quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

OES MELHORES BLOGS PORTUGUESES | ESTRANGEIROS DE 2003


"As únicas coisas belas são as que a loucura dita e que a razão escreve" [Gide]

Temos este fado: registar, apreciar, catalogar, ordenar. Aprendemos os (per)cursos das coisas perenes, a doçura desta morada, factos, caminhos e rostos ... que são os da vida. Estamos decididamente prendados. É verdade. O nosso olhar sobre o fenómeno da blogosfera passa, naturalmente, pela sua avaliação. Somos, de facto, prudentes. Nesta apatia cultural que é a vida portuguesa a cair de sono, sabe bem o refúgio em leituras mil, orgulhosamente tempestuosas, delicadamente suaves. A blogosfera permite perseguir a palavra, inscrever a vertigem. Tudo nos encanta neste jardim celestial. A listagem da coluna da esquerda (sempre!) aí está para a douta prova. Aqui chegados, partimos para uma outra ordenação. A nossa proposta tem em conta critérios vários, a saber: o espaço temporal da participação do blog; o conteúdo que nos estimulou a "libido"; o construído estético, enquanto lugar de corporalidade textual; a "moral de prazer" do(s) diferente(s) sujeito(s); a interacção com os leitores e outros "criadores de circunstâncias"; a procura de uma (possível) especialização temática; linkagens e outros interstícios; cumplicidade afectiva e relacional. Não apreciámos, com pesar nosso, os blogs Coluna Infame, A Carta Roubada e a Formiga de Langton, dado terem terminado. De outro modo, ensaiámos agrupar blogs com os critérios considerados, por nós, do mesmo teor performativo. Registe-se na posição décima, um conjunto (pequeno) de blogs de características locais, que antecedem a próxima "explosão" da blogosfera lusitana. Não apresentamos qualquer fundamentação para a ordenação feita. Seria fastidioso tal, sendo conveniente referir, porém, que não seguimos altares iluminados ou iluminantes, mas tão só percorremos os critérios estabelecidos e ponderámos os blogs que conhecíamos. Mesmo sabendo que era muitíssimo pouco.

Eis, pois, os Melhores Blogs Portugueses de 2003 ou de companhia; assim se dizem coisas importantes, apaixonadas umas, ardilosas outras, deslumbrantes todas. De vós este é o fruto. Dos ausentes que a palidez os não atraiçoem. Amem!

1. Abrupto
2. Aviz
3. Janela Indiscreta / A Montanha Mágica / Um Blog Sobre Kleist
4. Blog de Esquerda / Homem a Dias / Dicionário do Diabo / Flor de Obsessão
5. Terras do Nunca / Barnabé / Mar Salgado / Mata Mouros / Grande Loja
6. Ângela Berlinde / There's Only Alice / Absurdo / Silêncio Digital
7. A Natureza do Mal / Klepsydra / A Memória Inventada / Rua da Judiaria
8. Reflexos de Azul Eléctrico / Latinista Ilustre / Miniscente
9. Avatares de um Desejo / Epiderme / Bomba Inteligente / Fumaças
10. Amicus Ficaria / Estarreja Efervescente / Poiares On Line / Estarreja Light

Os Melhores Blogs de Autores Estrangeiros de 2003

1. Letteri Café
2. Kafka em Belo Horizonte / Hotel Céline
3. Alexandre Soares Filho / Andrew Sullivan / The Agonist
4. The Cartoonist / Bibi Fonfon / Desnudas / Grafolalia
5. Prosa Caótica / Sub Rosa / Surrealismo dos Atos/ Mysterium
6. Esporas / Asakhira / DeFocused
7. Vigna-Marú /Giornale Nuovo / Un Que Passava
8. Beat Box/ Iconomy / Simon V / Disquiet
9. Marketing Hacker / Arts & Letters Daily
10. EconoBlog /Eschaton

terça-feira, 30 de dezembro de 2003

10 LIVROS PORTUGUESES DE 2003



1. Caderno de Caligraphia e Outros Poemas a Marga (Vitorino Nemésio, IN)
2. Respiração Assistida (Fernando Assis Pacheco, Assírio & Alvim)
3. A Boca na Cinza (Rui Nunes, Relógio d'Água)
4. Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo (António Lobo Antunes, Dom Quixote)
5. Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal (Fernando Pessoa, Assírio & Alvim)
6. Poesia / Dia do Mar / Coral / No Tempo Dividido / Mar Novo / O Cristo Cigano / Livro Sexto (Sophia Mello Breyner Andresen, Editorial Caminho)
7. Obra Completa de José Marmelo e Silva. Não Aceitei a Ortodoxia (Campo de Letras)
8. Conflito e Unidade no Neo-Realismo Português (António Pedro Pita, Campo de Letras)
9. Poesia da Presença (Adolfo Casais Monteiro, Cotovia)
10. Dicionário do Milénio Lusíada, vol. I (Manuel Gandra, Hugin)
  

10 Livros de Autores Estrangeiros de 2003 [colab. Bibliomanias]

1. Odisseia (Homero, trad. Frederico Lourenço, Cotovia)
2. Em Busca do Tempo Perdido (Marcel Proust, Relógio d'Água/ Círculo de Leitores)
3. Diário de Um Fescenino (Ruben Fonseca, Campo de Letras)
4. Pentesileia (Heinrich Von Kleist, Porto Editora)
5. Antologia da Poesia Anglo-Americana - De Chaucer a Dylan Thoma (Campo de Letras)
6. A Rainha do Sul (Arturo Pérez-Reverte, Asa)
7. A Douta Ignorância (Nicolau de Cusa, FCG)
8. Espinosa - Vida e Obra (Steven Nadler, Europa-América)
9. Winston Churchill - Uma Vida (Martin Gilbert, Bertrand)
10. Antologia Poética (Miguel de Unamuno, Assírio & Alvim)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2003

10 ÁLBUNS DE 2003

  

1. HoboSapiens - John Cale
2. North - Elvis Costello
3. Silver of Lead - Ursula Rucker
4. Mototronic - Ryuichi Sakamoto
5. Cuckooland - Robert Wyatt
6. Lead Us Not Into Temptation - David Byrne
7. The Mess We Made - Matt Elliott
8. The Raven - Lou Reed
9. Three Street Worlds - Two Banks of Four
10. Miles Davis In Person: Friday Night at the Blackhawk

ALVES REDOL [1911-1969]




Nasce em Vila Franca de Xira, a 29 de Dezembro de 1911

"Os mortos esquecem. Na nossa lembrança o tempo amarelece os seus retratos, também a nossa lembrança morre. São as obras duráveis, ficam como marcos de um caminho percorrido, como sinais que fluem no correr dos dias: podem apagar-se lentamente ou ganhar amplitude, significado e alcance. Homenagear os mortos é ainda uma forma de existirmos, de sermos vivos, de testemunharmos a vida que afirmamos.
O retrato que temos de Alves Redol, tão presente, desenha-se nítido nos anos de um convívio de ideias, na partilha de entusiasmos, de desgostos, de alegrias, de desesperos e, sempre, de certas e comuns esperanças. Podemos ler uma por uma as rugas do seu rosto, seguir as que a amargura vincou e as que nasceram do seu riso aberto, apontar as que forma cavadas pela preocupação e as que marcam uma firme e dura determinação. Somos capazes de ver nos seus olhos a imensa e humana ternura que os enchia e descobrir no fundo deles, como nos olhos de certos retratos de Gorki, o amargo limo das penas dos homens. Somos capazes de imaginar o gesto da mão que segura o cigarro, suspenso e sempre aceso no cliché, a apagá-lo, só fumado a meio, nervosa, no cinzeiro - essa mão de que sabemos o peso exacto quando fraterna se colocava no nosso ombro para ser amparo ou estimulo. A timidez que vemos no sorriso da sua boca ou o rictus que a fecha deixam-nos adivinhar o que ele disse ou, até, o que está pensando: o que talvez não merecesse a pena ficar gravado, coisas pequenas do dia a dia, triviais, e outras, expressão de um juízo meditado longamente, de uma opinião bem fundada, de uma afirmação categórica - como é na vida. Este retrato está nos nossos olhos, só os nossos olhos mortais podem vê-lo.
Um outro vai ser construído pelo tempo, pelos seus leitores futuros, que o encontrarão as paginas dos livros que escreveu, na imaginação física dos seus heróis, no perfil dos personagens que se vão amar e odiar, modelado nas situações vivas dos romances, temperado nas tragedias, nas alegrias, nas lutas, nas grandezas e misérias que descrevem. Essa será a sua verdadeira imagem, o seu retrato futuro.
Aos que hão-de vir deixou dito: «Vão encontrar belas coisas para fazer nessa altura, se o merecer, lembrem-se de mim»
Que o lembre quem mereça.

