordiosos. O inglês não mostrava desvelo algum pelo pormenor. Bem tentámos apelar ao pecador, fã incondicional de Ferguson, para a generosidade do seu fervor à lide da bola, como se estivesse em Old Trafford. A imaginação não ocorreu, ao que julgamos.

Lá explicámos, que nada mais humilhante que brincar ao futebol sem qualquer espírito de confiança, linha de rumo, fio de jogo, eu sei lá que mais. Até, por iluminação divina, revelámos compreender o modo com que os vermelhos da Sagrada Luz, permitiram deixar correr o cerimonial do jogo a favor dos abnegados jovens d'Alvalade. A rédea solta ao ímpio era para confundir, tá claro. O tom paternal não vingou. O amigo inglês começava, logo, a falar do Bruno Aguiar, dum tal João Pereira, daquele velho senhor que estava sentado no banco a ordenar.

Bem tentámos replicar que o que gramávamos era que o Filipe Vieira & Veiga concorrem-se à câmara do Porto, lado a lado com o exemplo vivo do intelectual tripeiro, Pôncio Monteiro & Costa, Inc.. Mas não houve convencimento. Há momentos em que o coração não pratica discursos, só prantos. E se o inglês continuava pouco complacente ... Valeu-nos um bar irlandês, para nossa vingança. O amigo de Sir Alex restou um túmulo. Fomos felizes na táctica escolhida.



n. em Setúbal Luísa Todi [9 Dezembro 1753-1833]

"... Não se sabe exactamente qual foi a primeira actuação de [Luísa] Todi no estrangeiro, mas tudo indica que foi em 1777, quando cantou "Le Due Contesse", de Paisiello, no King's Theatre de Londres. Foi, no entanto, em Paris, que obteve a consagração graças à sua actuação nos Concerts Spirituels (1778). Foi numa segunda fase destas apresentações (em 1783) que estabeleceu uma acesa rivalidade com a alemã Gertyrud Mara, a qual dividiu o público entre "maristes" e "todistes". Segundo as críticas publicadas na época, Mara parece ter-se distinguido sobretudo pela bravura e pelo virtuosismo, enquanto Todi, que possuia uma voz de meio-soprano, é elogiada pela sua apetência para ópera séria, pelo seu excelente "cantabile", a clareza de articulação, o domínio das línguas, a emoção e os seus dotes de actriz - uma lista de qualidades que fazem dela uma intérprete de extrema modernidade (...) [ler aqui]

Sábado, Janeiro 08, 2005



Já tomou seu bridge hoje?

"There are two times in a man's life when he should not speculate: when he can't afford it and when he can" [Mark Twain]

Nos tempos em que afogávamos a devoção às respeitáveis virtudes dos lentes de Coimbra, em afectuosa gratidão e máxima reverência, era certo e sabido que por clemência à sebenta nos espraiávamos, madrugada dentro, no empreendimento bridgístico. A máxima era sempre a costumeira citação de Kaplan: "a terrible year for wine but a great year for bridge players". Certo, era que a confissão nunca foi provada. Ao sacrifício das aulas apurávamos nos mistérios do vinho e na observância do cumprimento do bridge.

O reparo do ilustre jogador americano não nos afectava, por aí além. A rua dos Combatentes tinha sempre resguardo oportuno, que interpretávamos muito bem, principalmente quando a crueldade dos dizeres do marquês de Severo sobre os ditos não terminava, invariavelmente, em religiosas reflexões para enólogos assombrados. O zelo assim manifesto dava alento para as adversidades da madrugada, feita de contagens de mão, contratos doidivanas, choros a vazas perdentes, squezzes à la mode, falta de mãozinhas para o outro lado ou apuramentos pífios, sempre à sombra do morto que castigava, entretanto, em vazadas de um trago, um qualquer Douro amigo. Tempos gloriosos. Que hoje confirmámos.

Já tomou seu bridge, hoje?

Sexta-feira, Janeiro 07, 2005



n. em Lisboa, Pe. Teodoro de Almeida [7 de Janeiro de 1722-1804]

"Compôs os seis primeiros tomos da Recreação Philosophica levado do louvável impulso de utilizar aos que não possuíam princípios elementares, e preferiu a fórmula de diálogos, nos quais procurou ser claro, adoptando um método fácil para as inteligências vulgares. Daqui nasceu que esta obra, deficiente já no seu tempo, foi pouco estimada dos entendidos na matéria, censurando-se-lhe algumas opiniões singulares, como por exemplo, a substituição da teoria newtoniana da luz. Tacharam-na também, quanto à forma dialogística, de pouco peso nas objecções do filósofo peripatético, que facilmente o pedagogo destruía, incutindo a opinião própria. Contudo, é inegável que este escrito com todos os seus defeitos, concorreu muito para excitar a leitura de obras mais graves, e para difundir notavelmente o gosto pelo estudo das ciências naturais, então concentradas nas academias, e fora do alcance dos curiosos. Foi um serviço do P. Almeida, que é hoje reconhecido, e por esta razão o apresentamos como facto principal da sua biografia literária. Dos quatro volumes que completam as Recreações, nada diremos, se não que a apologia da religião, assunto dos dois últimos, foi ditada por boas intenções? [in Dic. Bibliographico Portuguez de Inocêncio F. Silva, tomo VII]

Algumas Obras: Recreação Filosófica ou Diálogo sobre a Filosofia Natural, para instrução de pessoas curiosas que não frequentaram as aulas, IV tomos, 1751-1757 / O Feliz Independente do Mundo e da Fortuna, III vols., 1779 / Cartas Fysico-mathematicas de Theodosio a Eugénio, para servirem de complemento à Recreação Filosófica, 1784 [saíram sob pseud. de Dorotheu de Almeida] / Formosura de Deus, indeferida e declarada por suas muitas perfeições, assim como a frágil capacidade humana é possível, 1785 [obra atribuída] / Methodo para a Geographia, 1787 / Sermões, III vols., 1787 / Lisboa destruída (poema), 1803 /.../

Locais: Padre Teodoro de Almeida / Teodoro de Almeida, divulgador da Filosofia Natural / Teodoro de Almeida 1722-1804 / Recreación filosófica o diálogo sobre la filosofía natural para instrucción de personas curiosas que no frecuentaron las aulas (on line)

Quinta-feira, Janeiro 06, 2005



Santos com vida ou vida de santos

"Cogitationes meae ... torquentes cor meum" [Job XVII.V.II.]

Movidos por letargia para o sofá, que a vida está fantasiosamente sonolenta, confessamos, vergonhosamente, que não sucumbimos ab lib aos abraços de Morfeu, esta segunda-feira última. Caso curioso, diga-se. Tudo isso porque uma epidemia de economistas e politólogos encartados protestou piedosas súplicas na venerável TV, já o dia estava alto e convidativo à poeira da livralhada.

Meus amigos: a fala de esperança e caridade de César das Neves, quando confrontada no dificultoso diz-kurso positivo de Nogueira Leite, ou com os exercícios espirituosos de Luís Campos, ou até mesmo nos terríveis golpes atenazantes de Paulo Rangel, sem esquecer a habitual penetração intelectual da funcionária pública Fátima Bonifácio, fez-nos ver claramente visto. O santo César era um adorno de eloquência, no invés de um caturra saloio.

Empalidecemos. Claramente surge que o nosso affaire d'honneur entre lúbricos papéis seria a nossa desgraça. Assim despojados do terrível alívio de ver o César entre iguais, ficámos tão sensíveis e arrebatados que o nosso horizonte só podia raiar com a leitura das listas de candidatos a deputados. O que fizemos. Imediatamente nos rebolamos no sono dos justos, em merecido descanso. A natureza está sempre disponível a aparecer na ocorrência de uma desgraça. Eis uma boa virtude.



Revista Almanaque

Almanaque, revista de Lisboa sob o patrocínio de J. A. de Figueiredo Magalhães "proprietário da Editora Ulisseia" [Daniel Pires, in Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX, 1900-1940, Edições Grifo, que seguimos doravante], com 18 números publicados, entre Outubro de 1959 a Maio de 1961. Teve no seu conselho de redacção, Cardoso Pires, Sttau Monteiro, Alexandre O'Neill, Baptista-Bastos, José Cutileiro, Augusto Abelaira, arranjos gráficos de Sebastião Rodrigues, João Abel Manta, fotografia de Armando Rosário, Eduardo Gajeiro, Mário Novais, João Martins e João Cutileiro, desenhos de Abel Manta, Câmara Leme e Pilo da Silva. Revista literária de assinalada importância na vida social e cultural de então, constitui no dizer de Daniel Pires, "uma radiografia rigorosa dos acontecimentos que marcaram a época". Convém referir que a maioria dos seus artigos não eram assinados e só o testemunho de alguns e a recordação de outros permite fazer o seu registo. De entre a colaboração prestada refira-se: Vasco Pulido Valente (vide artigo da Kapa nº1), Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, José Gomes Ferreira, Palla e Carmo, Reinaldo Ferreira, etc..