[Que o Lembre Quem Mereça, in Número Especial da Revista Vértice de Homenagem a Alves Redol, nº 322-23, 1970]

domingo, 28 de dezembro de 2003

OLAVO BILAC [1865-1918]






















Morre na Rio de Janeiro, a 28 de Dezembro de 1918


Locais: Olavo Bilac / Biografia / Olavo Bilac / Olavo Bilac / Poesias / Bilac em Dois Tempos / Antologia Poética / Poemas


"Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura;
Ouro nativo, que, na ganga impura,
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço e o teu aroma
De virgens selvas e de oceanos largos!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!"

[Olavo Bilac, Língua Portuguesa]

ASSOCIAÇÕES DE COIMBRA (XV)




* Choça 16 de Maio (1848) - O Conimbricense refere que "para comemorar a vitoria da revolução popular contra o Cabralismo", na cidade de Coimbra, reuniram-se frente ao Colégio Novo, na subida da Couraça dos Apóstolos, a Choça 16 de Maio. Era presidente, António Marciano de Azevedo (B. P. Sidney); 1º assist. Augusto Pinto Tavares, sendo Orad. Joaquim Martins de Carvalho. Uma reunião memorável foi feita ao cimo da Rua do Cego, com frente para a Calçada (hoje, Ferreira Borges), onde se discutiu, dando cumprimento às instruções da Alta Venda, qual a forma de governo que deveria ser adoptada em Portugal. Após debate intenso, ganhou a proposta de um Governo Republicano. No seguimento da perseguição ao local de reunião, a Polícia assaltou a casa, tendo a Choça se reorganizado sobre o título de Segredo, sendo seu presidente Joaquim Martins de Carvalho. [in, Conimbricense, 1905]

* Choça Fraternidade (1848) - Era seu Pres. Joaquim António de Freitas. As reuniões eram feitas nas casas do Correio Velho, Rua das Fangas (hoje, Fernandes Thomaz). De referir, que se transportou para o local um bilhar para encobrir as entradas dos seus membros. [ibidem]

* Choça Liberdade (1848) - O Pres. era José António dos Santos Neves Dória. Reuniam-se, alternadamente, com a Choça Fraternidade. [ibidem]

* Choça Segredo (1848) - Como se referiu, após a descoberta da Choça 16 de Maio, houve a reorganização da Choça para Segredo, sendo feitas as reuniões no edifício do antigo Convento de Santo Amaro dos Olivais, aproveitando as tardes de Domingo, a pretexto de passeio. Uma vez, reuniram-se no coro da Igreja de Santo António dos Olivais, dado ter a chave o dr. António José Rodrigues Vidal, e quase eram surpreendidos em plena reunião por José Joaquim da Rocha, que ia levar alguns homens a visitar a Igreja. [ibidem]

sábado, 27 de dezembro de 2003

ALFONSO REYES [1889-1959]




Morre na Cidade do México, a 27 de Dezembro de 1959

Alfonso Reyes nasceu em Monterrey (México), formado em Direito, foi ensaísta, tradutor, escritor e poeta, membro da Academia Mexicana, diplomata em França (interessa-se por Proust, Mallarmé, Montaigne), Espanha, Argentina (onde conhece Borges), Brasil (1930 a 1937), colabora no El Imperial e El Sol (Espanha), dirige a sessão de Bibliografia da Revista de Filologia Espanhola, é director do Colégio de México (instituição de apoio aos exilados da Republica espanhola) , obtém o Premio Nacional das Letras.


"—Soy la Muerte— me dijo. No sabía
que tan estrechamente me cercara,
al punto de volcarme por la cara
su turbadora vaharada fría.
Ya no intento eludir su compañía:
mis pasos sigue, transparente y clara,
y desde entonces no me desampara
ni me deja de noche ni de día.
—¡Y pensar —confesé— que de mil modos
quise disimularte con apodos,
entre miedos y errores confundida!
«Más tienes de caricia que de pena.»
Eras alivio y te llamé cadena.
Eras la muerte y te llamé la vida.

[Visitación, in Obra Poética, 1952]

Locais: Alfonso Reyes / Alfonso Reyes / La Cena / Alfonso Reyes - Semblanza y Obra / Alfonso Reyes, anecdótico / Ifigenia cruel (fragmento) / Poemas / Conferencia Inaugural del Ateneo

ASSOCIAÇÕES DE COIMBRA (XIV)


* Alta Venda (1848) - O Conimbricense (18 de Julho de 1905) refere que "o General Joaquim Pereira Marinho, tendo recebido do estrangeiro autorização para poder estabelecer a Carbonária em Portugal, delegou poderes, em relação a Coimbra, no sr. Padre António de Jesus Maria da Costa (B. P. Ganganelli), para poder levantar choças em toda a parte onde julgasse conveniente regularizá-las, dirigi-las, uniformizá-las e relacioná-las entre si". Segundo os Estatutos da Carbonária Lusitana, existia três Câmaras: Alta Venda (Vendicta Coinimbricense), Barracas e Choças. O artgº 1º dos Estatutos rezava assim: «A Sociedade Carbonária é uma Ordem philantrophica, que tem por fim manter a verdadeira liberdade do paiz e o socorro mutuo dos seus consócios».

Em Coimbra, a 29 de Maio de 1848, deu-se inicio à Carbonária Lusitana, sendo eleito Sup. Cons. da Alta Venda, o referido Padre António Maria da Costa. A sua primeira reunião foi na Rua da Ilha. Além da Alta Venda, instalaram-se as Barracas: Egualdade e União; e as Choças, 16 de Maio (depois Segredo) e Fraternidade e Liberdade. Alguns dos carbonários iniciados foram, entre muitos: Abílio de Sá Roque (Robespierre), Adelino António das Neves e Mello (Napoleão), dr. António José Rodrigues Vidal (Odorico), dr. António Luiz de Sousa H. Secco (Cicoso), António Marciano de Azevedo (Sidney), Cassiano Tavares Cabral (Nuno Alvares Pereira), dr. Francisco Fernandes da Costa (Timon 2), João Gaspar Coelho (Archimedes), dr. João Lopes de Moraes (Dupont), José António dos Santos Neves Dória (Huffland), José de Gouveia Lucena Almeida Beltrão (Lamartine), dr. Raymundo Venâncio Rodrigues (Washington), etc. Aconteceu que em Outubro de 1848, reuniu-se a Alta Venda, na Quinta de Coselhas do Padre Maria da Costa, para eleições, tendo sido eleito Sup. Cons. o dr. Francisco Fernandes da Costa. Sucede que ficando "despeitado" o Padre Maria da Costa, entendeu guardar o livro da matricula e todos os documentos relativos à Carbonária, apesar dos esforços feitos para a entrega dos documentos, pelo que foi riscado do quadro da Ordem. Pelo que diz o Conimbricense, chegou a contar a Carbonária à volta de 500 membros, quase todos armados, dado até uma das condições de adesão à Ordem, ser "possuir os carbonários ocultamente uma arma com competente cadastro". [in, Conimbricense, 1905]

* Barraca Egualdade (1848) - Tinha por presidente o dr. António Rodrigues Vidal; secretário Joaquim Martins de Carvalho (B. P. Ledru Rollin) e por tesoureiro, o dr. José Gomes Ribeiro. A legenda desta Barraca era: Eripuit coelo fulmen sceptrumque tyrannus. Reuniam-se em diferentes locais e até uma noite se fez a reunião no Jardim Botânico, na casa da aula de Botânica, pegada à Estufa. [ibidem]

* Barraca União (1848) - Subordinada à Alta Venda, era presidida por Abílio Roque de Sá Barreto. [ibidem]

segunda-feira, 22 de dezembro de 2003

DEO GRACIAS



O Almocreve vai de saída. Após salutar descanso e pequenos trabalhos, espera vir mais prendado para fazer mandas aos profanos. Deo Gratias.