"Um almanaque, dizem as enciclopédias, é um livrinho de calendário, bem medido e matérias várias de instrução e recreio, tábuas, coisas de todo o gosto, etc., etc., etc. (...)
Almanaque, não se sabe bem porquê, tem um certo sabor a ornato, a antiqualha e a papel amarelecido. Cheira a naftalina e anda salpicado de provérbios muito conselheirais, que se contradizem uns aos outros, e de anedotas de soldados que não conhecem a mão esquerda.
Ora, este almanaque é um verdadeiro irreverente dessa gloriosa família de anciãos. Vem ao gosto moderno, segundo a «linha 1959», trata por tu o teatro de Beckett e Ionesco, os escritores da Beat Generation, os Pat Boone ou os Georges Brassens, os íntimos de Françoise Sagan e as verdadeiras causas do caso Pasternak. Só não conhece os segredos sos painéis de Nuno Gonçalves, mas há-de chegar lá um dia (...)" [in Almanaque, nº1, Outubro de 1959, em nota de abertura]



Ex-libris in Virtual Museum

Quarta-feira, Janeiro 05, 2005



François Villon [n. 5 Janeiro de 1431 ?]

«Hé! Dieu, se j'eusse estudié,
Ou temps de ma jeunesse folle,
Et a bonnes meurs dedié,
J'eusse maison et couche molle,
Mais quoi? Je fuyoie l'escolle,
Comme fait le mauvais enfant.
En escripvant cette parolle,
A peu que le cuer ne me fent.
»

[François Villon, Le Testament]

"Aqui se fecha o testamento
E se finda o pobre Villon.
Vinde, pois, ao sepultamento,
Quando ouvirdes os carrilhões,
Em trajes rubro-vermelhões .
Foi mártir do Amor a servir,
Isso jurou por seus colhões
Quando mundo quis partir.

E julgo bem que ele não mente,
Pois foi banido sem razões
Dos amores, qual cão demente.
Tal que daqui a Rossillon
Nem espinhos nem esporões
O pouparam, diz sem mentir,
De ferir-se com aguilhões,
Quando do mundo quis partir ,,,"

[François Villon, Outra Balada, trad. Sebastião Uchôa Leite]

Locais: François Villon / Société François Villon / Versos do poeta marginal François Villon ganham reedição / Le Grand Testament / Poésie



A arte de viver contente em quaesquer trabalhos da vida

"Trabalho: do latim tripalium, instrumento de tortura" [JH]

Utilíssimo para todos os bloguistas com prodígios obrados nos seus posts, nova terra de cativeiro eleitoral & ultríssimo remédio para melhorar a impressão, este aviso ao mulherio ou appendix à natureza do mal por um esteta fiel. Não é uma escrita para dar uma de oftálmica por isso não precisa de almofada. Os requebros & meneios são uma imagem venerável (ver cliché ao lado), sempre muito retratada em distintos assuntos onde a fantasia inflamada e a devassidão conspícua são empresa colossal e de grande "construído estético". Não nos foi adiantada a magna questão de saber porque "não é propício ao acto sexual ter os pés frios", como assegura Aristóteles nos Problemas, mas decerto abundam as manufacturas em toda a cidade de Coimbra para o provar, como é mister.

Terminamos com abundância, citando O Jardim Perfumado:

"... Fiando como uma aranha sempre ocupada.
Disseram-me:«Por quanto tempo continuarás?»
Respondi-lhe:«Trabalharei até morrer»"

Fiat lux


[No Parlamento]

"... No Parlamento não está a representação nacional, está a representação oficial; não está uma representação espontânea, nobre e sentida, está uma representação ensinada e assalariada. O governo pode contar com essa, porque a educou, e porque a afeiçoou a si; o governo a maioria são como duas figuras duma tragédia, que se falam e replicam, de há muito ensaiadas nos bastidores (...) Aquela representação não é nacional, é ministerial: não representa o povo que a rejeita e que a censura, representa simplesmente os homens que lhe dão os cargos opulentos e os estipêndios largos; a maioria é o corpo diplomático do governo; ele trá-la ostentosa e bem fardada, e engorda-a com a magreza do povo ..."