Felicidade e Boas Festas

"TEMOS AGORA UMA OUTRA ETERNIDADE..."



















"Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou ..."

[Fernando Pessoa]

domingo, 21 de dezembro de 2003

"DAS PETAS O ALMOCREVE ..."





















"Das Petas o Almocreve é obra tua.
Bem se vê, Daniel, na frase e gosto:
Adiça três de Abril ou seis de Agosto,
É de quem vende rimas pela rua..."

[Bocage, numa "farpa" a José Daniel Rodrigues da Costa, autor do Almocreve das Petas]

BARBOSA DU BOCAGE (MANUEL MARIA) [1765-1805]




Morre a 21 de Dezembro de 1805

"Quando completamos atentamente o retrato de Bocage (...) em que as feições estão vigorosamente acusadas: quando reparamos na testa espaçosa, em que a luz do estro parece circular ainda, e nos olhos azuis e rasgados, que tanto deviam cintilar quando a inspiração baixava, revela-se-nos o carácter do poeta e a índole do seu engenho, pelo exame de reflexão (...) Pela pálida tristeza das faces percebemos que o homem foi pouco ditoso: que o vate estremeceu com as sensações do orgulho e dos triunfos, e que, não se embriagando com as seduções das honras e da opulência, pagou o tributo que em todos os tempos tornou cruel ao génio a sua glória, embora o console depois a crença na justiça da posteridade (...)

Magro e trigueiro, de estatura mediana e curva, o corpo parecia pesado de mais para as extremidades: mas nesta constituição defeituosa havia contudo o que quer que fosse que o não deixava confundir. Os cabelos compridos desalinhados e o movimento maquinal dos dedos, aumentando-lhe a miúdo a desordem, eram outra feição natural dele. O sorriso pouco acudia a animar-lhe as faces macilentas. Melancólico até no meio das cenas de maior alegria, ainda conservava a tristeza no rosto e já o delírio tripudiava em torrentes de versos picantes e maliciosos."

[Luís A. Rebelo da Silva, in Memoria Biográfica e Literária acerca de Manuel Maria Barbosa du Bocage e ...]


"Magro, de olhos azues, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste da facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir n'um só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura,
De zelos infernaes lethal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) n'um só momento,
E sómente no altar amando os frades,

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Sahiram d'ele mesmo estas verdades
N'um dia em que se achou mais pachorrento.

[Bocage, Retrato Próprio, In Sonetos, 1915]

ASSOCIAÇÕES DE COIMBRA (XIII)


* Loja Philadelphia (1844) - O Conimbricense refere que a partir da revolução de 8 de Março de 1844, houve perseguição feroz contra ao mentores do partido progressista. Este partido entendeu criar um jornal para reagir às "prepotência da autoridade", tendo sido estabelecida a respectiva imprensa na Rua de Coruche, hoje Visconde da Luz, no edifício da Misericórdia, e a publicação saiu a 9 de Julho. Ora, em Junho estava instalada no mesmo edifício a Loja Philadelphia, de onde provinha a direcção do jornal. Coube a José de Castro Freire a incumbência de instalar a Loja em Coimbra. Pertenciam à Loja Maçónica, entre muitos, o Venerável, Dr. Agostinho de Moraes Pinto de Almeida (Ir. Sócrates), António José Duarte Nazareth (Ir. Camillo Desmoulins), Dr. António Luiz de Sousa Henriques Secco (Ir. Viriato), António Augusto Teixeira de Vasconcellos (Ir. O’Connell) e que era o orador, Padre António de Jesus Maria da Costa (Ir. Sieyés) como tesoureiro, Francisco Henriques de Sousa Secco (Ir. Giraldo), José Maria Dias Videira, Manoel Joaquim de Quintella Emauz, Dr. Joaquim Augusto Simões de Carvalho (Ir. Danton), Dr. Joaquim Júlio Pereira de Carvalho (Ir. Condorcet), Dr. José Teixeira de Queiroz (Ir. Aristides), Luiz Parada da Silva Leitão, José Henriques Secco de Sousa e Albuquerque (Ir. Diógenes), J. F. Mendonça Castello Branco (Ir. Washington), Abílio Roque de Sá Barreto (Ir. Lafayette), etc. Refira-se que o jornal se publicou até 24 de Setembro, dia em que foi suspenso pelas autoridades, tendo-se mudado para outra casa e sido retirados os objectos da Loja, levando-os para a Quinta que o Padre António de Jesus Maria da Costa tinha em Coselhas. As reuniões da Loja faziam-se em casa do Padre António, em Coimbra, na Calçada, hoje Rua Ferreira Borges, com entrada pelo Arco de Almedina. [in, Conimbricense, 1905]

* Associação Nova Especulação (1845) [ibidem]

* Sociedade do Theatro do Pateo da Inquisição (1846) [ibidem]

* Sociedade do Theatro da Rua do Norte (1847) [ibidem]

* Assembleia Académica de Coimbra (1848) – Antes Assembleia Philarmónica de Coimbra [ibidem]

* Assembleia Philarmónica de Coimbra (1848) – Pequeno teatro na Rua do Norte, pertencente ao Cabido. Como o espaço era demasiado pequeno, fundou-se outro no celeiro do mesmo Cabido à Sé Velha. Mais tarde conseguiram obter o espaço da Igreja de S. Cristóvão. [ibidem]

sábado, 20 de dezembro de 2003

"É TÃO DIFÍCIL ..."



É tão difícil guardar um rio
Sobretudo quando ele corre
dentro de nós

[Jorge de Sousa Braga, O Guarda-Rios]

ASSOCIAÇÕES DE COIMBRA (XII)


 
* Loja Segredo (1843) - O Conimbricense refere, que no ano lectivo de 1983/84, Luiz Carlos Pereira, estudante do 3º ano de Direito, fundou em Coimbra, uma Loja Maçónica, a que foi dado o nome de Segredo e de que ele foi Venerável. As reuniões faziam-se na primeira casa no princípio da Rua das Fangas, depois Fernandes Thomaz. A Loja estava arredada completamente da política e funcionava como apoio a estudantes e pessoas "que se achassem desvalidas". Quase todos os Ir. eram académicos, e habitantes da cidade eram apenas três. O litografo Luiz Augusto de Parada e Silva Leitão, foi quem abriu o selo da Loja e quem litografou em cetim branco os diplomas dos Ir.. A revolução de 8 de Março de 1844 fez terminar a Loja. [in, Conimbricense, 1905]


* Sociedade de Alegre Viver (1844) – Foi fundada por quatro rapazes, todos estudantes: António Fernandes Thomaz (direito), Jacintho Alberto Pereira de Carvalho (medecina), José Adolpho Trony (direito e lente, posteriormente), José Maurício de Carvalho (direito e teologia), Ricardo José Pimentel Baptista, José Ildefonso Pereira Carvalho, Daniel da Veiga Saraiva e Augusto Ernesto de Castilho e Mello. [ibidem]

* Assemblea Philarmonica de Coimbra (1844) [ibidem]

* Caixa Económica de Coimbra (1844) [ibidem]

CATÁLOGO Nº17 DE LUÍS P. BURNAY


Saiu o Catálogo nº 17, de Luís Burnay, Calçada do Combro, 43-47, Lisboa, com algumas curiosidades e obras estimadas.