[Eça de Queiroz, in Distrito de Évora, 14 Março de 1867]

Domingo, Janeiro 02, 2005



Os Melhores Blogs Portugueses de 2004

"Leia-se esta paisagem da direita para a esquerda e vice-versa, ou vice-versa e de baixo para cima, pode-se soltar as linhas que tremem debaixo dos olhos" [H. H.]

Eis o ano em que a Blogosfera lusa respirou, deu fôlego à vida e um cacete ao tédio da crise. Desnudou-se de palavras piedosas, intervalou o choro desvalido da populaça, tirou a espuma do canto da boca dos colunistas e das putas intelectuais, inspirou outros caminhos. Restabeleceu o gozo da leitura pública, pôs escrita em forma de voz, tornou-se recomendável. Já tem filhos que fazem um barulho bom. Urgente! Em remansos de paz elevou-se à quasi perfeição. Teve momentos de glória, de lisonjas, de autoridade. Tudo para "desengaçar a alegria do chato amável mundo", como diria Assis Pacheco.

Cabe, aqui, tal como em ano anterior, fazer o seu inventário, para que o mérito não fique distraído e a maternidade tenha sentido. A sedução dos espíritos inquietos é o nosso fadário. O nosso apostolado. Consultámos a listagem, acolá na coluna à esquerda e de muita estimação, e ordenámos os nossos blogs de acordo com os critérios anteriormente considerados. Estabelecemos uma natural limitação de este ter sido um ano de intensa politização, daí que aqueles, mais criativos, que adensaram a atmosfera apareçam em segundo posicionamento. Tivemos, ainda, em devida conta a dimensão dos jogos estéticos manifestados ou os templates que as mãos criaram. Em nosso louvor.

Resta dizer que o nosso coração ficou suspenso no silêncio da Janela Indiscreta, um dos blogs mais interessantes e luminosos, que nos abandonou este 2004.
A escolha foi a que se segue:

1. Abrupto
2. Barnabé / Grande Loja / Blasfémias / Bloguitica / Causa Nossa / Mar Salgado / Portugal dos Pequeninos / Tugir
3. Rua da Judiaria / A Montanha Mágica / Um Blog Sobre Kleist / Gávea / Indústrias Culturais / A Forma do Jazz / Universos Desfeitos
4. Sous les Pavés, la Plage / A Natureza do Mal / Red Series / Avatares de um Desejo / A Memória Inventada / Quartzo Feldspato Mica / Thelma & Louise / Welcome to Elsinore / Fora do Mundo
5. Aviz / Blog de Esquerda / Terras do Nunca / Fórum Comunitário
6. There's Only Alice / Absurdo Ponto / Silêncio Digital / Os Espelhos Velados / Intervenções Sonoras / Last Tapes
7. Voz do Deserto / Quarta República / Contra a Corrente / Abnoxio
8. Bomba Inteligente / Desassossegada / Diotima / Sôfrega
9. Álbum Figueirense / Arqueoblogo / Cartas Portuguesas / Dias com Árvores
10. À Beira-Mar / Amicus Ficaria / Estarreja Efervescente / AveiroLx


Os Melhores Blogs de Autores Estrangeiros de 2004

1. Alexandre Soares Filho
2. Letteri Café / Hotel Céline / Giornale Nuovo
3. Andrew Sullivan / Body and Soul / Instapundit / The Rittenhouse Review
4. Arts & Letters Daily / Wood S Lot / Suburbana / Paulinho Assunção / O Expressionista / Pura Goiaba / Romanzieri
5. Prosa Caótica / Sub Rosa / Asakhira / La Letra sin Sangre / Mysterium
6. Incomimg Signals / Vigna-Marú / Wimbledon / The Black Blog / Life in the Present / Bookslut / Plep
7. Bibi Fonfon / Neurastenia / Dudi / Cipango /
8. Art Nudes / DeFocused / GmtPlus9
9. Largehearted Boy / King Blind / Chromewaves /
10. The Agonist / Talking Points Memo