Algumas referências: Nobiliário de Famílias de Portugal, por Felgueiras Gaio, Braga, 1938-42, de 13 vols (raro) / Terra Portuguesa, Revista ilustrada de Arqueologia artística e etnográfica, dir. Vergílio Correia, 1916-27, 7 vols / Poesias de Manuel Maria de Barbosa du Bocage, 1853, 6 vols / Actas das Sessões da Câmara dos Deputados na 1º legislatura depois da promulgação da Constituição Politica da Monarchia Portugueza, 1939 / Almanak Portuguez para 1852, s/ direcção de M. M. de S. Bruschy, 1851 (raro) / As Orações a Israel, de Moses Bensabat Amzalak, 1927 / Arquivo do Distrito de Aveiro: Índice Alfabético dos Autores, Aveiro, 1992 / Israel: notas várias, por Adolfo Benarus, Lisboa, 1924 (curioso censo da população judia espalhada pelo mundo, historia, tradições e espírito do judaísmo) / Boletim Oficial do Grande Oriente Lusitano – Supremo Conselho da Maçonaria Portugueza, Nov. 1906 / Vários opúsculos sobre a polémica Bom Senso e Bom Gosto / Tratado da Agrimensura, no qual se propõe o Preciso para hum medidor de campos, de Cabral Estêvão, 1795 (raro) / Discurso pronunciado na Câmara Electiva em sessão de 23 de Março de 1850 sobre o projecto de Lei repressivo dos abusos de Liberdade de Imprensa pelo Presidente de Legislação ... José Bernardo da Silva Cabral, Lisboa, 1850 (raro) / A Questão Académica de 1907, por Natália Correia / Topónimos e Gentílicos, de I. Xavier Fernandes, Porto, 1941, II vols / A Rebolação: resposta ao folheto "A Reacção" do sr. Brito Camacho, por Frey Gil (aliás pseud. de Artur Bívar), 1932 (raro) / Grande Oriente Lusitano Unido – Supremo Conselho da Maçonaria Portugueza: Rito Escocês Antigo e Aceito para Portugal e Colónias, 1920 / Alma Errante, poesia de Eliezer Kamenezly, c/ pref. de Fernando Pessoa, 1932 / A Bomba Explosiva: depoimentos de diversos revolucionários (28 de Jan. 1908 a 5 Outubro 1910), por José Maria Nunes, 1912 (rara obra sobre os movimentos revolucionários) / Exordio em prol da filantropia & educação física (paginas desconhecidas), por Fernando Pessoa, Porto, Edição Petrus / Vinho de Pasto, por Batalha Reis (vinicultura), 1894 / Ritual do Gr. de Ap. do Rito Francez ou Moderno, GOLU, 1909 / O Couto de Aguim: subsídios para a sua historia, Anadia, 1959 (monografia estimada) / Escriptos Diversos, por Augusto Filipe Simões, Coimbra, 1888

sexta-feira, 19 de dezembro de 2003

ALEXANDRE O'NEILL [1924-1986]






















Nasce em Lisboa, a 19 de Dezembro de 1924

"O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angustia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omite-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada …)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse ..."

[Alexandre O'Neill, Auto-Retrato]

OS FILHOS DO "DELGADO"



"Cada gota de saliva que se liberta da conversação transforma-se em ouro" [Tristan Tzara]

Vão, rapazes! Que está o Luís Delgado na T.V. a esclarecer os indígenas lusitanos. Reparai na boca fina e piedosa do comentarista, mesmo quando o esgar urbano e respeitável o martiriza e o traço maledicente se manifesta. Estais de orelhas atentas, sabemos bem. Vós, a quem a felonia nunca incomodou, pois tendes razões secretas que a recita conservadora vos enterneceu e a gravidade democrática vos perturba, estais esta semana excessivamente sentimental. O Delgado, entre o tédio do défice e o riso ministerial, fez-vos partir à desfilada contra os fantasmas costumeiros. Espevitem bem as orelhas que o Bolo-Rei, desta semana, saiu no Iraque. Estava alapado numa toca qualquer, algures, no assombroso triângulo sunita. O mesmo onde vocês, bravos combatentes de sofá, outrora caminharam civilizacionalmente contra os tenebrosos xiitas, os infames curdos, os demónios iranianos, os pérfidos comunistas iraquianos. Com a mão no peito pela Humanidade, com a América por generosidade, pela Europa por determinação, por todos nós. Graças Senhor nessa Santa Hora. E graças, ainda, pelo Bolo-Rei oferta Bush para todos os guerreiros da imaculada cruzada neoconservadora, nesta quadra natalícia. Abri os vossos portáteis e postai.

Postai até que o torpor da volúpia, as comoções da vertigem do fim-de-semana, o espectro daquele homem-de-barbas vos ensine que "sobre o mais belo trono do mundo nunca se sentou senão um rabo" [bem nos dizia Montaigne].

ASSOCIAÇÕES DE COIMBRA (XI)



* Loja Restauração (1842) - O Conimbricense refere, que posteriormente à restauração da Carta Constitucional, em 27 de Janeiro de 1842, a maçonaria em Coimbra representante do partido Cartista, "viu-se triunfante, tendo por si o apoio do governo". Ora o administrador geral do distrito, José Maria Cardoso Castello Branco foi substituído pelo Visconde da Graciosa, e posteriormente, por decreto de 8 de Outubro, foi nomeado Governador Civil, António de Oliveira Lopes Branco.

Diz o Conimbricense que uma das coisas que teve em vista foi reorganizar a maçonaria na cidade e em todo o distrito, lançando mão nos elementos da Loja maçónica do Arco da Almedina, fundando uma outra. Assim, foi na casa onde outrora foi refeitório dos frades (no Claustro do Pilar) de Santa Cruz que se estabeleceu a Loja Restauração, nº 27 ao Or. de Coimbra. Pertenciam um grande número de pessoas, não só da cidade, mas quase todos os administradores do concelho e do distrito, párocos e regedores. É referido uma ocasião onde foi iniciado um "cavalheiro do concelho de Anadia", em que estava presentes 150 Ir., vindos dos diferentes concelhos, seguido de um "magnifico banquete". C

Como Lopes Branco foi eleito deputado, pelo colégio eleitoral do Douro, ficou Venerável da Loja, José António de Amorim. Curiosamente, o deputado Lopes Branco tendo passado da maioria para a oposição, dirigiu de Lisboa para Coimbra, e à Loja Restauração, uma prancha com "o fim de a fazer passar para a oposição". Após reunião, a Loja deliberou que como Lopes Branco não a tinha consultado para passar para a oposição, esta não se obrigava a segui-lo na sua carreira política. Depois da remessa da prancha da Loja para Lopes Branco, este aparece em Coimbra anunciando a necessidade de convocação da Loja. Sabedores de tal facto, vários elementos da Loja dirigiram-se à casa da Loja, desmancharam tudo e fizeram "abater colunas", impossibilitando Lopes Branco de fazer a projectada reunião. Desde então a Loja nunca mais funcionou. [in, Conimbricense, 1905]

* Sociedade de Socorros Mútuos (1843) [ibidem]

* Sociedade Philarmonica Conimbricense (1843) [ibidem]

quinta-feira, 18 de dezembro de 2003

ROBERT BRESSON [1901-1999]



Morre a 18 de Dezembro de 1999

"Filmar é compreender, mas compreender não no sentido de explicar ... No sentido de amar, de provar" [RB]