2005 & exercícios textuais de fim d'ano

"Os homens, tendo podido curar-se da morte, da miséria, da ignorância, lembraram-se, para se tornarem felizes, de não pensar nisso. Foi tudo quanto inventaram para se consolarem de tão poucos males. Consolação riquíssima. Não se dirige a curar o mal. Esconde-o por um pouco. Escondendo-o, faz com que se pense em curá-lo. Por um legítima desordem da natureza do homem, não se acha que o tédio, que é o seu mal mais sensível, seja o seu maior bem. Pode contribuir mais do que qualquer outra coisa para lhe fazer procurar a sua cura. Eis tudo ..." [Lautréamont, in Contos de Maldoror]

"Não me venham com teorias, estou farto. Acontecimentos, seres, objectos, lugares. A coluna vertebral disto tudo. A posição vertical! - eis o que parece justo (...) Dormimos ou estamos acordados, conforme a escolha..." [H.H.]

"É inegável que somos europeus, e até podemos avançar que se fala de nós lá fora como um povo civilizado, desde que (...) Portugal ocupou um lugar honroso (...)
Caminhamos airosamente na via láctea do progresso, porque as estradas cá em baixo o mais que podem é pôr-nos em contacto com o progresso dos antípodas por meio dos abismos insondáveis que o macadame aperfeiçoou (...)
Temos tudo quanto podem ambicionar os netos daqueles que civilizaram mundos novos. Só nos falta - diga-se a verdade sem presunção - falta-nos uma pequena coisa, que faça os homens bons: falta-nos a virtude e a moral; falta-nos o respeito à lei, e a lei que deva respeitar-se; falta-nos esse quase nada que faz um povo de traficantes e de corruptos uma sociedade de irmãos e de amigos ..." [Camilo C. Branco, in Dispersos]

"Portugal precisa de um indisciplinador. (...) Trabalhemos (...) por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa. Escrupulisemos no doentio e no dissolvente. E a nossa missão, a par de ser a mais civilizada e a mais moderna, será também a mais moral e a mais patriótica. [F. P.]

Sexta-feira, Dezembro 31, 2004





10 Livros Portugueses de 2004 [colab. Bibliomanias]

1. Ou o Poema Contínuo, reed. (Herberto Helder, Assírio & Alvim)
2. Poesias Escolhidas (Pedro Homem de Melo, ASA)
3. Eu Hei-de Amar uma Pedra (António Lobo Antunes, Dom Quixote)
4. A Bíblia dos Jerónimos (Estudos de Martim de Albuquerque & Arnaldo Pinto Cardoso, fotografia de Massimo Listri, Bertrand & FMR)
5. Grécia Revisitada (Frederico Lourenço, Cotovia)
6. Uma Coisa em Forma de Assim, reed. (Alexandre O'Neill, Assírio & Alvim)
7. Repercussão (Gastão Cruz, Assírio & Alvim)
8. As Farpas de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão (cord. M.F.Monica, Principia)
9. O Gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios (Eduardo Lourenço, Gradiva)
10. Biblioteca (Gonçalo M. Tavares, Campo das Letras)





10 Livros de Autores Estrangeiros de 2004 [colab. Bibliomanias]

1. O Único e a sua Propriedade (Max Stirner, trad. João Barrento, Antígona)
2. Poesia (Eugénio Montale, Assírio & Alvim)
3. Budapeste (Chico Buarque, Dom Quixote)
4. Michael Koolhaas, o Rebelde (Heinrich von Kleist, Antígona)
5. Catalogues de la collection d'estampes de Jean V, roi de Portugal, III vols (FCG e BNF)
6. Janelas Altas (Philip Larkin, Cotovia)
7. Eu:seis inconferências (e. e. Cummings, Assírio & Alvim)
8. Contos Completos, vol I (Nathaniel Hawthorne, Cavalo de Ferro)
9. Austerlitz (W. G. Sebald, Teorema)
10. Sobre a Industria da Cultura (Theodor W. Adorno, Angelus Novus)





10 Álbuns de 2004

1. You Are The Quarry - Morrissey
2. The Delivery Man - Elvis Costello & The Imposters
3. Franz Ferdinand - Franz Ferdinand
4. "i" - The Magnetic Fields
5. Seven Steps: The Complete Columbia Recordings of Miles Davis, 1963?1964
6. Medúlla - Björk
7. Absent Friends - The Divine Comedy
8. Real Gone - Tom Waits
9. Riot on an Empty Street - Kings of Convenience
10. Resistir é Vencer - José Mário Branco

Quinta-feira, Dezembro 30, 2004



Dança de cadeiras

"Os partidos correspondem ao estado da nação. Fazem-me lembrar um homem que numa feira vendia vinho e vinagre, da mesma pipa. O vinho saía por um lado, e o vinagre por outro. A droga era a mesma. É o que acontece com a política dos nossos partidos: é igual e sai da mesma pipa. Só as torneiras é que são diversas ..."