"La cinématographie est une écriture en mouvement avec des images et des sons. Si l'on tient à trouver une analogie, il faut chercher du côté de la musique et non du côté de la peinture car on aboutirait à la carte postale." [RB, in Le Figaro - 6 Mai 1983]


Locais: Robert Bresson / Robert Bresson / Robert Bresson 1901-1999 / Filmography / Robert Bresson: Depth Behind Simplicity / El cine Robert Bresson, una escritura de pies a cabeza

"LAICIDADE" E "FÁBRICA DE VÉUS"





"O corpo desenha o espaço como a água desenha o vaso" [El-Hakim]

A posta de André Belo, pelos considerandos aí referidos, sobre o comprometimento do Estado na defesa da laicidade da Escola, sugere curtas anotações, a saber:

- é possível que a noção de "laicidade", lugar central no discurso mass-mediático francês, seja objecto cientificamente re-analisável, no seguimento do que Edgar Morin assume pelo aparente contraditório entre "laicidade", "doutrinarismo" e "democracia". É, porém, razoável que no termo "laicidade" se encontre lugar para uma pratica contra o totalitarismo, o dogmatismo ou o monopolitismo da verdade. Como conciliar, tudo isso, no território e cultura escolar, aberto e plural, eis a questão que André Belo questiona.

- o espaço escolar é atravessado, sabe-se, por processos sociais, políticos e simbólicos que se ramificam no campo discursivo do poder. Isto é, a Escola é encruzilhada de diferentes discursos verbais e não verbais, "mercado" alucinante de signos-mercadorias, afloração de saberes, ambiente de aprendizagem activa, lugar de escolha e clarificação de valores e comportamentos, espaço privilegiado da produção e reprodução social. Estamos disso crentes. Assim entendida, sabemos que a Escola se estrutura a partir de regras formais (além de outras), dando lugar a um "locus de reprodução e produção normativa", consubstanciada numa cultura de identidade assente em realidades não homogéneas (evidentemente), mesmo que a dissidência seja esse espaço de cumplicidade ou percurso de todos os afectos e seduções.

- o espírito da "laicidade" pretende, a partir de um conjunto de regras comuns mínimas, estabelecer um espaço "conversável" no tecido escolar, afinal garantia de liberdade, e portanto, um espaço "protegido" pelo Estado, para além do direito à diferença que na esfera privada se reconhece. Não se trata de dar lugar a um qualquer guetto, mas tão só assumir que a "laicidade" contribui para a nossa liberdade, até pelo sentido que, se se permitisse que as regras fossem estabelecidas pelo diversos clientes escolares porquê então a aprendizagem? Que lugar do pedagógico como "trabalho" de compreensão e aceitação da diversidade e do multiculturalismo?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2003

PARACELSO [1493-1541]


 
Paracelso [1493 - 1541]

Nasce em Einsiedeln (Suiça), a 17 de Dezembro de 1493

"Embora a historia conhecida da filosofia hermética remonte aos primeiros séculos da era cristã, cabendo à tradição mágica, gnóstica e alquímica um papel de relevo (...) pode dizer-se que a historia da medicina hermética se desenvolve sobretudo a partir de Paracelso e dos inúmeros paracelsistas que proliferaram na Europa do seculo XVI e XVII. Ao contrário do que se possa julgar, em Portugal não se vivia alheado destas novas correntes.

Já a Pedro Hispano, o Papa João XXI são atribuídos inúmeros tratados herméticos, entre eles o Tractatus mirabilis aquarum ... onde se descreve a agua de vida, o elixir dos alquimistas [A Maria Helena Rocha Vieira se deve o estudo da obra medica de Pedro Hispano ...]. E na «Rellação» da livraria de Frei Vicente Nogueira (1586-1654), confiscada pela Inquisição, descobrem-se, entre muitos tratados as obras de Paracelso, o que demonstra a sua circulação entre nós (...)

A alquimia oferece um corpo doutrinal específico, que não pode deixar de ser do agrado do homem renascentista. Nascida, como diz Festugière, da pratica egípcia da ourivesaria e da filosofia grega de Platão, misturada com sonhos e visões místicas, revelam-se nela três fases sucessivas: alquimia como arte, alquimia como filosofia, alquimia como religião ..."

[Yvettte K. Centeno, in "Madeira Arraes e o Vitríolo dos Filósofos", prefácio-apresentação de "Tratado dos Óleos de Enxofre, Vitríolo, Philosophorum, Alecrim, Salva, e da Água Ardente" de Duarte Madeira Arraes, Edições Salamandra, 1993]

Locais: Biografie di alchimisti / A Rosa de Paracelso (Jorge Luis Borges) / Paracelso - Sabedoria, Presunção e Misticismo / O Movimento Rosacruciano No Tempo de Damião de Góis / O discurso alquímico: um imanentismo transcendente? (José Augusto Mourão) / Subsídio para o Catálogo da Tratadística Antiga ... (Manuel Gandra) / Alquimia em Portugal (Manuel Gandra) / V Colóquio Internacional "Discursos e Praticas Alquímicas"

domingo, 14 de dezembro de 2003

«MORAIS SARMENTO, C'EST MOI»



"Além de ministro já ninguém quer ir
Aquém de ministro já ninguém quer estar.
" [Pedro Oom]

Esta semana, o extraordinário Morais Sarmento deu um colossal uppercut no Código Cooperativo, maltratando vários artigos e, num assomo de cérebro em fogo, teve tempo de aplicar um golpe de olhos fechados (apoiado majority draw pela governação) à Fundação Espírito Santo, Fundação Calouste Gulbenkian e à Fundação de Serralves.

Pelo caminho ficaram estendidas várias outras Fundações invocadas no combate de retórica politica, pareceres do Instituto Cooperativo António Sérgio e da CNAVES. Sendo certo que o swing do Ministro não é de desprezar na chicana técnica-jurídica, acontece que, fora o Professor Marcelo (esta noite falará na TVI sobre o facto politico: «Aconteceu-me uma Fundação»), meia dúzia de taxistas de Lisboa, um sabido comentador de futebol, a minha funcionária a dias e os amigos do Bloco Central, todos num shadow boxing a celebrar o sapiência de experiência feita e iluminada de Morais Sarmento, na restante populaça ilustrada o mutismo foi total, exemplar. Contrariamente, pois, aos que prescrevem melhor protagonismo explicativo das politicas governativas, bastou alguém aparecer - braço dado com antigos inquilinos do Bloco Central - dizendo: «Morais Sarmento c’est moi», para todos meterem uma resma de Códigos "entre as pernas" e velozmente partirem (Ferro Rodrigues deu o Amem) para outro peditório político. Estamos conversados.

ASSOCIAÇÕES DE COIMBRA (X)


Associações de Coimbra (X)

Loja Maçónica Cartista (1837) - O Conimbricense refere que "Quinta de Revelles, que pertencera ao Mosteiro de Santa Cruz foi estabelecida no ano de 1837 a Loja Maçónica Cartista", cujo Venerável era o dr. Vicente Ferrer Netto Paiva, tendo permanecido nesse local até 1939. Passaram a fazer as reuniões no Colégio dos Militares, onde antes funcionava a Loja Urbonia. Tinha três entradas, a porta principal, a de um beco próximo e a que "faz frente para o Colégio de S. Bento". Esta última, era a preferida, dado não terem vizinhos. Parece que numa ocasião, quando José da Silva Carvalho veio a Coimbra presidiu a uma reunião. De outro modo, foi nesta Loja iniciado o académico e oficial da Secretaria do Reino, José Joaquim Coelho de Campos. Passou a Loja, do Colégio dos Militares para o Arco de Almedina em Julho de 1840. "Abateu colunas" em 1841, mas posteriormente, quando o partido Cartista subiu ao poder, o Governador Civil Lopes Branco, alguns dos seus elementos fundaram a Loja Maçónica Restauração nº 27. [in, Conimbricense, 1905]

Sociedade de Theatro da Rua do Corpo de Deus (1838) [ibidem]

Loja Audácia (1938) – "De 1838 a 1839 deu-se princípio em uma casa da Rua da Alegria a uma Loja, que tomou o nome de Audácia". Em 1840 mudou-se para a extremidade da Rua da Sofia, para o Colégio de S. Pedro, mais conhecido por Colégio das Borras, onde então morava o sr. João António Marques do Amaral Guerra. Regularizou-se a Loja debaixo dos auspícios do Gr. Or. Lusitano, de que era Gr. M. o Barão de Vila Nova de Foscôa.

No ano de 1843, o Gr. Or. Lusitano tinha debaixo da sua direcção: Loja Rectidão, Amizade, Amor da Pátria, Vigilância, Desterro (todas em Lisboa); Loja Audácia (em Coimbra); Loja Decisão (Faro); Loja 3 de Julho (Portalegre); Loja 21 de Julho (Elvas); Loja Lealdade (em Goa); Loja Luz Africana (em Luanda). Funcionou a Loja Audácia em Coimbra, até Março de 1844. [ibidem]

Nova Academia Dramática (1838) [ibidem]

Companhia Exploradora das Pedras Litographicas em Coimbra (1839) – "O académico José Victorino Damásio, 4º ano de Filosofia, fundou uma colecção de minerais unicamente para se exercitar na prática das regras de classificação" [ibidem]

Instituto Dramático da Nova Academia Dramática de Coimbra (1839) [ibidem]

TEIXEIRA DE PASCOAES [1877-1952]


Morre a 14 de Dezembro de 1852

"Pois tudo, tudo há-de passar, enfim,
O homem, o próprio mundo passará,
Mas a Saudade é irmã da Eternidade
"

[TP, in Marânus]


"... a Saudade é (...) o amor carnal espiritualizado pela Dor ou o amor espiritual materializado pelo Desejo; é o casamento do Beijo com a Lágrima; é Vénus e a Virgem Maria numa só Mulher. É a síntese do Céu e da Terra; o ponto onde todas as forças cósmicas se cruzam; o centro do Universo: a alma da Natureza dentro da alma humana e a alma do homem dentro da alma da Natureza.

A Saudade é a personalidade eterna da nossa raça; a fisionomia característica, o corpo original com que ela há-de aparecer entre os outros Povos (...) A Saudade é a manhã de nevoeiro; a Primavera perpetua «a leda e triste madrugada» do soneto de Camões. É um estado de alma latente que amanhã será Consciência e Civilização Lusitana ..." [TP in Revista Águia, vol. I, 2ª série, Fev. 1912]

sábado, 13 de dezembro de 2003

JOÃO CÉSAR MONTEIRO


 
"Andar no cinema para ser contaminado por gravíssimos defeitos de carácter não é coisa que se faça a um velho católico e apostólico romano. Não acredito que se possam fazer bons filmes em pecado mortal e, por isso, espanta-me que a cólera do Senhor não se tenha ainda abatido sobre mim. É certo que o Senhor conhece a extrema pobreza em que vivo e, não obstante os caminhos da perdição seram infinitos, tem-me guiado certeiramente no exercício da minha arte."

[J. César Monteiro - in Morituri Te Salutant] [in Bibliomanias]

Homenagem d'A Atalanta Filmes a César Monteiro, "com exibição de todas as suas longas-metragens em Lisboa, no Cinema King, de 12 de Dezembro a 1 de Janeiro, e no Porto, no Cinema Nun'Álvares, de 2 a 8 de Janeiro". A não perder

GONZALO ROJAS


 
Gonzalo Rojas - Prémio Cervantes 2003

Gonzalo Rojas nasceu em Lebu (Chile) a 20 de Dezembro de 1917. Obteve este ano o Prémio Cervantes, instituído pelo Ministério da Cultura de Espanha, que antes tinha distinguido Jorge Guillén, Cabrera Infante, Camilo José Cela, Vargas Llosa, entre outros. Gonzalo Rojas frequentou direito e pedagogia, trabalhou como alfabetizador nas minas de Atacama, licenciado em Filologia Clássica, fez parte da Geração de 38, do grupo surrealista Mandrágora entre 1938-1941 (grupo fundado por Braulio Arenas, Teófilo Cid e Enrique Gómez Correa), é chefe da redacção da Revista Antártica (Santiago), foi professor de Teoria e Estética Literária na Universidade de Concepción - de onde foi exonerado, tendo no seguimento do golpe de Pinochet (em 1973, encontrava-se como embaixador em Havana) partido para o exílio, na Alemanha e Venezuela (trabalha na Universidade Simón Bolívar), regressando ao Chile em 1979, assumindo em 1991, de novo, a cátedra da mesma Universidade -, recebeu inúmeros prémios e distinções, entre as quais o Prémio Rainha Sofia (1992), Prémio Nacional de Cultura Chileno (1992), Premio Walt Whitman, Prémio Octavio Paz de Poesía e Ensaio (1998).

"Eléctricas, desnudas en el mármol ardiente que pasa de la piel a los vestidos,
turgentes, desafiantes, rápida marea,
pisan el mundo, pisan la estrella de la suerte con sus finos tacones
y germinan, germinan como plantas silvestres en la calle,
y echan su aroma duro verdemente
" [Gonzalo Rojas]


Obras
Locais: Biografia / Gonzalo Rojas / Gonzalo Rojas: letras no relâmpago / Gonzalo Rojas: una poética de restauración / El Oscuro y El Alumbrado / Cartas poéticas de Gonzalo Rojas

ASSOCIAÇÕES DE COIMBRA (IX)


Sociedade do Theatro de S. Boaventura (1836) - O Conimbricense refere a sua existência no antigo refeitório do Colégio de S. Boaventura, na Sofia [in, Conimbricense, 1905]

Academia Dramática (1836) - Teve lugar, com a chegada a Coimbra de uma companhia de ginástica (dirigida por Mr. Henriot), a construção de um teatro no refeitório do extinto Mosteiro de Santa Cruz, "onde esta agora a Associação de Artistas" [ibidem]

República do Carmo (1837) - Eis como era designado um grupo de estudantes que residiam no Colégio do Carmo, Rua da Sofia, que se tornaram conhecidos pela sua perversidades, com inúmeros espancamentos e, mesmo, mortes que a eles foram assacados. Consta que eram demasiado temidos, sendo referido a história seguinte: quando passavam pelo Quartel da Graça, onde ficava o Batalhão de Caçadores 3, e a sentinela lhes perguntava, «quem está aí?», invariavelmente respondiam: «A República do Carmo». E logo a sentinela os deixava passar. [ibidem]

Associação ou Companhia para o Fornecimento publico de pão e carne em Coimbra (1837) - Foi apresentada a proposta por José António Rodrigues Trovão. [ibidem]

quinta-feira, 11 de dezembro de 2003

QUEM NOS ROUBOU A ALMA?



[Quem nos roubou a alma?]

"Quem nos roubou a alma? Que bruxedo
De que magia incógnita e suprema
Nos enche as almas de dolência e medo
Nesta hora inútil, apagada e extrema?"

[Fernando Pessoa]

O NOSSO DESASSOSSEGO



"/ Tudo interstícios, / Tudo aproximações, / Tudo função do irregular e do absurdo, / Tudo nada. / É por isso que estou tonto ..." [Fernando Pessoa]

"Leve o diabo a vida, e a gente a tê-la" [Álvaro de Campos]

É muito possível que as coisas devam ser, sempre, assim. Que nos dias-ligados-a-dias sem dormir nocturno tudo se reduza, afinal, a este imenso cansaço, virtudes déspotas, mal-estar revolto, desassossego, agitação sem graça, venalidades, tudo numa intensa agitação em desvairadas linguagens, que nos desagua porta dentro, pateticamente.