[Guerra Junqueiro, citado por Bordalo Pinheiro in Pontos nos ii, aliás, in Guerra Junqueiro, por Lopes d'Oliveira, vol II, ed. Excelsior]

A lista dos putativos candidatos ao cadeiral de S. Bento é trabalho de uma chateza emotiva, mas revigorante. Quando se avista Luís Filipe Menezes a descer o escadório do Bom Jesus de Braga, sob os aplausos da ralé, a profanação é soberba. O frenético edil de Gaia não se machuca, nunca tropeça, não repousa. Ei-lo a contorcer-se de vaidade na ribeira de Gaia, no faccis um olhar vesgo à procura de Rui Rio. Enquanto isso, Zita Seabra, em delírio de gula política, prepara-se para atacar uns salmonetes e castigar uns doces de laranja, lá para os lados de Setúbal. A coisa vai de promessa ou não arribasse a Castelo-Branco o terrífico boxeur Morais Sarmento, a carpir saudades da juventude on the road. Enquanto muitos olham para as poltronas das suas ambições políticas, o genial camarada Lima, ex-João Carlos Espada, seguindo antiquíssima paixão, tricota mais um programa eleitoral, desta vez sob a silhueta do liberal Santana Lopes. E o brasileiro do costume, um tal Jacome da Paz, desenha a produção laranja. Lá vai a onda tsunamizar por aí.

A resposta rosa não se faz esperar. Com vigor furtivo, o inefável Pina Moura ficará retido na cidade da Guarda, organizando palestras em catadupa. O laureado electricista espanhol é um compêndio escolar que muito irá instruir os indígenas locais, avaros da coisa económica. Na sua estância costumeira, Lisboa, Jaime Gama declara que não irá satirizar para a Bica do Sapato, enquanto confessa que tem ideias vigorosas e estimadas sobre tudo e está pronto para a acção. A peça não fica composta sem a graciosidade intelectual de Miranda Calha, em terras de Portalegre, o perfume espiritual de José Junqueiro em Viseu e, principalmente, sem a presença discreta de Alberto Costa, agora deslumbrado em terras do Rio Liz. A tudo isto se chama evolução e elegância socrática. Já vimos o filme.



Susan Sontag [1933-2004]

"Photographs are perhaps the most mysterious of all the objects that make up, and thicken, the environment we recognize as modern. Photographs really are experience captured, and the camera is the ideal arm of consciousness in its acquisitive mood." [ler]

"Não seria errado falar de pessoas que têm uma compulsão por fotografar: transformar a experiência em si num modo de ver. Por fim, ter uma experiência se torna idêntico a tirar uma foto, e participar de um evento público tende, cada vez mais, a equivaler a olhar para ele, em forma fotografada. Mallarmé, o mais lógico dos estetas do século XIX, disse que tudo no mundo existe para terminar num livro. Hoje, tudo existe para terminar numa foto"

Algumas obras: Against Interpretation and Other Essays (1966) / Death Kit (1967) / Styles of Radical Will (1969) / On Photography (1977) [Ensaios sobre Fotografia, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1986] / Illness as Metaphor (1978) / I, Etcetera (1978) / Under the Sign of Saturn (1982) / AIDS and Its Metaphors (1989) / The Volcano Lover (1992) / In América (2000) / Regarding the Pain of Others (2003)

Locais: The Susan Sontag Archive / A morte sob o signo de Saturno / Susan Sontag / Listen to the Susan Sontag interview with Don Swaim, 1992 / On Photography (Excerpt) / A fotografia enquanto representação da dor / Interview with Susan Sontag / A minha América é o Império (Entrevista) / Notes On "Camp" by Susan Sontag / A Arte de Escrever com Luz: memória, fotografia e ficção