A televisão, esse electrodoméstico, é a nossa desvelada fresta do mundo. Todos os dias nos lembra o dizer de Bernardo Soares: "não sei que sentido tem esta viagem que fui forçado a fazer, entre uma noite e outra noite, na companhia do universo inteiro”". Porém, somos espantosamente reincidentes.

Ficamos confundidos nessa mágica Barrosista, do trânsito da cooperativa Universidade Lusíada a fundação austera e de prometida estimação, que afinal é, unicamente, um genuíno desvario natalício oferecido aos seus amigos; temos brutais pensamentos quanto ao fado desse invulgar gestor Tavares Moreira, sem-abrigo em conselhos de administração durante sete anos, mas coagido a ser porta-voz e fechadura governamental, a contra-gosto; guardamos rancor aos defensores desse putativo candidato à agregação, que no acto recolheu bolas negras suficientes para lhe barrar o acesso à carreira docente e a uma vida decente, pois o receituário legislatório académico, evidentemente democrático, não atende tarefas de alegação e justificação de posições tomadas, que os lentes ainda por cá andam; suspiramos quando ouvimos a dança da economia, essa deusa das lamentações ou muro da Ferreira Leite, aonde todos os folgazões neocon, em engraxados défices, marcam o ritmo de tanto a moer, mas que os números (oh! sopro maldito) contradizem em pancadas surdas todos os trimestres; esfregamos as manápulas, gulosamente marialvas, quando Portas o Grão-Vizir confessa que bateu politicamente na Cruz Vermelha Soarista, que é bom desencorajar as artistas sagradas, enquanto examinamos com volúpia, de soslaio, as nossas patroas na cozinha.

Decididamente, não somos sonhadores, porque verdadeiramente o " sonhador é que é o homem de acção" [Bernardo Soares]. Nós, decididamente, mortos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2003

PIERRE LOUYS [1870-1925]



Pierre Louÿs [1870-1925]

Nasce em Paris, a 10 de Dezembro de 1870

"Pierre Louys é um misto de erotismo - de um erudito à margem e em conflito com a Universidade -, consagrando aturados trabalhos de investigação a «loucos literários» como Restif de la Bretonne, e de aventureiro da vasta sensação erótica que o não há-de deixar senão na morte. De famílias com pergaminho (...) é um finíssimo prosador e poeta que procurou, como ele próprio se definirá a propósito das suas perturbantes Canções de Bilitis, «por a viver de novo a Antiguidade».
Louys mostrou-se de facto um helenista espontâneo no cultivo do amor. No prefácio ao seu livro Afrodite, interroga ele: «... como se explica que, através da derrocada das ideias antigas, a grande sensualidade grega nimbe, como um raio de luz, as frontes mais elevadas? / É porque a sensualidade é a condição misteriosa, mas necessária e criadora, do desenvolvimento intelectual. / Aqueles que nunca sentiram até ao seu limite, para as amar ou para as maldizer, as exigências da carne, são por isso mesmo incapazes de compreender, em toda a sua extensão, as exigências do espírito ...»"

[Júlio Henriques, Pierre Louys, Obra Negra, in Manual de Civilidade para Meninas, de Pierre Louys, Fenda, 1988]

Conselhos a Um Amante

"Se quiseres que uma mulher te ame, ó meu jovem amigo, seja ela quem for, que a queres nunca lhe digas; faz porém com que todos os dias ela repare em ti, e depois desaparece, para voltares mais tarde.
Se ela te falar, sê apaixonado sem desvelo. Por si mesma a ti há-de chegar. Hás-de saber então tomá-la à força, no dia em que entender oferecer-se-te.
Quando em teu leito por fim a receberes, descura então o teu próprio prazer. As mãos duma mulher apaixonada são trémulas e sem carícias. Exime-as de serem diligentes.
Tu, porem, não te repouses. Prolonga os beijos até ao fim do fôlego. Não a deixes dormir, ainda que to rogue. E beija sempre a parte do seu corpo onde os seus olhos poisam.

[Pierre Louys - Conselhos a Um Amante, in As Canções de Bilitis, Fora do Texto, 1990]

terça-feira, 9 de dezembro de 2003

ALMEIDA GARRETT [1799-1854]




Morre a 9 de Dezembro de 1854

"Saudade! Gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho,
Que me estás repassando o intimo peito
Com dor que os seios d'alma dilacera,
- Mas dor que tem prazeres - Saudade
!"

[Nota da 2ª edição] " - Saudade, palavra, cuido que vem, por derivação obliqua, do latino solitudo. Obliqua digo, porque direitamente derivaram os nossos de solitudo, solidão, soidão, e depois soledade, soidade, finalmente saudade. De modo que, por esta síntese (ou pela analise que é obvia) se vem entender claramente que o verdadeiro sentido da saudade é - os sentimentos ou pensamentos da soledade ou solidão ou soidão; o desejo melancólico do que se acha na solidão, ausente, isolada de objectos porque suspira, amigos, amante, pais, filhos, etc - E tanto por saudade se deve entender este desejo de ausente e solitário, que os latinos, à mingua de mais próprio termo, o expressavam pelo seu desiderium:

Qui desiderio sit pudor aut modus
Tam chari capitis
?"

[Almeida Garrett, in Camões, 1824, aliás 9ª ed., 1904]

ASSOCIAÇÕES DE COIMBRA (VIII)


Sociedade do Theatro da Boavista (1829) - O Conimbricense diz, que "durante o governo de D. Miguel, houve representações na Quinta da Boavista, nos subúrbios da cidade, pertencente ao Sr. Manoel Barata de Lima Tovar". [in, Conimbricense, 1905]

Loja Maçónica Urbionia (1834) - Conta-se que depois da entrada do exército liberal em Coimbra (8 de Maio de 1834), o sub-prefeito da cidade foi José Narciso de Almeida e Amaral, sendo seu secretário D. João Corrêa de Portugal e Silveira, que frequentava o 4º ano de Leis. A secretaria foi estabelecida no Colégio dos Grilos. Ora, D. João de Portugal veio de Lisboa para Coimbra com a incumbência do Gr. Or. de fundar uma Loja. De facto, funcionou a Loja no Colégio do Carmo, Rua da Sofia, isto é numa "casa que tinha sido noviciado dos frades e que está na retaguarda do edifício junto à cerca". Foi aí que funcionou a G. Loja Prov. Urbionia, nº 100. Como curiosidade, refira-se que o venerável era D. João de Portugal (aluno do 4º ano de Leis) e um obreiro o próprio vice-reitor, dr. José Alexandre de Campos. Passou a Loja sucessivamente por vários locais, como: Colégio da Estrela; edifício velho das religiosas de Santa Clara; Colégio da Trindade; e a partir de 1836, chegaram-se a fazer reuniões da Loja nos próprios Paços da Universidade, na sala chamada do Docel, sendo venerável o vice-reitor dr. José Alexandre de Campos. [ibidem]

Sociedade do novo Theatro de Santa Cruz (1834) – Entre 1828 e 1834, a guerra civil fez cessar as representações na cidade. Depois da restauração do Governo Liberal, veio do Porto para Coimbra, em Outubro de 1834, a Companhia do actor Martins, e construiu-se um teatro nos baixos do antigo Mosteiro de Santa Cruz, junto da Igreja, lado Norte, sendo a entrada pelo adro da mesma igreja. [ibidem]

Assembleia Conimbricense (1834) – Destinada a um gabinete de leitura, a Associação Conimbricense mudou para Assembleia Conimbricense a partir de 1834, terminando em 1844 [ibidem]

Sociedade Conimbricense dos Amigos da Instrução (1834) – Tinha por fim promover a instrução na literatura, nas ciências e nas artes. [ibidem]

Sociedade de Beneficência para Asylos da Infância desvalida (1835) [ibidem]

domingo, 7 de dezembro de 2003

BLAS DE OTERO




















 
Pelas pontes de Zamora,
só e lenta, ia a minha alma.

Não pela ponte de ferro,
a de pedra é que eu amava.

Ora olhava para o céu,
ora olhava para a água.

Pelas pontes de Zamora,
lenta e só, ia a minha alma.

[Blas de Otero, in Canção]

IRMANDADE DOS SENHORES DO DÉFICE


"O leitor deve preparar-se para assistir às mais sinistras cenas" [E. Sue, in Os Mistérios de Paris, citado por Pérez-Reverte, O Clube Dumas]

Plano fixo: Sala com pouca gente. Conversam em grupos. A câmara desliza em seu redor, detendo-se nos rostos. De repente, o ruído de vozes baixa de tom, ouvem-se fortes passadas no soalho, um bater de porta metálico. A sala fica vazia. O silêncio é total. A câmara avança rapidamente e detém-se, fixando X, imóvel sob uma janela de ferro. X surge em primeiro plano, ar angustiado, olhar atento. A câmara executa um movimento de rotação. A silhueta escondida salta para o sobrado, cautelosamente, avançando na direcção de uma larga mesa. O seu movimento é regular, movendo-se com decisão. O plano recomeça, mostrando jornais, papéis misturados com fotos e mais papéis, que se encontram espalhados sobre a velha mesa. A câmara aproxima-se e faz ver: um artigo do jornal O Publico, "2006: o ano em que vamos ter de nos ver ao espelho", cravado por uma «Henry-Bowie» de nove polegadas; várias miniaturas de submarinos e aviões; um mapa do Iraque; um aceite do aumento de capital de 400 milhões de euros para a CGD; ordem de serviço - invasão Espanha. Ao lado, já amarelecido, o caderno de encargos da Portucel; um discurso de Tavares Moreira para a "Irmandade dos Senhores do Défice"; uma fotografia assinalando a vermelho o rosto de Teodora Cardoso; um par de óculos oferta do Prof. Cavaco. Acolá, um curioso opúsculo em defesa do "Incumprimento do PEC pela França, Alemanha e Holanda"; uma fotografia do Ministro da Administração Interna a sorrir a Alfredo Assunção; a "Revisão do PEC" assinado por Durão Barroso; uma foto com dedicatória de Luís Delgado. Mais além, a acta do "Endividamento da Madeira", encontro secreto das Finanças e Alberto João Jardim; um volume rasgado da "Política Orçamental e a Estabilização Económica" de Cavaco Silva; uma "Carta prudente para uma razão indolente", copiosos conselhos de Miguel Cadilhe aos crentes. Novo plano: X , inclina-se sobre a mesa, apanha uma manuseada e gasta moleskine. Depois, ouve-se uma voz off:

Voz de X: A Lei de Ferreira Leite ou a Arte de Governar, necessária a todo o género de pessoas, utilíssima aos cidadãos e aos pregadores desenganados, novamente feita e ordenada pela Ilustríssima e Reverendíssima Senhora Ferreira Leite, qualificadora da Nova Reforma, Consultora da Bula do PEC, e Pregadora do Condado Portucalensis, & etc, & etc, Ano de 2003, a Ocidente da Península Ibérica

- Os dicionários dizem ser a Política a arte de governar um estado. A confusão começa sempre por aqui.
- O poder vem de não ter. As clientelas esperam, por isso, querer é poder.
- "Aconteceu-me um ministério" - eis o que deve dizer o neófito da governação.
- O que mais importa na governação são as cunhas que se acolhem. O resto é matéria para intelectuais.
- A Ministra das Finanças, com um ataque de choro, caça défices.
- Se um Governo tem uma ponta, procure, que tem outra. Lá estará, concerteza, Tavares Moreira.
- Uma das boas coisas que há para acreditar é na existência de Carlos Tavares.
- Todas as leis, sejam medíocres, más ou piores, devem ser seguidas à risca. Na dúvida perguntar ao Marques Mendes.
- Em presença de Santana Lopes, nunca comprar abóboras meninas.
- O Ministro da Defesa, dentro de um submarino, assobia sempre a Portuguesa.
- Não se chateie se o Programa da Oposição lhe parece idiota: amanhã será pior.
- Mais vale uma Câmara na mão do que várias a protestar por cima das nossas cabeças
- Incompetência mais incompetência é igual a um Governo perfeito.
- Se houver vontade politica suficientes, o INE prova qualquer coisa.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2003


 
Rainer Maria Rilke [1875-1926]

Nasce em Praga, a 8 de Dezembro de 1875

"O tempo não é uma medida. Ser artista é não contar" [Rilke, in Introdução a «Cartas a um Poeta», Portugália, s/d]

"Só uma coisa é necessária: a solidão ... E o seu crescimento é doloroso como o das crianças e triste como a ante-primavera. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém, a isto é que é preciso chegar..." [Rilke, in Cartas a um Poeta, ibidem]

"Creio que devia começar a trabalhar, agora que aprendo a ver. Tenho vinte e oito anos, a até aqui aconteceu tanto como nada. Vamos repetir; escrevi um estudo sobre Carpaccio, que é mau; um drama chamado «Matrimónio» que quer provar, por meios equívocos, qualquer coisa falsa; e versos. Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), - são experiências." [Rilke, in Os Cadernos de Malte Laurids Brigge", Coimbra, trad. Paulo Quintela, 1955]

"[Rilke] Pobre como S. Francisco de Assis, fugia dos homens e amava os animais e as coisas - as noites estreladas e os grandes ventos do Norte, as fontes de Roma, as ruas de Paris e os jardins de Espanha. Solitário, para que o barulho ensurdecedor da voz humana o não impedisse de ouvir os maravilhosos silêncios da Natureza, o Poeta do «indizível», do «inexprimível», percorreu todos os caminhos da Europa e do Norte de Africa, - sem pátria, sem família, sem profissão ... " [Fernanda de Castro, in Introdução a «Cartas a um Poeta», Portugália, s/d]

"Descanso! Ser hospede por fim. Não ter de matar sempre a própria fome com mantença escassa. Não ter de lançar mão a tudo com gesto hostil; poder abandonar-se todo e saber: Tudo o que acontece é por bem. Também o animo precisa de estender-se uma vez por outra ao comprido e enrolar-se em si próprio nas dobras de colchas de seda. Não ser sempre soldado…" [Rilke, in "A balada do Amor e da Morte do Alferes Cristóvão Rilke", Coimbra, Trad. Paulo Quintela, 1943]

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2003

DANIEL, O REVOLUCIONÁRIO




"Quando chegam as andorinhas, nunca se deve modificar a forma de andar" [MHL, AO, CC]

Decididamente, e contrariando boatos da reacção que insistiam em dar como extinta a excelsa classe dos revolucionários, eis que através de uma posta, o grande Daniel confessa-se e mostra que está vivo os ideais da revolução. Incomodado com as manifestações pequeno-burguesas da camarada Odete, dado a sua instrumentalização pela perfídia do capital e antevendo um perigoso desvio direitista na luta de classes moderna, o camarada Daniel vilipendia não só a senhora, mas ainda tem tempo de, num desvairado reconhecimento, confessar a sua "formatação" ao longo de 80 submissos anos. Fomos às lágrimas. Na foto acima, pode testemunhar-se a vitalidade revolucionária do Grande Daniel "em plena campanha de mobilização das massas contra a reacção", enquanto suspirava por Alexandra Kollontai e Rosa Luxemburgo.

[Será conveniente referir, que não seguimos o que Barthes afirmava sobre o carácter conservador da fotografia, e que muito bem questionou o nosso Terras do Nunca, pois muito embora a imobilidade e a fixação do instante da pose exista, o que pode significar uma manifestção de conservadorismo, julgamos que o camarada Daniel jamais será manipulado pela verdade fabricada do real (Barthes dixit) que a fotografia sugere. Pois canté!]